Artista britânico causa sensação na China com bicicleta que filtra ar

Por BBC |

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Morando em Pequim há cinco anos, Matt Hope criou veículo em resposta a alto índice de poluição da cidade

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Fernanda Morena/BBC Brasil
Macacão contra ondas eletromagnéticas foi inspirado em vestimenta de grávidas

Um artista britânico causou sensação na China com uma bicicleta que "filtra o ar" e outros objetos que propõem alternativas ecológicas e autossustentáveis em um país tido como um dos mais poluidores do mundo.

Em sua criações ele mistura arte, engenharia e ciência. Além da bicicleta, Hope criou um macacão que protege contra radiação de telefones celulares e uma usina individual de energia.

Sua proposta é inserir ideias e questionamentos sobre a poluição no dia a dia dos habitantes das metrópoles chinesas. "Não é que eu esteja fazendo grandes descobertas que vão mudar a cara da ciência. Sou um artista – ou algo entre um e outro", avalia Hope.

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A curiosidade infantil levou o britânico a desenvolver sua arte e a mudança para Pequim reforçou sua consciência ecológica.

"Desde pequeno, ainda em Londres, eu me interessava em saber como as coisas funcionavam, então ia lá e abria todas as máquinas, relógios, o que eu encontrava em casa, para ver o que tinha dentro", lembra.

Motivado pela crise econômica mundial, resolveu ir morar na China em 2007, pensando que poderia fazer sua arte pela metade dos custos.

Fernanda Morena/BBC Brasil
Bicicleta filtra poeira e limpa ar respirado por ciclista

A inspiração para o seu trabalho acompanhou a mudança. O cotidiano caótico e poluído de Pequim acabou tendo uma grande influência em suas obras.

"Eu sinto que, quando eu cheguei, queria fazer obras mais limpas, que tivessem uma cara mais industrial uma vez terminadas."

Bicicleta respiratória
Um bom exemplo é a bicicleta respiratória. Inicialmente concebida para uma exibição de design, a bicicleta acabou colocando o artista em inúmeros microblogs da internet chinesa.

Hope comprou a bicicleta em um supermercado local e adicionou uma cesta de lixo. Dentro da cesta há um gerador movido a pedaladas que aciona um filtro caseiro de ar. O ar gerado pelo filtro segue por um tubo até um capacete no rosto do ciclista.

"O ar filtrado só vem para a máscara de quem está pedalando. É bastante egoísta. Como os chineses, ou a sociedade contemporânea mundial", diz.

Para ele, o sucesso da obra está no apelo especial que ela tem para os chineses.

Na China, até o final do século 20 a bicicleta reinou absoluta como meio de transporte, mas acabou substituída pelos milhões de automóveis que atualmente ajudam a manter a poluição de Pequim em níveis insuportáveis, causando a morte de mais de 8 mil pessoas a cada ano, de acordo com estudo feito pelo Greenpeace e a Universidade de Pequim.

Macacão
Outra obra sua, o macacão de metal, funciona como uma barreira contra a poluição emitida por equipamentos eletrônicos e foi inspirado pela antena de telefone celular instalada a poucos metros de sua casa. A peça é semelhante a um avental comumente usado por mulheres grávidas na China, que temem o contato do feto com ondas eletromagnéticas e também se parece com a vestimenta usada em hospitais durante exames de raio-X.

"Quando você veste o macacão, nem ligações de celular você recebe", explica Hope.

A obra retrata a realidade de uma cidade que conta com 1,11 bilhão de usuários de aparelhos celulares, conforme o Ministério de Indústria e Tecnologia da Informação da China. Em consequência, a radiação gerada pelos aparelhos está por toda parte.

Por serem interativas, as obras do britânico acabam vulneráveis ao uso do público.

Hope conta que em uma exposição realizada há dois anos em Chengdu, no sul da China, uma de suas obras, a "usina de energia", quase acabou destruída com o grande número de pessoas que queriam "brincar" com a engenhoca.

Para criar a obra, ele se inspirou nos vilarejos onde há problemas de abastecimento de energia elétrica. Ele observou que os moradores desses locais criam suas próprias fontes de energia utilizando os equipamentos de ginástica disponíveis nas ruas. Montados com pedais que se assemelham a esquis e bicicletas estáticas, as máquinas usam a energia humana para gerar eletricidade.

"Os chineses reconhecem o material porque faz parte da vida deles, e então lidavam com a peça como se estivessem mesmo se exercitando na rua. Eles subiam, cantavam músicas da Revolução Cultural e se divertiam com a luz de estroboscópio gerada em seus rostos", ri.

Reciclagem
A peça reflete a preocupação com o fato da China ter 70% da sua produção industrial e abastecimento energético ligado a uma fonte não-renovável e altamente poluidora: o carvão.

Matt Hope também se preocupa com a reciclagem das obras que eventualmente são danificadas pelo uso. Para ele, seu estilo de arte tem esse propósito de se retroalimentar e mudar constantemente.

De olho nas mudanças impostas pela natureza, Matt Hope dá uma dica do que pode ser seu próximo projeto. "Todo meu trabalho é fruto da minha observação. Percebo coisas que às vezes as pessoas ignoram", explica Hope.

"Eu vi, por exemplo, que o telhado da minha casa está sempre coberto de grama quando está mais frio, o que me fez pensar que há mais água no ar de Pequim do que imaginamos".

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