Químico defende que Marte parece ser um lugar mais provável que a Terra para a vida ter começado

"Nós somos todos marcianos, afirma cientista", publicou o jornal "The Telegraph" no dia 28 de agosto. Reportagens similares povoaram jornais e sites do mundo inteiro.

O cientista que inspirou as manchetes é o químico Steven Benner. Apesar das manchetes, Benner não é um defensor maníaco de óvnis alegando ter visto homenzinhos verdes. Pelo contrário, é um dos maiores especialistas do mundo na origem da vida.

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"Steve é um dos mestres da química orgânica abordando o problema", afirmou Robert M. Hazen, mineralogista do Instituto Carnegie para Ciência e autor de "The Story of Earth".

O motivo da celebridade recente de Benner é uma palestra proferida em uma conferência de geologia em Florença, Itália, em 29 de agosto. Enquanto falava, ele desafiou os colegas cientistas a olhar com mais afinco aos indícios que temos sobre como a vida começou.

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De acordo com Benner, dependendo de como se vê as evidências, Marte parece ser um lugar mais provável para a vida ter começado do que a Terra. A melhor maneira para determinar a resposta, no entender do cientista, é examinar determinados tipos de substâncias químicas nos dois planetas.

"Eu não tenho lado nesta luta", afirmou Benner, renomado pesquisador da Fundação para Evolução Molecular Aplicada, de Gainesville, Flórida, ao ser entrevistado depois de voltar da Itália. "A resposta poderia ser qualquer um dos dois planetas e eu ficaria igualmente feliz."

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Benner e colegas reuniram provas para um caminho potencial pelo qual os produtos químicos poderiam se tornar matéria viva. Pequenos compostos orgânicos poderiam ter reagido entre si para produzir moléculas autorreplicadoras em formato de filamento. Tais filamentos, conhecidos como RNA, se combinaram posteriormente em filamentos duplos, o DNA, no qual nós e outras espécies codificamos nossos genes.

Em experimentos, Benner e colegas demonstraram a ocorrência de muitas dessas reações nesse caminho, mas também encontraram bloqueios.

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Por exemplo, os precursores do RNA podem se ligar de muitas maneiras. Enquanto algumas reações podem conduzir as moléculas orgânicas ao RNA, muitas outras podem transformá-las em alcatrão pegajoso.

Benner e colegas descobriram que minerais contendo borato poderiam auxiliar a vida a superar esse obstáculo. Ligado aos precursores do RNA, o borato os impede de reagir de forma destrutiva, assim elas se tornam muito mais prováveis de formar compostos que poderiam vir a dar origem à vida.

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Contudo, mesmo na presença do borato, conforme Benner e colegas descobriram, os precursores não são capazes de fazer algumas das modificações finais que os transformam em RNA. Recentemente, os pesquisadores constataram que os minerais 

do molibdato podem reagir com os precursores para ajudá-los a se tornar RNA.

Embora essa química possa funcionar no laboratório, no entanto, ela talvez não tenha dado certo na Terra primitiva. Hazen e outros geólogos argumentaram ser improvável que o borato ou molibdato fossem então abundantes. Hoje em dia, o borato é encontrado em desertos formados após a evaporação de mares grandes. Porém, os desertos talvez não existissem quatro bilhões de anos atrás. Vários estudos sugerem que a Terra primitiva estava coberta de água e os continentes eram raros, se é que realmente existiam.

Já o molibdato somente se forma na presença do oxigênio. A atmosfera da Terra primitiva parece ser praticamente isenta de oxigênio.

Por ora, Marte parece mais promissor para Benner. As evidências coletadas por satélites e veículos exploradores sugerem que tanto oceanos quanto continentes existiam nos primórdios da História do planeta. Sob tais condições, o borato pode ter se formado.

Em junho, mais indícios surgiram corroborando essa ideia. Ao estudar um meteorito marciano, cientistas da Universidade do Havaí relataram que ele continha níveis elevados de boro, um dos componentes do borato.

A atmosfera de Marte primitivo também apresenta sinais de ter contido oxigênio, permitindo a formação do molibdato. Com fornecimento de borato e molibdato, Marte pode ter sido um lugar favorável para o RNA surgir, e para a vida principiar. Depois, um impacto gigante poderia ter ejetado pedras cobertas de micróbios para o espaço, as quais, mais tarde, caíram na Terra.

Na palestra, Benner não apresentou esse argumento como prova de que somos marcianos. Pelo contrário, ele ofereceu uma maneira de organizar nosso pensamento em relação à origem da vida. O cientista apresentou uma série de questões interligadas que os cientistas deveriam fazer a si mesmos.

A primeira pergunta é: a vida começou com o RNA? Se a resposta for não – e alguns cientistas acreditam ser esse o caso –, eles têm de atacar um conjunto diferente de desafios para explicar a origem da vida.

Já os cientistas que aceitam a origem da vida baseada no RNA terão de encontrar a química para produzi-la.

Benner esperava com sua exposição provocar novas pesquisas, coisa que já aconteceu. Hazen, por exemplo, está estudando pedras de 3,8 bilhões de anos da Groenlândia em busca de sinais de borato que pode não ter percebido.

Benner torce pela busca render frutos.

"Já tenho todos os desertos de que preciso. Não preciso ir a Marte."

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