Altitude influencia a forma de falar, diz estudo

Por Maria Fernanda Ziegler |

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Pesquisador descobriu que povos de regiões de ar rarefeito tendem a pronunciar sons que exigem menos da capacidade pulmonar

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Mulheres da etnia aymara conversam em praça no Peru

A formação de um idioma não resulta só da cultura de um povo; a geografia também é importante. Pela primeira vez, um estudo mostra que idiomas de povos de locais de alta altitude usam fonemas que exigem menos dos pulmões, por causa do ar rarefeito. São as chamadas línguas com consoantes ejetivas, pronunciadas sem a necessidade de usar o ar dos pulmões, apenas comprimir o ar pela boca e ‘ejetar’ o ar como uma rajada.

Caleb Everett, pesquisador da Universidade de Miami, descobriu das 567 línguas deste tipo conhecidas no mundo, 85% estavam em locais de alta altitude, a mais de 1500 metros do nível do mar. Os dados da pesquisa também mostraram que quanto maior a altitude, maior a incidência de línguas com consoantes ejetivas, como por exemplo, as línguas quechua e aymara da América Latina, ou dos índios navajo, da América do Norte. No cinema a lingua Na’vi, criada para o filme Avatar, também é um exemplo.

“Fiquei surpreso quando analisei os dados. A ocorrência em altas altitudes de 87% das línguas ejetivas é uma prova muito forte de que a geografia também influencia o sistema sonoro usado pelas línguas em todo o mundo”, disse Everett.

Veja vídeo com pessoas falando a língua quechua:

O pesquisador acredita que o ar rarefeito, com menos oxigênio e menor pressão atmosférica, seja a explicação para esta alta incidência. Isto porque quando se respira o ar rarefeito, menos oxigênio entra pelo pulmão, fazendo com que qualquer economia para a atividade pulmonar se torne necessária. “As consoantes ejetivas devem ser mais apropriadas para serem faladas no ar rarefeito por não usarem o ar do pulmão, o ar é comprimido na boca”, disse Everett, que publicou um estudo no periódico científico PLOS ONE.

Everett explica que os sons ejetivos criados pela produção e compressão de “bolsas de ar” na faringe são também mais fáceis de serem criados em altas altitudes. “Conforme a pressão do ar vai diminuindo com o aumento da altitude é preciso menos esforço para comprimir menos ar”, disse o pesquisador.

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O pesquisador vai mais longe nesta questão e diz que este tipo de idioma deve ser mais comum em altas altitudes também por reduzem a perda de vapor d’água, a desidratação, em climas secos como os de alta altitude. “Se for provado que as ejetivas reduzem a desidratação, será possível provar que o uso de determinados som é venéfico para a saúde. Por enquanto conseguimos mostrar que há uma forte correlação entre linguagem e fator geográfico em todo o mundo”, disse.

Exceção himalaia
Em todos os continentes habitados do mundo há áreas acima de 1500 metros do nível do mar em regiões como as cordilheiras norte-americanas, cordilheiras dos Andes, o antiplano andino, planalto sul africano, platô tibetano, planalto leste africano, terras altas da Etiópia, Caucaso e o planalto de Javakheti.

O único lugar de alta altitude onde não há ocorrência de idiomas ejetivos é o Tibete. Estudos anteriores, no entanto, mostraram que os tibetanos respiram mais rápido que outras populações de altitude. A habilidade excluiria a necessidade de poupar a atividade pulmonar ao falar. 

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