Tela em branco para criação de membros artificiais inteligentes

Por The New York Times |

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Cientista do MIT fala sobre evolução das próteses biônicas e do drama pessoal de ter as pernas amputadas aos 17 anos

Getty Images
Hugh Herr, do MIT Media Lab, mostra suas próteses em congresso em 2010

Enquanto crescia no interior da Pensilvânia, Hugh Herr sonhava em se tornar um montanhista. Quando tinha 8 anos de idade, ele já havia escalado o Monte do Templo, que tem mais de 3,500 metros de altura, nas Montanhas Rochosas canadenses.

Mas em janeiro de 1982, ao escalar o Monte Washington, em Nova Hampshire, ele e um amigo foram pegos de surpresa por uma tempestade e passaram quatro dias vagando pelo deserto congelado. Eles foram finalmente resgatados, mas queimaduras e hipotermia haviam atingido ambos os jovens e as pernas de Hugh Herr foram amputadas abaixo do joelho. Ele tinha 17 anos de idade.

Hoje, aos 48, Herr, um biofísico, projeta próteses computadorizadas e membros corporais artificiais como diretor do grupo de pesquisa de biomecatrônica no MIT Media Lab. Ele também é o fundador da iWalk, que fabrica membros biônicos e articulações.

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Herr conversou com a reportagem do New York Times na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Boston (antes do atentado, que resultou em pelo menos 16 amputações) e, mais tarde, por telefone. Segue uma versão editada e condensada dessas conversas.

O que você sentiu depois de ter sido resgatado no Monte Washington, em 1982?
É uma experiência bastante interessante ter de lidar com a realidade de que talvez você irá morrer. E, de repente, você não morre. Fiquei eufórico. Mas também senti muita angústia. Uma vez que fomos encontrados, ficamos sabendo que um dos voluntários, Albert Dow, tinha morrido nos procurando. A sobreposição [de sentimentos] era profundamente confusa.

Após a cirurgia, fui enviado para um centro de reabilitação. Lá, os pacientes geralmente iam para casa nos fins de semana. A primeira semana depois de ter sido equipado com minhas próteses, eles não me deixaram levá-las para casa, pois sabiam que eu iria subir montanhas novamente. O pessoal estava com medo que eu fosse danificar ainda mais o que restava de meus membros biológicos. Quando eu finalmente as levei para casa, meu irmão e eu imediatamente subimos ao longo do rio Susquehanna. Eu mal conseguia andar. Parecia um octogenário, eu andava mancando com as costas flexionadas, inclinando-me em dois bastões. Levei algum tempo para chegar até a base da parede de pedra. Mas quando completei a escalada, eu me senti em casa novamente.

Como eram suas primeiras pernas artificiais?
A: Frágeis. Eram de gesso. Um dos problemas era que elas haviam sido projetadas para o mundo horizontal – para ficar de pé e andar devagar. Elas não foram feitas para o mundo vertical de escalar montanhas.

Então, eu mesmo decidi tentar criá-las. Felizmente, eu sabia como construir coisas de madeira e metal. Entrei na minha oficina e comecei a cortar, afiar, e a explorar diferentes estruturas dos membros. Eu escalava para testar minhas criações.

Minhas primeiras aventuras em design envolveram projetar melhores membros para que eu pudesse escalar montanhas novamente. Mas logo comecei a fazer diferentes tipos de próteses com diferentes alturas, para diferentes fins. Eu ia para a escola, ou alto ou baixo, dependendo do dia.

E qual era o objetivo de tudo isso?
Diversão! Eu queria mostrar para meus colegas que ser amputado poderia ser divertido. Com os meus projetos, eu cheguei a pensar na parte artificial do corpo de uma pessoa, como uma tela em branco na qual eu poderia criar o que quisesse. Eu precisava lidar com a natureza, desde que o projeto obedecesse as leis da física.

O que faz das próteses projetadas pelo MIT diferentes das que os amputados têm tradicionalmente utilizado?
Até recentemente, as equipes que projetavam e construíam as próteses eram hábeis em engenharia ou biologia. O meu grupo entende como funciona o corpo biológico, e também tem bons conhecimentos em engenharia e design. O resultado é uma prótese biônica que imita mais de perto o movimento biológico.

Os modelos que você projetou não se parecem com pernas humanas. Você fez isso de propósito. Por quê?
Eu quis produzir extensões biônicas para o corpo humano que comemorassem o fato de que parte do corpo da pessoa é artificial.

Você fez um discurso recentemente, onde você disse que o tipo de pesquisa que você está fazendo irá revolucionar a moda. Moda?
Nós estamos batendo na porta de uma nova era na qual realmente podemos repensar o que faz parte do vestuário de uma pessoa. Em breve poderemos vestir um par de calças que terão estrutura e apoio e não serão muito diferentes do que uma segunda pele. E aí essa pele irá saber que você está indo correr, e por isso irá se adequar a sua atual situação, reduzindo assim o estresse causado pelo impacto a seu corpo, permitindo até mesmo uma função biológica saudável que se estenderá a outras partes de seu corpo.

Gostaria de lhe perguntar a respeito dos atentados na Maratona de Boston. Como você se sente sobre o fato de que você construiu algo que irá ajudar algumas pessoas que perderam seus membros neste incidente?
A: Eu fico muito feliz em saber que as pessoas que já passaram por tal tragédia poderão ter esperança. Espero que algumas das pessoas que sofreram com a explosão e perderam uma perna voltem no ano que vem e corram ou andem até a linha de chegada.

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