Cientistas contestam que aquecimento global tenha desacelerado

Por AP |

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Relatório climático será divulgado na próxima semana e resultados já geram controvérsias

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AP Photo/John McConnico
Icebergs derretem e aumentam o nível dos oceanos


Cientistas que trabalham no relatório da ONU que trata sobre mudanças climáticas estão lutando para explicar por que o aquecimento global tem diminuído nos últimos 15 anos, apesar das emissões de gases que causam o efeito estufa continuarem aumentando.

Documentos vazados obtidos pela Associated Press mostram que existem preocupações sérias nos governos sobre como lidar com essa questão antes da reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), na próxima sexta-feira (27).

Cientistas céticos têm usado essa aparente calmaria no aquecimento da superfície terrestre, que vêm acontecendo desde 1998, para contestar o consenso científico de que os seres humanos estão ‘cozinhando’ o planeta por conta da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento de florestas que absorvem CO2.

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Espera-se que o relatório do IPCC confirme que os humanos são os responsáveis pelos problemas ambientais. O painel, porém, também está sob pressão para divulgar a informação de que o aquecimento global tem diminuído. Cientistas dizem que isso está acontecendo provavelmente por conta do calor ter sido absorvidos pelos oceanos também por conta de flutuações climáticas naturais.

"Eu acho que não incluir essa informação no relatório seria um problema, porque você só terá aqueles que contestam, dizendo: ‘Olhem, o IPCC está em silêncio sobre essa questão”, disse Alden Meyer, da Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados, em tradução livre) de Washington.

No vazamento de um rascunho de um relatório em junho, dos formadores de políticas públicas, o IPCC disse que a taxa de aquecimento que aconteceu entre 1998 e 2012 foi cerca da metade da taxa média desde 1951. O relatório citou a variabilidade natural do sistema climático, assim como efeitos de resfriamento de erupções vulcânicas e também uma fase de queda na atividade solar.

No entanto, vários governos que avaliaram o projeto se opuseram à forma como o assunto foi abordado, em comentários ao IPCC que foram obtidos pela AP.

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A Alemanha pediu para que a referência da desaceleração do aquecimento global seja deixada de fora, alegando que um período de 10 a 15 anos é muito curto para ser avaliado no contexto de décadas e séculos.

Os Estados Unidos também pediram para os autores do relatório incluírem essa informação como uma hipótese que a redução do aquecimento está ligada ao calor estar sendo transferido para o fundo dos oceanos. .

A Bélgica se opôs a usar o ano de 1998 como marco inicial de qualquer estatística. Este ano foi excepcionalmente quente, então qualquer gráfico que mostrar as temperaturas globais a partir de 1998 vai aparentar normalidade, pois a maioria dos anos subsequentes têm sido mais frios. Usar 1999 ou 2000 como o ano inicial poderia apontar uma curva gráfica mais precisa.

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A Hungria está preocupada que o relatório vá encher de argumentos os céticos sobre o aquecimento global.

Muitos céticos afirmam que o aumento das temperaturas médias globais parou na década de 1990, e o argumento deles ganhou força entre alguns políticos e meios de comunicação, mesmo que existam evidências científicas que os problemas da mudança climática estão se acumulando: a década passada foi a mais quente da história e, até dados recentes, esta década seguiu a tendência, com temperaturas ainda mais altas. Enquanto isso, o gelo do mar ártico derreteu consideravelmente, com níveis recordes de baixa no ano passado, e o rascunho do IPCC disse que o nível dos mares tem aumentado em 19 centímetros desde 1901.

Muitos pesquisadores dizem que a desaceleração do aquecimento está relacionada com os ciclos oceânicos naturais do El Niño e La Niña. Além disso, um estudo deste ano, feito por Kevin Trenberth do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, descobriu um recente aquecimento dramático nos oceanos mais profundos.

Stefan Rahmstorf, cientista climático alemão, disse que é possível que os autores do relatório se sintam pressionados a incluir a desaceleração do aquecimento global no relatório porque ele tem recebido muita atenção recentemente.

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"Eu acredito que muito do interesse que a comunidade científica tem nesse assunto foi motivada pelo debate público do tema”, disse Rahmstorf, revisor do capítulo do relatório sobre o nível do mar.

Jonathan Lynn, um porta-voz do IPCC, se recusou a comentar sobre o conteúdo do relatório, porque ele ainda não foi finalizado, mas disse que o texto iria fornecer "uma visão abrangente de toda a ciência relevante para a mudança climática, incluindo milhares de trechos de pesquisas científicas publicadas desde o último relatório, em 2007, até o início deste ano”.

O rascunho do relatório do IPCC diz que é “extremamente provável” que a influência humana tenha causado mais de metade do aquecimento observado desde 1950, uma atualização do "muito provável" que constou na última edição, em 2007.

O painel também elevou suas projeções para o aumento do nível do mar de 26 a 81 centímetros até o final do século. O relatório de 2007 prevê um aumento de 18 a 59 centímetros.

Emissões contínuas de carbono nas taxas atuais ou acima das que existem hoje "induziria alterações em todos os componentes do sistema climático, alguns dos quais, muito provavelmente, seria inédito em centenas ou milhares de anos", disse o IPCC no rascunho. A versão final será apresentada no término da reunião que acontecerá em Estocolmo, na próxima semana.

As conclusões do IPCC são importantes porque servem como base científica de negociações da ONU, para controlar as emissões dos gases CO2 e outros que causam efeito estufa. Um tratado climático global deve ser adotado em 2015.

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