Pesquisadores brasileiros acusam neurocientista radicado nos Estados Unidos de conduzir instituto brasileiro em prol de seus interesses pessoais

Agência Estado

Nicolelis: postura criticada por cientistas brasileiros
Flavio Moraes/Fotoarena
Nicolelis: postura criticada por cientistas brasileiros

Sete ex-membros do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis divulgaram uma carta no fim de semana na qual acusam o pesquisador de omitir informações sobre suas pesquisas na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e de agir "exclusivamente em proveito próprio" na condução do instituto brasileiro.

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Segundo os autores, Nicolelis teria mantido segredo sobre um projeto de pesquisa na Duke e publicado os resultados de forma isolada, mesmo sabendo que um de seus supostos parceiros no INCT estava desenvolvendo um projeto muito semelhante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A carta, intitulada Eu apoio a ciência brasileira, foi enviada por e-mail a dezenas de lideranças científicas do País e reproduzida no blog da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) e no Jornal da Ciência, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Na segunda-feira (25), o diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), Rômulo Fuentes, publicou duas respostas no blog da SBNeC: uma em inglês, em nome de Eric Thomson, aluno de pós-doutorado de Nicolelis na Duke, e outra em nome próprio, na qual refuta o conteúdo da carta e contra-ataca com uma série de acusações aos seus autores. Nicolelis não comentou a carta publicamente, mas declarou apoio às respostas postadas por Fuentes e Thomson. O debate se propagou pelas redes sociais, abrindo mais um capítulo na conturbada relação de Nicolelis com vários setores da comunidade científica brasileira.

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A carta é assinada por sete ex-membros do Comitê Gestor do INCT Interface Cérebro-Máquina (Incemaq), criado em 2009, sob a coordenação de Nicolelis. A sede do projeto é o IINN-ELS, em Natal, gerido por uma organização social de interesse público, presidida por Nicolelis. O "estopim" para a carta foi a publicação de um trabalho no periódico Nature Communications , no dia 12, em que Nicolelis apresenta os resultados de um experimento que ele diz ter criado um "sexto sentido" em ratos, dando a eles a capacidade de "sentir" sinais de luz infravermelha , captados por um receptor conectado ao cérebro. O trabalho é coassinado por Thomson e um aluno de graduação da USP, que fez intercâmbio na Duke.

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O documento chama atenção para o fato de que um de seus autores, Márcio Moraes, do Núcleo de Neurociências da UFMG, tem um projeto muito parecido com o de Nicolelis. Esse projeto foi apresentado na primeira reunião do Comitê Gestor do Incemaq, em julho de 2010, com a presença de Nicolelis - que não teria feito nenhuma menção ao seu próprio projeto na Duke. "Se o trabalho já estava sendo feito na Duke (...), por que manter segredo durante a reunião? Se, por outro lado, o trabalho ainda não havia sido iniciado, mas Miguel Nicolelis considerou a ideia interessante, por que não firmou colaboração com o grupo da UFMG?", questiona a carta. "Foi uma postura inaceitável da parte do coordenador de um INCT, cujo objetivo principal é justamente promover parcerias estratégicas entre cientistas e instituições para acelerar a produção de pesquisas inovadoras no Brasil", disse Moraes na segunda-feira (25), ao jornal O Estado de S. Paulo , por telefone.

Segundo ele, sua pesquisa com receptores de infravermelho acoplados ao cérebro de ratos é desenvolvida na UFMG desde 2009. Parte dos resultados, que compõem a tese de doutorado de um aluno, não poderá mais ser publicada por conta da publicação do trabalho de Nicolelis - que apresenta basicamente a mesma ideia.

"Ao privar a ciência brasileira de uma parceria justa e prometida, o Incemaq, na figura do seu coordenador, prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de INCT, mas exclusivamente em proveito próprio", conclui a carta.

Os sete autores foram desligados do Incemaq em julho de 2012. Procurados na segunda (25), nem Nicolelis nem o CNPq (órgão federal que financia o Incemaq) informaram quem são os integrantes atuais do instituto. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo .

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