Aumento da temperatura aumenta probabilidade de guerras e conflitos

Por AP | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Análise de 60 estudos sobre índice de crimes e de temperatura aponta relação entre temperatura e violência

AP

Cientistas afirmam que conforme o mundo vai ficando mais quente, o ânimo das pessoas também tende a ficar mais exaltado. Um novo estudo descobriu que atos agressivos como crimes violentos e guerras se tornam mais comuns a cada acréscimo de grau na temperatura global.

NASA Goddard's Scientific Visualization Studio
Mapa mostra variação de temperatura de 2008 a 2012. A cor vermelha representa acréscimo de 2°C na variação de temperatura

Pesquisadores analisaram 60 estudos sobre colapsos de impérios históricos, guerras recentes, índices de crimes violentos nos Estados Unidos, além de simulações de laboratório que testaram a decisão de policiais sobre quando deviam atirar. Eles encontraram algo em comum ao longo dos séculos: condições climáticas extremas – muito calor ou seca – significam mais violência.

Leia também: Anos de El Niño dobram as chances de conflitos civis, diz estudo

“Quando o clima piora, nós tendemos a ficar mais dispostos a machucar outras pessoas”, disse o economista Solomon Hsiang da Universidade da Califórnia em Berkeley, e autor do estudo publicado esta semana no periódico científico Science.

A equipe de economistas também desenvolveu uma fórmula que prevê quanto o risco de diferentes tipos de violência deve aumentar em condições meteorológicas extremas. “Partes da África Equatorial foram devastadas pela guerra a cada acréscimo de grau Fahrenheit, podemos dizer que o aumento da possibilidade de conflito entre grupos vai de 11% para 14%”, disse.

Para os Estados Unidos, a fórmula estipula que para cada acréscimo de 3° C, a probabilidade de crime violento sobe de 2% para 4%.

As temperaturas em grande parte da América do Norte e da Eurásia estão propensas a subir este tanto provavelmente até 2065, por causa do aumento do dióxido de carbono na atmosfera, de acordo com outro estudo publicado também esta semana no periódico científico Science.

“Quando o Painel Intergovernamental sobre mudança climática (IPCC) atualizar seu relatório sobre os impactos do aquecimento global no ano que vem, ele vai abordar a questão dos impactos na guerra pela primeira vez”, disse o cientista do Instituto Carnegie Chris Field, que lidera esse grupo de estudo em todo o mundo.

Mundo cada vez mais pacífico:
Steven Pinker: humanidade está cada vez mais inteligente e menos violenta
Cultura evoluiu porque seres humanos partilham conhecimento

Hsiang disse que sempre que os estudos analisados eram vistos sob a ótica de temperatura e conflito, a relação ficava clara, não importando onde ou quando.

“Em um estudo, agentes de polícia durante experimento de psicologia ficaram mais propensos a escolher atirar em alguém em uma simulação de laboratório quando a temperatura era mais quente”, disse Hsiang. Ele também apontou para o colapso da civilização maia que coincidiu com períodos de seca histórica, há de 1.200 anos.

“Há uma boa razão por que as pessoas ficam mais agressivas no clima mais quente”, disse Brad Bushman, professor de Psicologia da Universidade Estadual de Ohio e que teve seu estudo analisado por Hsiang. “Embora as pessoas afirmem que se sentem mais lentas com o tempo quente, a frequência cardíaca e outras respostas físicas são elevadas. Elas acham que não estão agitadas, mas na verdade estão, e isso é uma receita para o desastre”, disse Bushman.

Especialistas que estudam conflitos não foram unânimes quanto ao novo estudo.

“O mundo vai ficar um lugar muito violento em meio século se as mudanças climáticas continuarem a avançar”, concordou Thomas Homer-Dixon, professor de diplomacia na Escola Balsillie de Assuntos Internacionais, em Ontário, no Canadá.

Já Joshua Goldstein,a professor de relações internacionais da Universidade Americana e autor de Winning the War on War (Vencendo a Guerra das Guerras, em tradução livre) afirma ter encontrado falhas na maneira como o estudo mediu os conflitos. Ele disse também que a ideia é contrária a uma longa tendência para menos violência.

"Por causa de mudanças positivas em tecnologia, economia, política e saúde, é provável que o conflito continue a cair, embora talvez não tanto como seria sem a mudança climática”, disse.

Leia tudo sobre: mudança climáticaclimaviolênciamais lidas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas