'Tribos perigosas': as histórias de guerra de um antropólogo

Por The New York Times | - Atualizada às

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Livro analisa a tribo dos ianomâmis e suas estruturas sociais, em um período em que eles ainda não haviam sofrido a influência do homem branco

Noble Savages via The New York Times
Membros de tribo ianomâmi dançam em ritual. Livro analisa trabalho de antropólogo com tribo amazônica

Como eram de fato os nossos primeiros ancestrais quando deixaram de ser bandos de caçadores-coletores e se tornaram sociedades mais complexas e assentadas? O antropólogo Napoleon A. Chagnon, após 35 anos pesquisando uma população notável – os ianomâmis que habitam a Venezuela e o Brasil – pode ter sido a pessoa que chegou mais perto de responder essa pergunta.

O novo livro de Chagnon, "Noble Savages" ("Bons selvagens", em tradução livre), inclui três temas. Primeiro, é uma história de aventura muito bem escrita a respeito de como o antropólogo aprendeu a sobreviver em uma cultura e um ambiente completamente diferentes dos seus, entre aldeias tomadas por um estado de guerra perpétua e onças que seguiam suas trilhas pela selva. Em segundo lugar, descreve como o autor foi compreendendo gradualmente o funcionamento da sociedade ianomâmi, uma questão de grande relevância para a evolução humana recente. Terceiro, narra as agruras que Chagnon vivenciou nas mãos da Associação Americana de Antropologia.

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A maioria das tribos estudadas por antropólogos perderam muito de sua cultura e estrutura sob as influências ocidentais. Na década de 1960, quando Chagnon visitou os ianomâmis pela primeira vez, deparou-se com um povo quase que em absoluto estado natural. Suas guerras não tinham sido suprimidas por potências coloniais. Eles estavam isolados havia tanto tempo, longe até mesmo de outras tribos na Amazônia, que sua língua demonstrava ter pouca ou nenhuma relação com qualquer outra. Cerca de 25 mil pessoas que viviam em 250 aldeias, os ianomâmis cultivavam banana, caçavam animais silvestres e invadiam os territórios uns dos outros incessantemente.

Graduado em Engenharia antes de se dedicar à Antropologia, Chagnon estava interessado na mecânica do trabalho dos ianomâmis. Ele percebeu que o parentesco era o que dava coesão às sociedades, o que o motivou a começar a montar a complicada genealogia dos ianomâmis. Isso levou muitos anos, em parte porque mencionar os nomes dos mortos, para os ianomâmis, é um tabu. Quando concluído, o trabalho revelou muitas características importantes da sociedade ianomâmi. Uma das descobertas de Chagnon foi de que os guerreiros que matavam um homem no campo de batalha geravam três vezes mais filhos que os demais.

A sua pesquisa foi publicada no periódico Science em 1988, desencadeando uma tempestade entre os antropólogos que acreditavam que a paz, e não a guerra, era o estado natural da existência humana. As descrições de Chagnon a respeito da guerra ianomâmi tinham sido ruins a ponto de ele parecer estar dizendo que a agressão era recompensada e poderia ser herdada.

Um tema recorrente em seu livro é o choque entre suas descobertas empíricas e a ideologia de seus colegas antropólogos. O viés geral da teoria antropológica é fortemente inspirado no marxismo, escreve Chagnon. Seus colegas insistiam que os ianomâmis estavam lutando por bens materiais, enquanto que Chagnon acreditava que as lutas tinham a ver com algo muito mais básico – o acesso às mulheres jovens com idade para se casar.

Para Chagnon, a evolução e a sociobiologia, e não a teoria marxista, são maneiras mais promissoras de compreender as sociedades humanas. Sob esse ponto de vista, escreve ele, faz todo o sentido que a guerra entre os ianomâmis – e provavelmente entre todas as sociedades humanas em diferentes fases de sua história – tenha propósitos reprodutivos.

Os homens formam coalizões para ter acesso às mulheres. Como alguns homens serão capazes de ter muitas mulheres, outros devem compartilhar ou ficar sem esposa alguma, criando uma grande escassez de mulheres. É por isso que as aldeias ianomâmis invadem constantemente umas as outras.

As incursões em busca de mulheres criam um problema mais complexo: o da manutenção da coesão social necessária para sustentar a guerra. Uma das principais causas da divisão de uma aldeia é a luta por mulheres. No entanto, uma aldeia de menor porte é menos capaz de se defender contra as vizinhas maiores. A estratégia mais eficiente para manter uma aldeia grande e coesa por meio de ligações de parentesco é o casamento entre primos cruzados de dois grupos de linhagem masculina. Chagnon constatou que esse é de fato o sistema geral praticado pelos ianomâmis.

Depois de deixar o xamã Dedeheiwa, um de seus informantes, exausto com uma série de perguntas sobre o motivo da aldeia se separar sucessivamente em pequenos grupos hostis, Chagnon se deparou com a sua ira: "Não faça essas perguntas estúpidas! Mulheres! Mulheres! Mulheres! Mulheres! Mulheres!".

Durante seus anos de trabalho entre os ianomâmis, Chagnon entrou em discórdia com os salesianos, o grupo missionário católico que constituiu a principal influência ocidental na região ianomâmi. Em vez de viajar de canoa e a pé para as aldeias ianomâmi remotas, os salesianos preferiram induzir os ianomâmi a se estabelecerem perto dos locais de sua missão, mesmo que isso os expusesse a doenças ocidentais às quais tinham pouca ou nenhuma imunidade, escreve Chagnon. Ele também se opôs ao fato de os salesianos terem dado armas aos ianomâmis, que os membros da tribo usavam para matar uns aos outros, bem como para a caça.

Os salesianos e os inimigos acadêmicos de Chagnon viram a oportunidade de unir forças contra ele quando o escritor Patrick Tierney publicou o livro "Trevas no Eldorado" (2000), acusando Chagnon e o conhecido médico geneticista James V. Neel de terem deliberadamente provocado uma epidemia de sarampo entre os ianomâmis em 1968.

Com base nessas acusações, dois dos acadêmicos que criticavam Chagnon o denunciaram para a Associação Americana de Antropologia, comparando-o ao médico nazista Josef Mengele. A associação nomeou uma comissão que, embora tenha absolvido Chagnon da acusação da epidemia de sarampo, no entanto, reagiu de maneira hostil, acusando-o de ir contra os interesses dos ianomâmis.

Em 2005, os membros da associação votaram por uma margem de dois para um a favor da rescisão do relatório da comissão. Mas o estrago já estava feito. Os adversários de Chagnon no Brasil conseguiram impedir outras viagens do antropólogo à região. Seus últimos anos de pesquisa sobre os ianomâmis foram interrompidos.

Em 2010, a associação votou a favor de retirar a palavra "ciência" do planejamento de suas missões, passando a focar na "compreensão do público". Seu desgosto pela ciência e seu ataque a Chagnon são agora uma parte indelével de seu histórico.

Por outro lado, Chagnon tem como legado o fato de ter sido capaz de obter um profundo conhecimento a respeito da última tribo que ainda vivia em estado natural no mundo. "Noble Savages" é uma prova notável do esforço de um engenheiro que passou 35 anos tentando desvendar o funcionamento complexo de uma sociedade humana intocada.

Sobre o livro: "Noble Savages – My Life Among Two Dangerous Tribes – the Yanomamo and the Anthropologists" ("Bons selvagens – minha vida entre duas tribos perigosas – os ianomâmis e os antropólogos"); por Napoleon A. Chagnon; Simon & Schuster; 544 páginas; R$ 87,50 sob encomenda na Livraria Cultura.

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