Acidente expõe crise do programa brasileiro, diz pesquisador

De acordo com Jefferson Simões, o incêndio em estação na Antártida comprometeu 40% do programa antártico brasileiro

AE |

O incêndio que atingiu a Estação Antártica Comandante Ferraz pode ter sido um acidente, mas é simbólico de uma crise no Programa Antártico Brasileiro (Proantar), diz Jefferson Simões, diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), maior referência da ciência brasileira na Antártida. De acordo com o pesquisador, 40% do programa antártico brasileiro foi comprometido.

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“Foram afetadas principalmente as áreas de biociência, algumas pesquisas sobre química atmosférica, de monitoramento ambiental, principalmente sobre o impacto da atividade humana naquela região do planeta. Infelizmente, isso também representou uma perda enorme em termos de equipamentos. Ainda não podemos estimar, mas ultrapassa a casa da dezena de milhões de dólares”, lamenta o pesquisador, que já esteve 19 vezes no continente gelado.

Segundo Simões, no entanto, o programa antártico continuará funcionando porque a Comandante Ferraz, apesar de concentrar uma parte importante das pesquisas brasileiras, não era a única estação científica brasileira. Ele explica que, pelo menos metade dos pesquisadores, trabalha em navios de pesquisa ou em acampamentos isolados na Antártica.

Além disso, Simões conta que, em janeiro deste ano, foi inaugurado um módulo de pesquisa no próprio Continente Antártico, chamado de Criosfera 1, localizado a 2.500 quilômetros ao sul da Comandante Ferraz, que está concentrando importantes pesquisas brasileiras. Segundo a Academia Brasileira de Ciências, essa é a estação de pesquisas latino-americana mais próxima do Polo Sul.

“É um módulo totalmente automatizado, que coleta dados meteorológicos, de química atmosférica, inclusive dióxido de carbono, e outros estudos. Essa expedição [de instalação do módulo] foi liderada por mim, com pesquisadores de sete instituições nacionais, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro”, disse.

De acordo com o pesquisador, a reconstrução da Estação Comandante Ferraz demorará, pelo menos, dois anos, em consequencia das condições geográficas da Ilha Rei George. “O processo de reconstrução, para voltar ao nível em que estava, demorará de dois a três anos. A logística é muito difícil e só podemos construir durante o verão antártico. E o inverno já está chegando”, disse.

Problemas

Outros sintomas encontrados da crise que atinge o Programa Antártico Brasileiro, são o fato de o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel - essencial às operações no continente gelado - estar quebrado há quase dois meses, no porto de Punta Arenas (Chile), e a barca cheia de combustível que afundou perto da base em dezembro, conforme noticiado nesta sábado pelo jornal "O Estado de São Paulo". 

"Tudo isso ocorre num momento crítico do Proantar, em que estamos justamente fazendo uma reanálise estratégica de todo o programa", disse Simões. 

O número de pessoas na estação (60 no total, segundo apurou o Estado), é uma questão preocupante, segundo Simões. O número máximo, segundo ele, deveria ser 40. "Quando você começa a colocar muita gente, começa a estressar o sistema. É algo que vai passar pelo crivo da nossa avaliação, e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) está ciente disso." 

As condições de manutenção da base, segundo Simões, eram satisfatórias, "mas estão muito longe do ideal". 

Um problema crônico da atuação do Brasil na Antártida, segundo ele, é a falta de estabilidade orçamentária do Proantar. O montante, segundo Simões, oscila entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões por ano. O relatório de avaliação deve ser concluído em março ou abril e entregue ao MCTI.

Com AE e Agência Brasil

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