A incrível e triste vida de Henrietta Lacks

Como uma americana negra e pobre mudou a história da medicina com suas células, mas nunca se beneficiou disso

Alessandro Greco, especial para o iG |

The New York Times
Henrietta Lacks com seu marido David, por volta de 1945: suas células revolucionaram a medicina
Ela era baixinha, negra, pobre e morreu aos 31 anos em 1951. Durante décadas ela era conhecida – e mundialmente admirada – apenas como HeLa.

Na verdade, conhecidas são as suas células pois a plantadora de tabaco americana Henrietta Lacks era basicamente uma desconhecida em seu país e no mundo até o lançamento, este ano, do livro “The Immortal Life of Henrietta Lacks”, da jornalista Rebecca Skloot (a tradução em português deve sair em abril de 2011 pela Companhia das Letras. Leia resenha ).

Henrietta nunca soube que os médicos do hospital Johns Hopkins, um dos mais importantes dos Estados Unidos, haviam retirado células do câncer de colo de útero que terminaria por matá-la. Mesmo seus filhos e marido souberam apenas 20 anos após sua morte que as células de Henrietta haviam se tornado a primeira linhagem de células imortais crescidas em cultura e que foram fundamentais para o avanço de medicina em áreas tão distintas como quimioterapia, clonagem, fertilização in vitro e a vacina da polio.

Cem prédios Empire State
Atualmente as células HeLa continuam mais ativas do que nunca em milhares de laboratório de todo o mundo embora ela esteja morta há 59 anos. “Deus e todo mundo as usam”, afirmou ao iG o professor Ricardo Brentani, professor emérito de Oncologia da Universidade de São Paulo (USP), presidente do Hospital do Câncer e diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisado do Estado de São Paulo (Fapesp). E completou: “Certamente há muito mais células da Henrietta Lacks nos laboratórios do que ela tinha quando ia ao supermercado”. No livro, Rebecca estima que se todas as células Hela fossem empilhadas teriam o peso equivalente a cem Empire States Building, em Nova York (um dos prédios mais altos dos Estados Unidos com 102 andares). Até 2009, segundo dados levantados por Rebecca, mais de 60 mil artigos científicos haviam sido escritos sobre as células HeLa e eles cresciam a uma taxa de 300 artigos por mês.

Getty Images
Imagem fluorescente de cultura de células HeLa: vendida a 25 dólares o tubo de ensaio
O câncer de colo de útero é um dos que mais atinge mulheres em todo o mundo. Com cerca de 500 mil casos novos por ano no mundo, ele é o segundo tipo de câncer mais comum entre as mulheres, sendo responsável pela morte de 230 mil mulheres por ano segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). No Brasil, para 2010, são esperados mais de 18 mil casos novos, ou seja 18 casos para cada 100 mil mulheres. Atualmente sabe-se que o surgimento deste tipo de câncer está associado à infecção por um dos 15 tipos oncogênicos do vírus Human papillomavirus (HPV). “A linhagem celular derivada do tumor de Henrietta contem o DNA do HPV tipo 18, um dos mais oncogênicos.”, explicou ao iG a pesquisadora Luisa Villa, do Instituto Ludwig que trabalha com células HeLa há mais de 25 anos e liderou as pesquisas no Brasil que levaram à criação da primeira vacina contra HPV aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em 2006 – a vacina é eficaz contra quatro tipos de HPV (6, 11, 16 e 18).

E elas – as células HeLa -- continuam a ser reproduzidas em laboratório e literalmente vendidas por US$ 25 o tubo de ensaio. Sim, as HeLa também se transformaram em um grande negócio financeiro. Novamente a família Lacks foi esquecida e pior até: nunca se beneficiou dela e nenhum dos filhos de Henrietta conseguiu ter plano de saúde e muito menos ir à universidade.

As células HeLa também foram ao espaço na primeira missão especial para ver o que acontecia às células humanas em um ambiente de gravidade zero. O trabalho com células HeLa mudou a medicina, mas sua dona ficou na sombra durante décadas e sua família nunca se beneficiou disso. Esta é a incrível e triste história de Henrietta Lacks.

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