Atirando o pau no gato

Por Alessandro Greco - colunista do iG* | - Atualizada às

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Enquanto um neozelandês pede a erradicação dos felinos de seu país, um estudo mostra sua culpa na extinção da fauna de selvagem dos Estados Unidos. Mas a pergunta é: a culpa é mesmo dos bichos?

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Gato de rua pede comida no Marrocos: princípios de posse responsável de animais são importantes

Recentemente um texto sobre gatos me chamou a atenção – e não foi pelo lado bom. Nele, o economista neozelandês Gareth Morgan convoca seus compatriotas a livrar o país dos gatos domésticos que, segundo ele, são uma ameaça à população de pássaros nativos.

Delicadamente ele criou um site com o nome Cats to Go (em tradução livre, Os Gatos Precisam Ir) com o fofíssimo slogan "A sua bolinha fofa de pelos é um assassino por natureza". Nele, defende que os donos castrem seus gatos e não os substituam quando morrerem. Chega até a dizer que a eutanásia é uma opção, embora não necessariamente.

Entenda o caso:
Neozelandês faz campanha para erradicar gatos de seu país
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Sobre a elegância e educação de Morgan ao expressar seu ponto de vista não tenho nada a acrescentar. Sua forma de expressão é bastante, digamos, clara. Agora gostaria de fazer um pequeno raciocínio sobre o tema responsabilidade. Segundo consta nos livros de história, os gatos não chegaram à Nova Zelândia voando, mas trazidos pela espécie humana. Estão lá porque nós (ou nossos antepassados) literalmente os carregamos. Aqui começa o problema – e ele não é dos gatos, mas nosso.

Ao ser levado para fora do seu habitat natural, o gato (ou qualquer outra espécie) deveria ser monitorada de perto pois a forma como ela irá se comportar depende das condições que irá encontrar no novo local. Exemplo: se não tiver predadores naturais, seus descendentes irão se proliferar acima da média e estes irão precisar comer. Com fome, irão se alimentar do que tiverem à mão (que provavelmente não é o mesmo que tinham em seu habitat natural). Resultado: o ecossistema entra em desequilíbrio. O responsável é (obviamente) aquele que levou o gato para o novo habitat e simplesmente não cuidou para que ele não se reproduzisse descontroladamente ou deixou-o na rua porque ficou cansado ou não teve mais condições de cuidar deles. Ou seja: o homem.

A coluna conversou com Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca Brasil) – ONG que atua desse 1993 na promoção do bem-estar e respeito aos direitos dos animais. Na visão dele, medidas preventivas resolveriam questões como a da Nova Zelândia. A primeira delas seria o controle de natalidade (castração) dos gatos; a segunda, uma legislação que responsabilize os proprietários por cuidar deles; e a terceira, o registro numérico e um cadastro central desses animais. A Arca Brasil tem inclusive em seu site os “10 Mandamentos da Posse Responsável" para aqueles que quiserem mais informações sobre o assunto.

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A situação, porém, não deixa de ser complexa. Em 2011, segundo Ciampi, foram esterilizados 110 mil cães e gatos na cidade de São Paulo, dentro de uma população de quatro milhões, o que significa 2,5% da população esterilizada. Para se ter um controle populacional efetivo, este número deve chegar a cerca de 70%. Dá para chegar a este número? Com certeza, sim, mas é necessário que as pessoas se conscientizem cada vez mais do que significa ter um animal doméstico.

Para se ter uma ideia do que pode causar a não responsabilização, uma pesquisa recente publicada no periódico científico Nature Communications avaliou que os gatos, principalmente os de rua, são responsáveis pela morte de entre 1,4 bilhão e 3,7 bilhões de pássaros e entre 6,9 bilhões a 20,7 bilhões de mamíferos todos os anos nos Estados Unidos. Responsáveis, os gatos?  Óbvio que não.

Leia as colunas anteriores:
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*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viverem melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT)

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