Declínio de insetos polinizadores ameaça lavouras em todo o mundo

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

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Pesquisa que contou com participação brasileira afirma que diversidade é fundamental para a eficácia da polinização e que substituição de abelhas domésticas não resolve o problema

Rufus isaacs
Abelhas silvestres têm grande importância na polinização das lavouras

O declínio de insetos silvestres tem sérias consequências para a produção de alimentos em todo o mundo. Dois estudos publicados esta semana, um com abrangência global e outro com análise de 120 anos de dados, mostram esta relação e alertam para a necessidade para a manutenção e manejo da diversidade de polinizadores para produção agrícola no longo prazo.

Um grupo de pesquisadores, incluindo três brasileiros, analisou dados de 600 lavouras em 20 países e descobriu que, ao contrário do que se pensava, o manejo de abelhas domésticas não é tão eficaz para a polinização das plantas quanto a feita por insetos selvagens, como abelhas silvestres, moscas, besouros e borboletas.

“A eficiência da abelha doméstica depende muito de cultura para cultura, mas a regra geral é que quanto maior for a diversidade de polinizadores, melhor será a polinização”, disse ao iG Breno Freitas, agrônomo da Universidade Federal do Ceará e que colaborou com o estudo analisando culturas de acerola, urucum e algodão. “Observamos que na lavoura de acerola, a abelha doméstica nem visita a flor. No urucum, ela não consegue tirar o fruto. Só na do algodão é que ela apresentou eficácia”, disse.

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No estudo que analisou dados dos cinco continentes, apenas em 14% das lavouras estudadas, as abelhas domésticas se mostraram eficientes, enquanto em 86% não realizaram a polinização de modo satisfatório.

Outro estudo sobre a interação entre polinizador e planta no estado americano do Illinois mostrou que tanto a quantidade quanto a qualidade da polinização decaíram ao longo do tempo.

O naturalista Charles Robertson coletou e analisou dados sobre polinização na região de Carlinville em 1890. Mais de um século depois, Laura Burkle da Universidade do Estado de Montana, nos Estados Unidos, foi analisar o que mudou na região. Os pesquisadores da equipe de Laura só conseguiram encontrar metade das espécies descritas por Robertson, apenas 54 das 109.

Freitas explica que o uso de defensores agrícolas, a perda de habitat, a monocultura e até as mudanças climáticas fazem com ocorra a redução das espécies silvestres.Isto porque as flores da maioria das culturas precisam receber o pólen antes de criar sementes e frutos, um processo que é reforçado por insetos que visitam flores. Estes polinizadores, incluindo as abelhas, moscas, besouros, borboletas vivem geralmente em habitats naturais, como as bordas de florestas, cercas vivas ou pastagens. Como esses habitats estão se perdendo por causa da expansão agrícola, ocorre o declínio destes polinizadores.

“A produção de muitas frutas e grãos importantes para a nossa dieta, como tomate, café e melancia, está limitada porque as flores não estão sendo polinizadas adequadamente”, disse, em um comunicado, Lawrence Harder, biólogo da Universidade de Calgary e um dos autores do estudo global sobre polinizadores.

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