Guardiões de tesouro peruano bloqueiam contrabando em pacote do correio

Por The New York Times |

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Ao invés de se aventurarem ao redor do mundo saqueando ruínas, arqueólogos tentam evitar que antigas relíquias de civilizações pré-colombianas sejam despachadas do país

Tomas Munita/The New York Times
A historiadora da arte Sonia Rojas (E) e a arqueóloga Gladi­z Colla­tupa separam material enviado pelos correios

Gladiz Collatupa, arqueóloga, certa vez escondeu seis múmias na casa dos pais para mantê-las seguras. Foi quando ela fez escavações em busca de artefatos nas terras do Peru, rico em resquícios de culturas passadas, como os incas e os moches. Hoje, ao invés disso, ela escava pacotes no correio, procurando por tesouros antigos sendo contrabandeados para fora do país.

Collatupa e uma colega, Sonia Rojas, historiadora de arte, são um par de Indiana Jones às avessas. Ao invés de se aventurarem ao redor do mundo saqueando ruínas, elas tentam evitar que as antigas riquezas sejam despachadas do país pelo correio.

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"Com menos perigo", observou Rojas, uma mulher pequena, de óculos e com um profundo interesse por pinturas coloniais peruanas. Ela usa uma roupa cáqui com um grande "button" que diz: "Eu defendo minha herança cultural".

As mulheres trabalham para o Ministério da Cultura do Peru como parte do programa que tem como objetivo acabar com a exportação ilegal de objetos e obras de arte de valor histórico e pré-histórico, uma sangria que começou há quase 500 anos com a conquista espanhola do império inca e não parou até hoje.

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Ano passado, a equipe do correio, à qual Collatupa se juntou em agosto substituindo outra arqueóloga, fez 22 apreensões, totalizando dezenas de itens. Eles incluíam tecidos e cerâmica pré-colombianos, fósseis, um sabre do século XIX, uma pintura a óleo, também do século XIX, de Santa Ana ensinando a Virgem Maria a ler, um carregamento de 56 livros e outros textos que pertencem à Biblioteca Nacional, e um grupo de documentos legais e religiosos do século XVIII.

Este ano, a equipe fez sete apreensões de itens que incluíam moedas antigas e réplicas de bonecas pré-colombianas que incorporam tecidos antigos saqueados de sítios arqueológicos.

"Não importa o tamanho da peça, ela é importante", disse Collatupa, que aprendeu a distinguir tecidos pré-hispânicos pelo toque – mais suave e macio com a idade – e pelos padrões na tecelagem. "Eles são parte da nossa identidade."

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Muitos dos itens são enviados para os Estados Unidos pelo correio por turistas que podem não saber que estão infringindo a lei. Outros são enviados de navio por traficantes e colecionadores que sabem exatamente o que estão fazendo.

Tomas Munita/The New York Times
Réplica de máscara pré-colombiana é apreendida em correio de Lima

Na maioria das vezes, Rojas, de 36 anos, e Collatupa, de 32, não confrontam os vilões. Mas, em março, um colecionador que tentou enviar pelo correio para o Canadá uma moeda de prata cunhada no Peru em 1838, apareceu no estabelecimento para reclamar. A moeda era falsa, ele disse, e portanto não deveria ter sido apreendida.

As palavras "Firme pela União" estavam estampadas na moeda, e Rojas manteve sua posição. Sua avaliação mostrou que era genuína, e ela ficou no país. Assim como a maioria dos outros itens apreendidos no correio, ela foi adicionada à coleção do Museu Nacional.

Ainda assim, há pouco incentivo para traficantes inescrupulosos obedecerem a lei. Um leilão da Sotheby's de obras pré-colombianas, realizado em Paris em março, arrecadou mais de 13 milhões de dólares por cerca de 150 itens. O leilão aconteceu apesar das alegações dos governos do Peru, México, Guatemala e Costa Rica de que muitos dos objetos haviam sido retirados ilegalmente de seus países.

O ponto mais alto da carreira arqueológica de Collatupa veio em 2006, quando ela trabalhou para uma companhia elétrica construindo uma estação de geração em Lima – e escavou as seis múmias que foram expostas durante a construção. As múmias, da cultura ichma, de cerca do século XV, estavam envoltas em tecido e apenas o topo de suas cabeças ficava de fora. Collatupa podia ver os crânios e um pouco de cabelo e cocares de pena. "Foi muito emocionante", disse ela.

Não havia nenhum lugar no espaço da construção para manter as múmias, então ela levou os restos mortais desidratados para a casa dos pais. Elas não eram exatamente o tipo de visita que eles esperavam que sua filha levasse para casa.

"Meus pais não gostaram", disse ela. Os convidados incomuns ficaram durante cerca de um mês em caixas na garagem, antes de partirem para achar um lar permanente em um museu local.

Embora ninguém tenha sido pego tentando enviar múmias pelo correio sob seus cuidados, Collatupa e Rojas também fizeram algumas descobertas emocionantes no correio, incluindo uma xícara de cerâmica inca do século XVI e pinturas a óleo coloniais. Collatupa às vezes sonha com seu grande feito, como recuperar um objeto roubado de um museu peruano.

Mas, na maioria das vezes, o trabalho delas parece um Natal inverso, extremamente frustrante e que nunca acaba. Elas ficam sempre abrindo e depois fechando pacotes destinados a outras pessoas.

No centro de triagem com pé-direito duplo onde elas trabalham, pacotes chegam por esteiras em espiral que parecem toboáguas em um parque de diversões. E o barulho grudento de fita adesiva sendo desgrudada do rolo nunca está longe.

Recentemente, numa manhã, as mulheres ordenaram um carregamento de várias dezenas de pacotes que deixariam o país, arrumados em pilhas por destino: 14 para os Estados Unidos, 11 para a Espanha, oito para o Japão e cinco para a França.

Elas decidiram inspecionar uma caixa com destino ao Japão porque foi enviada de Cuzco, uma cidade turística popular que é o centro do mercado negro das antiguidades. A lista do pacote dizia conter bonecas – um sinal de alerta, já que os artesãos inescrupulosos frequentemente usam retalhos de tecidos pré-hispânicos saqueados de túmulos para fazer bonecas, que eles oferecem aos turistas como artefatos incas verdadeiros.

Um agente alfandegário fez uma pequena abertura na fita que fechava o pacote, e Rojas e Collatupa vestiram luvas de látex para retirar o conteúdo. Dentro da caixa havia uma camisa da seleção peruana de futebol, um colete roxo, um chapéu de tecido e um saco plástico repleto do que pareciam ser as bonecas mencionadas na etiqueta da embalagem: duas dezenas de fantoches de dedo feitos com lã bem colorida e sintética – não pré-colombiana.

Elas colocaram os itens e de volta na caixa e a fecharam com um pedaço de fita amarela, indicando que ela havia sido aberta pela autoridade alfandegária.

Conforme as mulheres trabalham, um cão é conduzido para farejar pacotes em busca de drogas. Muitos mais pacotes são abertos pelos agentes alfandegários procurando drogas (que são achadas todos os dias, geralmente em pequenas quantidades) do que pelas mulheres procurando contrabando cultural. Às vezes, porém, as duas buscas coincidem. Em fevereiro, agentes alfandegários procurando drogas abriram uma caixa que continha 11 moedas raras de prata, cunhadas no século XVI.

"Você nunca sabe o que irá achar", Rojas disse. "Cada caixa pode ter uma surpresa."

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