Pela 1ª vez, transplantes são temporários, com o objetivo de testar se receptoras serão capazes de engravidar

Nove mulheres na Suécia receberam com sucesso úteros doados de parentes vivas e tentarão em breve engravidar, disse o médico encarregado do projeto pioneiro, iniciado em setembro de 2012, mas oficialmente anunciado nesta segunda-feira.

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Equipe de pesquisa pratica antes de realizar transplantes de úteros no Hospital Sahlgrenska, em Goteborg, Suécia (4/4/2012)
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Equipe de pesquisa pratica antes de realizar transplantes de úteros no Hospital Sahlgrenska, em Goteborg, Suécia (4/4/2012)

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As mulheres nasceram sem o útero ou tiveram de removê-lo por causa de um câncer. A maioria está na casa dos 30 anos e faz parte do primeiro grande experimento para testar se é possível transplantar úteros em mulheres com o objetivo de que tenham seus próprios filhos.

Transplantes de órgãos essenciais para a sobrevivência como corações, fígados e rins são feitos há décadas, e os médicos cada vez mais transplantam mãos, rostos e outras partes do corpo para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Os transplantes de útero - os primeiros com a intenção de ser temporários, só para permitir a gestação de uma criança - empurram essa fronteira para ainda mais longe e levantam algumas novas preocupações.

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Houve duas tentativas prévias de transplantar um útero - na Turquia e na Arábia Saudita - , mas ambas fracassaram em produzir bebês. Os cientistas no Reino Unido, Hungria, EUA e em outros lugares do mundo planejam operações similares, mas os esforços da Suécia são os mais avançados.

"Esse é um novo tipo de cirurgia", disse o médido Mats Brannstrom à Associated Press em uma entrevista dada desde Goteborg. "Não temos nenhum livro didático ao qual recorrer."

Brannstrom, presidente do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade de Gothenburg, lidera a iniciativa. No próximo mês, ele e seus colegas realizarão o primeiro workshop sobre como realizar transplantes de útero e planejam publicar um relatório científico sobre seus esforços em breve.

Segundo ele, todas as receptoras dos órgãos estão bem, com muitas já tendo menstruado depois dos transplantes - um sinal de que seus úteros estavam saudáveis e funcionando nas seis semanas posteriores à cirurgia. Uma delas teve uma infecção, enquanto outras tiveram pequenos episódios de rejeição, mas nenhuma das receptoras ou das doadoras precisou de tratamento intensivo depois do procedimento médico, disse Brannstrom. Todas deixaram o hospital dias depois da operação.

As cirurgias não conectaram os úteros das mulheres a suas trompas de falópio, então elas não são capazes de engravidar naturalmente. Mas todas que receberam o útero têm seus próprios ovários e conseguem produzir óvulos. Antes da operação, alguns deles foram removidos para criar embriões por meio de fertlização in vitro. Os embriões foram então congelados, e os médicos planejam transferi-los para os novos úteros, permitindo às mulheres gerar seus próprios filhos.

A técnica usada na Suécia, com doadoras vivas, é de alguma forma controversa. No Reino Unido, os médicos planejam fazer transplantes de útero, mas apenas usarão órgãos de mulheres moribundas ou mortas. Esse também foi o caso na Turquia. No ano passado, médicos turcos anunciaram que sua paciente engravidou, mas ela teve de abortar dois meses depois.

O doutor Richard Smith, chefe da instituição de caridade britânica Womb Transplant UK, que tenta arrecadar US$ 823 mil para realizar cinco operações no Reino Unido, disse que o transplante de útero é uma histerectomia radical, mas necessita retirar uma boa parte dos vasos sanguíneos ao redor do órgão para assegurar um adequado fluxo de sangue, aumentando o risco de complicações para a doadora. Smith disse que autoridades britânicas não consideram ético deixar doadoras assumir tais riscos para uma operação que não consideram que seja para salvar uma vida.

Brannstrom afirmou que usar doadoras vivas lhe permitiu assegurar que os úteros estavam funcionais e não tinham problemas como infecções por HPV.

Médicos na Arábia Saudita realizaram o primeiro transplante de útero em 2000, mas o órgão teve de ser removido três meses depois por causa de uma complicação.

O médico sueco afirmou que espera começar a transferir os embriões a algumas de suas pacientes dentro de meses. Depois que elas engravidarem por no máximo duas vezes, os úteros serão removidos para que elas parem de tomar drogas contra a rejeição do órgão, que podem causar aumento da pressão arterial, inchaço e diabetes e também aumentar o risco para alguns tipos de câncer.

*Com AP

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