Linguista encontra uma língua em sua infância

Por The New York Times |

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Especialista descobre o warlpiri rampaku, um novo idioma do norte da Austrália, criado por crianças

The New York Times
Carmel com membros da aldeia no norte da Austrália onde surgiu o warlpiri leve

Há muitas línguas morrendo no mundo. Mas ao menos uma nasceu recentemente, criada por crianças em uma vila remota no norte da Austrália.

Carmel O’Shannessy, uma linguista da Universidade do Michigan, estudou o discurso desses jovens por mais de uma década e concluiu que o que eles falam não é nem um dialeto, nem uma mistura de línguas, chamada crioulo, mas sim um língua com regras gramaticais únicas.

A língua, chamada de warlpiri rampaku, ou warlpiri leve, é falada apenas por pessoas com menos de 35 anos em Lajamanu, uma vila isolada de 700 pessoas. Ao todo, cerca de 350 pessoas falam o idioma como língua nativa.

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“Muitos dos primeiros falantes dessa língua ainda estão vivos”, disse Mary Laughren, uma linguista da Universidade de Queensland na Austrália, que não está envolvida com o estudo. Segundo ela, uma das razões da pesquisa ser tão significativa é que “foi possível registrar uma nova língua no primeiro período de sua existência”.

Todos em Lajamanu também falam do warlpiri “forte”, uma língua aborígene usada por cerca de 4 mil pessoas em algumas vilas australianas. Muitos também falam o kriol, uma língua crioula com base no inglês desenvolvida no século 19 e amplamente usada entre os aborígenes de diferentes línguas nativas.

Os pais de Lajamanu ficam felizes de ver seus filhos aprendendo inglês na escola, mas também querem preservar o warlipiri como a língua de sua cultura. Há uma escola primária em Lajamanu, mas a maioria das crianças vai a uma cidade próxima para continuar os estudos, onde a língua corrente é apenas o inglês. Mas eles continuam falando o warlipiri leve entre eles.

O isolamento de Lajamanu tem relação com a criação de uma nova forma de falar. O mais próximo centro comercial é a cidade de Katherine, a quase 550 km de distância. Não há estradas pavimentadas e na estação chuvosa, de dezembro a maio, fica praticamente impossível viajar mesmo para outras vilas próximas.

A vila foi estabelecida pelo governo australiano em 1948, sem o consentimento das pessoas que habitavam no local. Uma agência do governo preocupada com a superpopulação de certa aldeia, a Yuendumu, removeu à força 550 pessoas e fundou Lajamanu. Mas apenas nos anos 1970 os aborígenes se conformaram com a nova casa e pararam de tentar voltar a Yuendumu. O contato com o inglês é recente.

Carmel O’Shannessy, que começou a investigar a língua em 2002, passa de três a oito semanas por ano em Lajamanu. Ela fala e entende tanto o warlpiri leve como o forte, mas não é fluente.

Os locais frequentemente misturam as línguas, ou mudam de uma para outra conforme falam. Muitas das palavras do warlpiri leve vêm do inglês ou do kriol. Mas o idioma não é a simples combinação de palavras de línguas diferentes. Ele tem, por exemplo, um tempo verbal que indica que algo está acontecendo ou já aconteceu. Esse “presente ou passado mas não futuro” não existe nem no inglês, nem no warlpiri forte. As regras gramaticais são tão diferentes que constituem uma nova língua.

O desenvolvimento da língua, segundo a pesquisadora, passa por um processo de dois passos. Começa com os pais usando uma conversa com seus bebês que combina as três línguas (warlpiri forte, inglês e kriol). Mas então as crianças tornam essa mistura como sua língua nativa ao adicionar inovações radicais na sintaxe, especialmente no uso de estruturas verbais que não estão presentes nas línguas que serviram de fonte.

Por que uma nova língua se desenvolveu nessa época e nesse lugar não está completamente claro. Não é o caso de pessoas sem uma língua em comum precisando se comunicar, uma situação que em geral leva a criação de um crioulo ou uma forma linguística mais simples, chamada pidgin. Às vezes línguas mescladas aparecem quando cada pai fala uma língua diferente, mas não é o caso em Lajamanu.

Carmel O’Shannessy sugere a combinação de forças sutis. “A questão da identidade tem seu papel. Depois de as crianças criarem um novo sistema, ele se tornou uma marca de sua identidade, que os distingue como os jovens da comunidade de Lajamanu”, afirma.

A língua está tão bem estabelecida entre os jovens que há dúvidas sobre a sobrevivência do antigo warlpiri. “Não sei como as crianças vão manter o multilinguismo. Os mais velhos gostariam de preservar o warlpiri forte, mas não sei se vão conseguir. O leve está bem mais robusto”, diz Carmel.

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