A longa jornada de um meteorito marciano

Fragmento de Marte que caiu no Marrocos viajou para vários lugares antes de ir para Museu de História Natural de Londres

The New York Times |

Darryl Pitt via The New York Times
Meterorito que caiu em Marrocos pode ser um dos mais importante já estudados nos últimos 100 anos
Um fragmento de Marte caiu sobre o Marrocos em julho. Isso foi apenas o princípio de sua viagem sobre a Terra. O maior pedaço do meteorito viajou do Marrocos para Paris e depois para Nova York, onde o colecionador que o comprou andou de bicicleta com ele em sua mochila. Finalmente, ele foi para Londres.

O Museu de História Natural da cidade anunciou que havia comprado o meteorito no dia 8 de fevereiro. "Eu diria que provavelmente se trata da queda mais importante em cem anos", afirmou Caroline Smith, curadora de meteoritos do museu.

Das dezenas de milhares de meteoritos encontrados na Terra, apenas 61 provêm de Marte. O novo meteorito também foi somente o quinto, vindo de Marte, cuja passagem flamejante pela atmosfera foi vista por pessoas no solo.

Isso é significativo para os cientistas. Quando as quedas de meteoritos são presenciadas, eles sabem que as rochas permaneceram pouco tempo no solo, o que minimiza a contaminação por água e reações químicas na Terra. As cercanias desérticas do Marrocos garantem ainda mais que os minerais presentes nesse meteorito - chamado de Tissint, por causa de uma aldeia vizinha - estejam puros.

A mineralogia do Tissint parece ser compatível com a mineralogia dos tipos mais comuns de meteorito marcianos. As rochas parecem ter se solidificado como resultado do magma marciano, entre 400 e 500 milhões de anos atrás, e foram lançadas do planeta há apenas 1 milhão de anos - o que é bastante recente para a história do sistema solar, que tem 4,5 bilhões de anos.

É improvável que o meteorito forneça informações sobre se o ambiente de Marte foi favorável à existência de vida em seus primórdios, mas ele fornecerá pistas sobre a história do vulcanismo no planeta.

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"Não é em si mesmo muito diferente dos objetos que descobrimos anteriormente", afirmou Anthony Irving, especialista em meteoritos da Universidade de Washington, que analisou um fragmento do Tissint. "É uma peculiaridade a mais", afirmou.

Contudo, a análise detalhada da rocha apenas começou. O exterior possui uma crosta preta brilhante, queimada por uma bola de fogo geradora de calor enquanto passava pela atmosfera terrestre no dia 18 de julho. O interior exposto pela rachadura é cinza e friável e atravessado por nervuras negras.

Uma das primeiras ações do museu será colocar a rocha em um potente aparelho de tomografia computadorizada para verificar a estrutura em seu interior. As bolhas do interior da rocha ainda podem conter uma quantidade muito pequena de ar marciano.

A população da região distante do Marrocos na qual o meteorito aterrissou  - nômades, na maioria  - viu a bola de fogo e ouviu ruídos sônicos. Passados alguns meses, a população começou a encontrar as partes do meteorito e, em meados de dezembro, colecionadores do mundo manobravam para comprá-las.

Em seguida, surgiram rumores de que o bloco principal, o maior de todos, havia sido encontrado. Isso chamou a atenção de Darryl Pitt, colecionador de meteoritos de Nova York, que já havia adquirido pedaços menores do meteorito.

"Eu estava ligando para meus amigos do Marrocos e enviando e-mails para eles", afirmou Pitt, que trabalha como empresário de músicos de jazz. "E quase desisti. Estávamos sem perspectivas de progresso. Então recebi um telefonema de uma das pessoas do grupo, ele disse "Eu tenho esse objeto". Eu disse: "Sério"? E eu realmente queria adquiri-lo", afirmou.

Ele contou com a ajuda financeira de David Gheesling, colega colecionador de Atlanta. Após negociar com o vendedor, eles estavam convencidos de que a oferta era realista e pagaram adiantado, por transferência bancária, um adiantamento de seis dígitos pela rocha de 10,88 quilogramas.

Desde aquela ocasião, eles já queriam que o espécime terminasse em um museu. "É tão óbvio que o lugar dele não é em uma coleção privada", afirmou Gheesling. "Muitos destinos diferentes poderiam ter sido dados para esta pedra. Um deles poderia facilmente ter sido cortá-la em milhões de pedaços."

Com a venda dos pedaços do meteorito Tissint por até US$ 1.000 o grama, esse destino teria sido bastante lucrativo.

Pitt enviou um e-mail para o Museu Americano de História Natural, em Nova York, no início de janeiro, afirmando que colocara a venda partes do Tissint. Não obteve resposta. Em seguida, ele contatou Sara Russel, chefe da divisão de meteoritos do Museu de História Natural de Londres. Ela respondeu.

Enquanto Pitt tratava da venda com o museu, deixou de mencionar uma questão que poderia criar um impasse: ele ainda não possuía o meteorito. "A situação estava ficando um pouco enervante", afirmou. "Ouvíamos uma história após a outra."

Para receber o objeto do vendedor marroquino, Pitt voou para Paris, apanhou o meteorito, e voltou a Nova York no voo seguinte.

Na manhã seguinte, Pitt pedalou para o trabalho com o meteorito na mochila. Ele fez uma rápida visita ao estúdio de gravação do programa The Colbert Report, do canal de televisão americano Comedy Central, para mostrar a rocha a um produtor conhecido seu, mas ele não estava. Em vez disso, ele o mostrou ao segurança, que olhou para ele de forma estranha.

No dia 27 de janeiro, o Museu de História Natural confirmou que tinha dinheiro para comprar o meteorito. A quantia correspondia a diversas vezes o valor do orçamento anual de aquisição do museu - nenhum dos envolvidos quis dizer exatamente quanto ele custou - e Smith afirmou que um único doador forneceu metade do valor.

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