A ciência do envelhecimento e os cortes de verbas

Em entrevista, o especialista em envelhecimento Richard Hodes fala sobre novas pesquisas da área

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Richard Hodes, chefe do Instituto Nacional do Envelhecimento: pesquisa ameaçadas por cortes orçamentários
O Dr. Richard J. Hodes preside a principal fonte de financiamento para estudos sobre o envelhecimento no país, numa época preocupante para os pesquisadores. Justo quando a legião de americanos idosos se destaca, muitos cientistas temem que os cortes orçamentários do governo possam prejudicar a ampliação de pesquisas sobre o Alzheimer e outras doenças da idade – isso sem falar nos recentes progressos da reversão dos problemas do envelhecimento em ratos geneticamente alterados.

Hodes, de 67 anos, é diretor do– braço do Instituto Nacional da Saúde (NIH, da sigla em inglês) – há 17 anos.

Embora o orçamento tenha aumentado para US$ 1,1 bilhão sob sua guarda, a agência receberia apenas US$ 20 milhões adicionais pela proposta de orçamento da administração Obama para 2012 (outras agências dentro do NIH gastam um total de aproximadamente US$ 2 bilhões em pesquisas ligadas ao envelhecimento).

Ele incorpora o papel de cientista laboratorial comedido, muitas vezes vindo trabalhar sem gravata e com camisas de manga curta. Antigos colegas o descrevem como um cidadão-modelo que trabalha muitas horas e pratica o que prega, comendo uma dieta cuidadosa e se exercitando três vezes por semana.

Nascido em Nova York em 31 de dezembro de 1943, pouco antes da explosão populacional do pós-guerra, ele se formou em Yale e na Escola de Medicina de Harvard. Em seguida, passou a maior parte de sua vida profissional como pesquisador no Instituto Nacional do Câncer. De fato, ele manteve esse seu laboratório após ser nomeado diretor do Instituto Nacional do Envelhecimento, em 1993. Ele lidera um grupo que conduz experimentos com telômeros, as extremidades dos cromossomos nas células, buscando entender o envelhecimento e o câncer.

Cientistas geriátricos dizem que, nos últimos anos, houve um enorme crescimento na compreensão da biologia do envelhecimento, e eles creditam a Hodes o apoio a uma ampla gama de estudos – que incluem questões de estilo de vida e psicologia, partindo da premissa de que não existem soluções mágicas à vista.

Nos trechos a seguir, retirados de uma entrevista por telefone e de trocas por e-mail, Hodes discute alguns dos últimos desenvolvimentos na pesquisa do envelhecimento.

O que há de mais novo na pesquisa do envelhecimento?
A questão desafiadora se relaciona com o próprio processo de envelhecer. A pesquisa inclui algumas descobertas animadoras, mostrando que mutações genéticas – em espécies que podem incluir fungos, vermes, mosquitos, ratos – podem prolongar a longevidade. Mas a pergunta fundamental, de relevância aos seres humanos, segue sem resposta.

Recentemente, houve um relato sobre a reversão do processo de envelhecimento em ratos de laboratório. O estudo, financiado parcialmente pelo NIH, envolvia telômeros – estruturas na ponta dos cromossomos que encurtam com a idade, causando interrupção de funções nos cromossomos. Em ratos, se você desativar o gene que codifica a enzima reguladora de comprimento e função dos telômeros, esses ratos, com o tempo, sofrerão uma redução funcional e de expectativa de vida.

Cientistas usaram uma manipulação genética para reativar, nesses ratos, a enzima chamada telomerase. Esse telômero restaurado funcionou e reverteu muitos dos sinais de envelhecimento. Esse estudo ganhou muita atenção ao sugerir uma intervenção que pode ser viável com a restauração da telomerase e da função do telômero.

Quais as últimas descobertas sobre dietas e exercícios?
As evidências de que o estilo de vida faz diferença estão em toda parte. Um dos melhores exemplos apareceu num estudo de prevenção de diabetes, financiado pelos institutos de envelhecimento e diabetes. Pesquisadores compararam estratégias para redução de diabetes em indivíduos com alto risco de desenvolver a doença. Um grupo recebeu as melhores informações sobre bons tratamentos; o segundo recebeu metformina, medicamento que reduz o nível de açúcar no sangue; e o terceiro grupo, o do “estilo de vida”, seguiu um programa de exercícios e alimentação.

A idade foi uma variável. Em adultos jovens, tanto o estilo de vida quanto o medicamento foram eficazes. Para aqueles acima de 60 anos, o remédio não surtiu efeito, mas a intervenção no estilo de vida reduziu os novos casos de diabetes em 71 por cento. Em 2009, um estudo de acompanhamento mostrou que o grupo de mais idade havia mantido parte da perda de peso e da atividade, além de alguns dos benefícios do metabolismo de glicose. E o estudo continua.

E as pesquisas sobre exercícios específicos para o envelhecimento?
A epidemiologia sugere, com muita certeza, que a atividade física e os exercícios se correlacionam a uma redução no risco de morte, doenças cardíacas e debilitações. Porém, será importante testar essas correlações em ensaios clínicos, para conhecermos com segurança as causas e efeitos.

Hoje temos um grande ensaio clínico em andamento, comparando dois grupos: um deles recebe apenas informações sobre um estilo de vida saudável, enquanto o outro coloca indivíduos similares num rígido programa de exercícios. Ao final deste estudo, em cerca de três anos, saberemos se essa intervenção com exercícios evitou que as pessoas se tornassem debilitadas – um passo enorme, começando pelos fortes estudos epidemiológicos, e outros estudos de curto prazo, para determinar se possuímos alguma intervenção que pode evitar debilitações em longo prazo.

O estudo também determinará se o exercício afeta as mudanças cognitivas, se a atividade física pode preservar a função cognitiva com a idade, e se ele pode afetar o Alzheimer e a demência.

Estudos com ratos são fascinantes. O exercício nas gaiolas aprimora sua capacidade de gerar novos neurônios. O que não sabemos é se possuímos uma intervenção de exercícios que pode realmente melhorar a função cognitiva ao longo de muitos anos.

Quais são os últimos destaques na pesquisa do mal de Alzheimer?
Sentimos uma grande responsabilidade de prestar atenção no equilíbrio adequado das descobertas fundamentais em laboratório – descobertas genéticas e moleculares – e, ao mesmo tempo, assegurar que possamos traduzir essas descobertas em novas abordagens para fazer a diferença.

Um exemplo é a Iniciativa de Neuroimagem para o Mal de Alzheimer, um exemplo extraordinariamente bem sucedido de uma parceria público-privada com outros institutos do NIH, a FDA, fundações e mais de 20 companhias farmacêuticas, médicas e de biotecnologia.

As empresas estão conduzindo dúzias de ensaios clínicos de prevenção e tratamento. O NIH está financiando 37 ensaios clínicos para determinar se podemos fazer a diferença em desacelerar ou evitar o mal de Alzheimer. Esta iniciativa pretende examinar indivíduos com cognição normal, uma leve deficiência cognitiva – um estágio inicial do declínio cognitivo – ou portadores do mal de Alzheimer diagnosticável.

Estamos tentando entender quais biomarcadores, como imagens cerebrais ou exames de sangue ou fluido cerebrospinal, podem prever se um indivíduo sofrerá ou não um declínio na função cognitiva. Nos últimos dois anos, a ciência de base produziu estudos genéticos bastante animadores sobre novos fatores de risco do Alzheimer – variações de genes associados ao aumento do risco, embora não à certeza, de desenvolver a doença.

Então existe um exemplo com resultados preliminares de esperança em ensaios com seres humanos?

Eu adoraria poder falar sobre resultados positivos em evitar ou desacelerar a progressão do Alzheimer. Não temos nenhum documentado ou relatado. Existem alguns pequenos estudos preliminares.

Quais são as suas preocupações sobre a pressão para cortar gastos em pesquisas?
É muito preocupante que, num momento em que a pesquisa biomédica é necessária para abordar doenças que afetam o bem estar de uma população cada vez mais idosa, as restrições de recursos estejam limitando nossa capacidade de capitalizar sobre as muitas oportunidades promissoras de pesquisa. E o potencial impacto de longo prazo sobre a força de trabalho científica é um grande problema. Se perdermos muitos de nossos cientistas atuais, isso será uma perda significativa. Indo além, se desencorajarmos os jovens a se tornarem uma nova geração de cientistas, teremos uma situação muito difícil de reverter.

Finalmente, o que aprendemos sobre dirigir com segurança na idade avançada?
Descobriu-se que a habilidade de perceber e avaliar o que está no campo de visão de um motorista pode ser uma poderosa previsão de acidentes de trânsito no futuro.

Usando um programa de computador, pesquisadores descobriram que o desempenho na direção poderia ser aprimorado treinando pessoas em raciocínio, velocidade de processamento e memória – recursos que os motoristas usam instintivamente enquanto decidem quais estímulos podem ser relevantes. De fato, esse treinamento foi associado a um declínio no número de acidentes.

Departamentos de veículos automotores na Califórnia, Flórida e Maryland estão usando e testando o programa para ajudar a tomar decisões quanto à emissão de habilitações. Além disso, companhias de seguros como State Farm, Allstate e Hartford também estão testando essa abordagem de treinamento.

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