A ciência do novo Planeta dos Macacos

A convite do iG, especialistas em terapia gênica e comportamento animal assistem ao filme e separam a ciência da ficção

Natasha Madov, iG São Paulo |

A princípio, parece uma história plausível: um jovem cientista busca a cura da doença de Alzheimer   usando terapia gênica , acidentalmente criando um primata de inteligência excepcional no processo. “Planeta dos Macacos – A Origem”, novo filme da famosa série de ficção científica que estreia nesta semana, se passa em São Francisco (EUA) nos dias de hoje e levanta uma série de questões  envelopadas em duas horas de ação com efeitos especiais.

Veja o infográfico: Teorias reais que alimentam a ficção científica
Crítica: "Planeta dos Macacos - A Origem" dá novo fôlego à franquia
Dos anos 1960 até hoje, a saga de "O Planeta dos Macacos"

Para avaliar o filme do ponto de vista científico, o iG convidou para uma sessão exclusiva para a imprensa Marcelo Morales, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que além de estudar terapias gênicas e com células-tronco para fibrose cística , é coordenador do Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, que regula o uso de animais em experiências científicas no país. Junto a ele esteve a primatóloga Patrícia Izar, professora do departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo, que há 21 anos pesquisa o comportamento de macacos-prego no interior de São Paulo e no sul do Piauí.

Veja abaixo os principais pontos levantados por eles, em uma conversa após a sessão:

“Aquele cientista tinha que ser preso”
Macaco é mais humano do que se imagina
Qual a mensagem do filme?

Veja cenas de “Planeta dos Macacos – A Origem”

Divulgação
James Franco, no papel do cientista Will Rodman: exemplos do que NÃO fazer
“Aquele cientista tinha de ser preso”
Apesar dos dois cientistas deixarem bem claro que adoraram o filme, Will Rodman, o cientista interpretado por James Franco, foi alvo de boa parte das críticas dos dois. Todas as ações do personagem foram questionadas, desde levar um animal usado em uma experiência científica para casa, tratar o próprio pai com o remédio que pesquisa e até guardar um vírus na geladeira de casa. “Ele é completamente antiético, faz tudo que um cientista não pode fazer. Coloca em risco não só a si mesmo, quanto ao pai, a família, a vizinhança e até a humanidade”, diz Morales.

Ele explica que testes clínicos são feitos em várias etapas, primeiro com animais, depois com grupos cada vez maiores de seres humanos, até que se estabeleça com certeza a eficácia de uma terapia e seus possíveis efeitos colaterais. “Tudo ali é uma caricatura. Ele seria inclusive preso pelo que fez”. Patrícia corrobora: “É como se fosse aquela coisa dos quadrinhos de antigamente, o cientista maluco”.

Outro ponto é que tipo de animais os laboratórios na vida real usam. Cientistas caçam animais na natureza para usar em pesquisas? “Legalmente, essa prática não existe mais. Você pode até, com autorização, capturar animais selvagens para pesquisas de reprodução e conservação da espécie. Mas isso já aconteceu, sim,” diz Patrícia. “Mesmo porque o próprio estresse da retirada do animal de seu ambiente vai causar tantos transtornos fisiológicos que não vale a pena”, complementa Morales.

Atualmente, camundongos, cobaias, primatas e outros animais são criados em cativeiro, em biotérios específicos, e não podem ser “reaproveitados”, como acontece com o chimpanzé Koba no filme. “Isso é algo que está na Lei Arouca e em todas as leis que protegem animais de pesquisa: uma vez utilizado o animal para o propósito inicial, ele não pode ser mais usado. O estresse que foi causado no animal pode gerar no próximo experimento um resultado alterado”, diz Morales.

O professor da UFRJ também levantou um ponto de ciência conceitual que considera estar errados, apesar de serem obviamente pontos importantes na trama: como César teria herdado a inteligência de sua mãe, já que a alteração cerebral foi produto de um remédio? “Duas hipóteses: ou a substância alterou seus óvulos ou ela foi tratada já esperando um filhote,” explica. A primeira é pouco provável com o que se sabe de terapia gênica, e a segunda só reforça as falhas de procedimentos científicos dos filmes.

Macaco é mais humano do que se imagina
Qual a mensagem do filme?
Veja cenas de “Planeta dos Macacos – A Origem”


Divulgação
Comportamento dos chimpanzés é humanizado, mas em partes corresponde à realidade
Macaco é mais humano do que se imagina
O quanto os chimpanzés retratados em “O Planeta dos Macacos” são fiéis a todo o conhecimento que se tem sobre primatas? Tirando a licença poética de todas as alterações causadas pela terapia gênica de Rodman, muito dali é real. E mais: parte do comportamento “humanizado” deles é, na verdade, bem animal, segundo Patrícia.

Isso não quer dizer que não existam inverdades. Um animal social como um chimpanzé, quando criado em cativeiro como o protagonista César, teria dificuldades sérias de viver no meio selvagem sem uma adaptação prévia. “Ele não teria aprendido o repertório necessário para viver nesse ambiente, não saberia reconhecer predadores, encontrar e manipular comida. Talvez ele não conseguisse nem subir em uma árvore”, diz.

A formação de grupos de diferentes espécies, como chimpanzés, orangotangos e gorilas também não é plausível, afirma Patrícia. “Somos a única espécie que adquiriu a capacidade de cooperar para além do seu grupo de parentesco”, explica. Outros primatas se focam dentro do seu grupo, defendendo seus membros contra ameaças externas.

Outros comportamentos, como estabelecer alianças e controlar seus acessos de violência, já estão mais próximos da realidade. Patrícia cita estudos do americano Marc Bekoff, que afirma que o comportamento brincalhão de cachorros e primatas, com suas regras implícitas de não machucar, é o precursor do comportamento moral de humanos. “Não existe violência gratuita no mundo animal. As disputas ali são legítimas: comida, fêmeas, espaço, posição social”, explica.

Os extensos estudos sobre chimpanzés mostram que eles são capazes de se comunicar em linguagem de sinais (por não possuir a estrutura anatômica que permite a fala em humanos), usar ferramentas, discernir quem coopera e quem não coopera com eles, e de fazer alianças estratégicas em busca de poder. “Dois podem se juntar contra um terceiro para depô-lo, há traições, é uma política muito similar à humana” descreve Patrícia. “Chimpanzés são uma das poucas espécies que busca guerra. Os machos saem para brigar com outro grupo e chegam a matar. Não tem nenhuma outra espécie que se pareça tanto com o ser humano, para o bem quanto para o mal”.

A caracterização física dos macacos, feita por tecnologia de captura de movimentos semelhantes à da trilogia O Senhor dos Anéis e Avatar, foi elogiada. “Achei interessante os produtores terem respeitado características de movimento como a braquiação dos orangotangos [o transporte de um galho a outro se pendurando pelos braços], os gestos que os chimpanzés usam para pedir. Acho que foram fiéis dentro daquilo que podiam ser,” explicou a pesquisadora, que depois lembra: “Chimpanzés são muito mais fortes que seres humanos, e isso não aparece”.

“Aquele cientista tinha que ser preso”
Qual a mensagem do filme?
Veja cenas de “Planeta dos Macacos – A Origem”

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Filme levanta a questão de como o ser humano trata os animais
Qual a mensagem do filme?
À primeira vista, “Planeta dos Macacos – A Origem” pode ser interpretado como um alerta aos perigos da pesquisa científica. Mas os cientistas consultados pelo iG viram na história uma outra questão: “A ciência é colocada de forma tão caricata que não é o ponto mais importante”, opina Patrícia Izar. “A questão é o que a espécie humana faz ou pode fazer com outras espécies, principalmente as próximas ao ser humano. Nós devemos capturá-las, colocá-las em exibição num zoológico, mantê-las em casa como uma caricatura do ser humano? Isso tudo serve para refletirmos”.

“Macaco não é animal de estimação. Quem já teve a oportunidade de ver ao vivo um filhote de chimpanzé, ou qualquer macaco, sabe que é difícil não se comover, então dá para entender a vontade do cientista de levar para casa, de cuidar”, pondera Patrícia. “Mas não importa esse apelo sentimental, é uma atitude equivocada. Você salva o bicho, mas o transforma num pet”.

Patrícia diz que os homens deveriam ter um olhar mais respeitoso em relação a outros animais e seus modos de vida. Menciona, inclusive, que existe um movimento que quer dar status de pessoa a grandes primatas, como gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos, entre outros.

Morales concorda: “Em um determinado momento, esqueci que eram animais enjaulados. Para mim, eram presidiários, aquilo ali era a relação do opressor com o oprimido. O que faz pensar o que não só os cientistas, mas nós todos fazemos com os animais. Quantos animais nós extinguimos, quantos colocamos em nossas casas, que já não têm mais seu ambiente natural. Mas o que me tocou em várias cenas é a questão do limite, até onde podemos ir com a ciência ou a medicina. Todos nós precisamos reconhecer que temos um limite. Ele deve ser respeitado, inclusive pelos cientistas”.

No fim, como os dois avaliaram o filme? Marcelo coloca da seguinte maneira, e Patrícia concorda: “É um filme fantástico, como ficção científica”.

“Aquele cientista tinha que ser preso”
Macaco é mais humano do que se imagina

Veja cenas de “Planeta dos Macacos – A Origem”

Veja abaixo algumas cenas do filme. "Planeta dos Macacos - A Origem" estreia em 26 de agosto.

Caso não consiga ver o vídeo, clique para assistir na TV iG: Cenas de ação de 'Planeta dos Macacos - A Origem'

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