O sobrevivente de Nagasaki que ganhou um prêmio Nobel

Por The New York Times |

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O químico japonês Osamu Shimomura, laureado com o prêmio em 2008, superou o trauma da 2ª Guerra Mundial com uma contribuição inestimável para a biotecnologia

Getty Images
Osamu Shinomura recebeu o Nobel de Química em 2008 por ter descoberto a proteína verde fluorescente, muito usada em pesquisas biológicas

Sessenta e oito anos atrás, Osamu Shimomura era um aluno do colegial de 16 anos que trabalhava numa fábrica a 12 quilômetros de Nagasaki, Japão. Sentado para trabalhar, uma luz piscou, cegando-o brevemente e a onda de pressão de uma explosão veio se aproximando.

Ao voltar da fábrica para casa, ele ficou ensopado com uma chuva negra. Imediatamente, a avó o mandou tomar banho, muito provavelmente o salvando de doenças relacionadas à radiação.

A futura esposa, Akemi, não teve tanta sorte. Ela estava a pouco menos de dois quilômetros da explosão e, ainda que protegida por um pequeno morro, sofreu durante anos com os efeitos do envenenamento radioativo.

Após a 2ª Segunda Guerra Mundial e o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, Shimomura, agora um químico vencedor do prêmio Nobel, diz que não costuma pensar nos eventos.

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Porém, no mês passado, ele esteve em Los Alamos, no Novo México, berço da era atômica, para fazer uma palestra no Simpósio do Diretor, um evento mensal. Nas proximidades, fica o museu com artefatos do Projeto Manhattan e, ao seu redor, cientistas de Los Alamos curiosos em saber como este homem, agora com 84 anos de idade e professor emérito do Laboratório de Biologia Marinha, em Woods Hole, Massachusetts, se sente em relação aos bombardeios de 1945.

Contudo, não foi esse o tema escolhido por ele para falar a cerca de cem cientistas e funcionários do laboratório de Los Alamos.

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Em vez disso, Shimomura narrou a descoberta e o desenvolvimento de uma das ferramentas mais importantes da biotecnologia moderna: a proteína verde fluorescente (GFP na sigla em inglês), amplamente utilizada na biologia celular e molecular como marcador visual. A descoberta, que aprofundou a compreensão de uma ampla gama de processos biológicos fundamentais, o fez ganhar o prêmio Nobel de química, em 2008, junto com Martin Chalfie e Roger Y. Tsien.

"Eu decidi me concentrar na ciência", ele afirmou.

E assim tem sido para Shimomura, desde pouco depois da rendição japonesa. No caos que se seguiu à guerra, ele passou dois anos "à toa", segundo suas palavras, antes de se matricular numa faculdade de farmácia, caminho que não foi sua primeira opção. Contudo, pouco depois, durante um período de folga dos estudos na década de 1950, ele começou a vida profissional, estudando a bioluminescência.

Ele escolheu como tema de estudo um crustáceo da classe ostrocoda que emite uma luz azul notável. Seu foco se concentrou numa classe de compostos químicos bioluminescentes, a luciferina. Após anos de pesquisa em Princeton, eles não haviam sido purificados.

Durante dez meses ele lutou no laboratório, até que uma noite, em vez de esquentar a mistura como costumava fazer, deixou o composto num ácido forte.

"Na manhã seguinte, vi que a mistura vermelho-escuro se transformou numa solução transparente incolor." E quando olhou com o microscópio, Shimomura percebeu que o solvente a endurecera no formato de cristais vermelhos puros e finos.

"Fiquei muito contente com o sucesso da cristalização. Deve ter sido o momento mais feliz da minha vida."

A descoberta levou ao convite, em 1959, do biólogo marinho Frank Johnson para trabalhar em seu laboratório em Princeton. Ali, ele se concentrou em estudar a medusa (ou água-viva) Aequorea victoria, cujas bordas brilham na cor verde. Em 1961, ele e a família, com Johnson, se mudaram para os Laboratórios Friday Harbor, da Universidade de Washington.

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No fim das contas, a pequena equipe coletou 250 mil medusas, tudo na caçada pela ardilosa proteína verde fluorescente.

Um dia, sentado num barco a remo, ele teve um insight.

"Era uma ideia bastante simples: a luminescência provavelmente envolve uma proteína. Se fosse assim, a luminescência pode ser inibida de forma reversa em determinado pH."

O passo revolucionário veio na forma de um lampejo azul brilhante, produzido quando ele jogou seu extrato numa pia onde água marinha de um aquário tinha acabado de ser jogada. Isso levou a uma estratégia para extrair a substância luminescente e, por fim, a uma compreensão mais profunda da GFP.

Os marcadores fluorescentes se tornaram uma técnica de laboratório padrão utilizada pelos cientistas para visualizar a atividade biológica.

"A descoberta mudou para valer a pesquisa biológica e médica", afirmou Marc Zimmer, químico computacional do Connecticut College que mantém um site sobre tecnologia. "Ela nos permite enxergar coisas que não poderíamos imaginar ver na década de 1990."

Demorou 50 anos para Shimomura tocar no assunto dos bombardeios atômicos, num artigo para um jornal japonês.

"Ninguém queria se lembrar", ele afirmou.

Contudo, em 2008, no ensaio de aceitação do Nobel, ele revelou os sentimentos acerca dos bombardeios. "Ainda que o uso da bomba de Hiroshima tenha sido justificável para antecipar o fim da guerra, a bomba lançada sobre Nagasaki três dias depois era claramente um teste de armas, e não pode ser justificado."

Em Los Alamos, 18 de abril, ele parecia contente em deixar o assunto de lado.

Já os anfitriões não pensavam assim.

Durante um jantar, Bette Korber, bióloga teórica do Laboratório Nacional de Los Alamos, contou que seu pai estava num navio de transporte se preparando para invadir o Japão. Segundo ela, durante anos, ele disse que o uso das bombas salvou sua vida. Mais tarde, porém, quando documentos que deixaram de ser considerados secretos reabriram questões sobre se a bomba de Nagasaki havia sido necessária para terminar a guerra, o pai ficou desesperado.

Gary Doolen, físico que trabalhou como projetista de armamentos no laboratório, disse haver indícios de que a segunda bomba foi lançada como demonstração da força norte-americana para os russos.

Alto e curvado, Shimomura basicamente só escutava.

Após a palestra, ele visitou o museu de Los Alamos, onde maquetes em tamanho real das bombas de Hiroshima e Nagasaki estão expostas. A esposa, Akemi Shimomura, também química por formação e sua antiga colaboradora de pesquisa, afirmou que o governo japonês foi estúpido ao não se render imediatamente após a bomba de Hiroshima.

"Estupidez foi começar a guerra", disse Shimomura.

No dia seguinte, eles voltaram. Ele tinha algo em mente. Momentos antes do bombardeio de Nagasaki, Shimomura viu um bombardeio B-29 lançar três paraquedas. O lançamento sempre o intrigou. Mais tarde, o cientista ficou sabendo que eles levavam instrumentos para transmissão de dados e medições.

Ele perguntou a John E. Pearson, o físico de Los Alamos que o convidou a dar a palestra, a respeito dos instrumentos. Após uma procura, ele encontrou maquetes da carga útil do paraquedas original.

"Um sujeito apareceu e começou a explicar o que estávamos olhando", contou Pearson. "Osamu falou: 'Sim, eu os vi caindo'. Acho que nunca vi ninguém ficar tão estupefato quanto aquele cara."

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