Caçador de meteoritos comemora novas possibilidades de negócios

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

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Aventureiro que se ocupa de viajar o mundo em busca de pedras vindas do espaço embarca para a Rússia otimista com o aumento do interesse por meteoritos

AP
Fragmentos do meteorito são analisados na Universidade Federal de Urals, na Rússia

O americano Michael Farmer, 40 anos, vai embarcar esta semana para a Rússia com um plano bem elaborado para adquirir riquezas. Na viagem, de no máximo dez dias, o caçador de meteoritos contará com a ajuda de moradores da região para encontrar as pedrinhas vindas do espaço. Ele sabe que os fragmentos de meteorito que caíram sobre os Montes Urais, na sexta-feira, são do tipo mais comum encontrado, mas mesmo assim acredita que pode conseguir um bom dinheiro.

“As imagens da queda do meteoro rodaram o mundo inteiro. Foi impressionante. Isso faz com que o interesse das pessoas e o preço das pedrinhas aumente, mesmo que os meteoritos não tenham um valor real tão elevado assim”, disse ao iG Farmer, um dos 20 caçadores de meteoritos no mundo.

Imagens: Veja o vídeo do momento em que meteorito atravessa o céu da Rússia

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Farmer caça meteoritos há 20 anos. No ano passado, percorreu 13 países nos sete meses que ficou longe de casa, no Arizona, Estados Unidos. Um dos lugares visitados por ele foi o Brasil, onde afirma ter trocado fragmentos de meteoritos com o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ele também foi ao deserto do Marrocos, onde pegou seis meteoritos vindos de Marte.

"O legal é que os meteoros nunca caem em um lugar turístico como o Rio de Janeiro. Isso seria uma catástrofe. Por sorte, caem em lugares estranhos e distantes, que ninguém nunca vai e eu acabo conhecendo os lugares mais estranhos do mundo", disse. 

Saiba mais: Entenda por que o meteorito causou tantos estragos na Rússia

Apesar de ter passado por algumas dificuldades – o americano foi sequestrado, assaltado e quase morto na Colômbia –, considerou 2012 um ano bom. Além de aumentar sua coleção, vendeu dois meteoritos de 52 quilos para o governo do Canadá. O preço de cada um variou de US$ 500 mil a US$ 1 milhão. Também vendeu uma pedra raríssima encontrada na Califórnia para a Universidade do Arizona. “A pedra nem era tão grande, mas tinha uma composição muito rara. Fico feliz, os cientistas poderão, quem sabe, fazer grandes descobertas”, disse.

Reprodução/meteoritehunter.com
Michael Farmer tira foto com crianças no Lesoto, durante busca por meteoritos

Mas a atividade de Farmer nem sempre é assim promissora: a maioria dos meteoritos acaba sendo vendida por US$ 10 o grama. “É uma vida muito incerta. Às vezes peço dinheiro emprestado para os amigos, outras vezes sou eu que empresto”, conta o ex-militar do exército americano que comprou seu primeiro meteorito quando tinha 16 anos.

Farmer faz parte de um grupo de pessoas, que envolve caçadores, colecionadores e cientistas, aficionados por meteoritos. Existe uma associação de colecionadores, que conta com a colaboração de cientistas especializados que avaliam se a pedra que está sendo vendida é mesmo um meteorito. “A Associação de Meteoritos, formada por cientistas de todo o mundo, divulga boletins periódicos afirmando a legitimidade de cada fragmento encontrado e anunciado”, explica ao iG James Karner, curador assistente do Instituto de Meteoritos da Universidade do Novo México (EUA).

Karner também está empolgado com os meteoritos da Rússia. Ele é um dos cientistas que estuda a história do universo a partir dos sinais deixados em meteoritos que caíram na Terra. “Ao estudar a composição dos meteoritos podemos ter informações sobre o universo, sem precisar sair do planeta”, disse.

Reprodução/meteoritehunter.com
Michael posa vestido de tuareg com três pedras de 9 quilos no total encontradas no Marrocos

Essa também é a grande motivação de Farmer. “Ao pegar um meteorito, você está segurando parte do universo, mesmo sem nunca ter saído do planeta. Eu nunca vou poder ir para o espaço, então esta é a maior emoção que posso ter nesse sentido”, disse Farmer.

Passeio por Marte
A busca por meteoritos não é feita apenas por profissionais excêntricos e aventureiros como Farmer. No ano passado, Karner esteve na Antártida com representantes do Antarctic Search for Meteorites, um grupo que desde 1976 já encontrou no continente gelado mais de 10 mil pedrinhas vindas do espaço.

Por poderem revelar detalhes sobre composição e história do universo, meteoritos são objetos valiosos. Outro motivo para tanta procura e preços mais elevados que o do ouro é a raridade. “Meteoritos podem ter o peso mais caro que o de ouro, porque são mais raros que ouro”, disse Karner.

A expedição de Karner para a Antártida, resultou na descoberta de novas rochas vindas de Marte. “Esses materiais extraterrestres estavam bem preservados, por causa da camada de gelo”, disse Karner. Meteoritos são partes de asteroides ou meteoros que entram na Terra de forma incandescente. No entanto, alguns meteoritos tem origem em Marte e na Lua.

“Quando o impacto é muito grande, o meteorito consegue escapar da atmosfera de Marte e aí volta a vagar pelo espaço, podendo cair na Terra”, explicou Othon Winter, físico do departamento de Matemática da Faculdade de Engenharia da Unesp.

Reprodução/meteoritehunter.com
Michael Farmer encontrou um meteorito de 26 quilos na Suécia em 2006

O meteorito que caiu na Rússia e feriu cerca de 1.500 pessoas na cidade de Chelyabinsk foi o maior registrado em mais de um século. Viktor Grokhovsky, cientista da Universidade Federal dos Montes Urais que liderou uma expedição, afirmou à AP que foram encontrados 53 fragmentos do meteorito sob a cobertura de gelo do lago Chebarkul. Ele disse que as pedras têm menos de um centímetro de tamanho e cerca de 10% de ferro e pertencem ao tipo condrito, a variação mais comum encontrada na Terra.

“Acho que vai aumentar o valor dos meteoritos no mercado, porque o que aconteceu na Rússia aumenta a curiosidade pelo assunto e a procura pelas rochas”, disse Winter, concordando com o aventureiro Michael Farmer.

“Com esta história na Rússia acabei aparecendo na televisão, dei entrevistas. Com isso algumas pessoas até me pararam na rua e me fizeram encomendas de meteoritos da Rússia. As imagens impressionantes na semana passada foram uma boa propaganda”, ri Farmer.

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