A ciência do pênalti

Estudos no Brasil e Estados Unidos avaliam a influência da pressão da torcida e os sinais que podem prever a direção do pênalti

Thiago André, especial para o iG |

Getty Images
Cobrança de pênaltis entre Paraguai e Japão, durante as oitavas de final da Copa do Mundo
Em clima de Copa do Mundo, em que muitos jogos nas fases finais precisam ser decididos nos pênaltis, uma pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) demonstrou que o estresse influencia na resposta motora dos atletas, comprometendo o desempenho durante esse tipo de cobrança.

O autor do trabalho, Nelson Miyamoto, chegou a essas conclusões após analisar 21 voluntários, sozinhos e sob pressão de uma torcida, em uma série de tarefas que simulavam cobranças de pênalti no computador.

O experimento sem estresse foi feito em uma sala vazia com poucos estímulos sonoros e luminosos, enquanto nos testes com estresse, 70 alunos de Educação Física da USP entraram na sala para torcer a favor ou contra os voluntários. Para demonstrar que eles realmente estavam submetidos a uma situação de estresse, o pesquisador coletou saliva e verificou a presença de altas concentrações do hormônio cortisol, além de ter identificado aumento de frequência cardíaca em todos os voluntários.

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“Na situação sem estresse, em que analisamos as respostas motoras aos estímulos visuais, os voluntários chegaram próximos dos 100% de aproveitamento nas cobranças de pênaltis”, afirmou Miyamoto. “Mas com a pressão da torcida eles não conseguiram ultrapassar os 80%, mesmo tendo tempo de perceber a movimentação do goleiro para um lado e poder escolher o outro. Isso mostra que em situação de estresse o jogador sabe o que deveria fazer, mas acaba errando.”

Para o pesquisador, as respostas fisiológicas do corpo ao estresse e a programação motora realizada pelo cérebro utilizam praticamente os mesmos circuitos neurológicos nas duas situações, ou seja, na simulação computacional e nas cobranças reais de pênaltis. “Para comparar e validar os resultados, também coletamos dados junto a atletas profissionais do Barueri e com alguns jogadores das categorias de base do Corinthians. Os resultados foram bem parecidos, mostrando que o estresse pode atrapalhar tanto a concentração do jogador como a reposta do corpo para o momento decisivo”, aponta Miyamoto.

Prevendo o chute
Calcula-se que, em mais de 80% dos casos, o goleiro não consegue pular para o lado correto e defender o pênalti. Pensando nisso, cientistas do Instituto Rensselaer Polytechnic, em Nova York, identificaram alguns sinais precoces nos atletas que podem ser utilizados para o goleiro prever a direção da bola no gol.

Em uma sala que simulava a cobrança de pênaltis, foram utilizados mais de 40 sensores de movimento em articulações de três jogadores de futebol, que cobraram mais de 100 pênaltis para ambos os lados do gol. De 27 movimentos do corpo executados durante as cobranças, por repetição os pesquisadores selecionaram cinco que podem ser utilizados como um indicador confiável de onde a bola vai.

Em um segundo experimento, foram mostrados vídeos dos pênaltis da primeira experiência a 30 jogadores, que viram os chutes apenas pelo ângulo de onde o pé dos jogadores tocou a bola. Em seguida, a tela ficou em branco e os atletas tinham que adivinhar rapidamente o percurso da bola. Metade dos indivíduos conseguiu acertar.

Segundo os estudiosos, o trabalho poderá dar origem a um novo regime de treinamento de percepção, uma vez que embora haja muita habilidade física envolvida em colocar a bola fora do alcance do goleiro, um pênalti é fundamentalmente um jogo mental entre o jogador e o goleiro. Assim, as novas descobertas poderiam, eventualmente, ajudar jogadores e goleiros a “enganar” uns aos outros.

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