Cientistas tentam impedir extinção do diabo-da-tasmânia

Por The New York Times |

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Espécie está sendo vítima de um raríssimo câncer facial contagioso. Para salvá-la, pesquisadores estão transferindo animais saudáveis para ilha australiana

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Diabo-da-tasmânia jovem e saudável é libertado na ilha Maria, na Austrália. Iniciativa quer salvar a espécie

Em novembro, uma equipe de biólogos embarcou para a ilha Maria, cinco quilômetros ao largo do estado insular australiano da Tasmânia, levando com eles 15 cilindros plásticos. Eles colocaram os cilindros em picapes, levaram-nos a uma fazenda abandonada e os espalharam pelos campos.

Em pouco tempo, 15 diabos-da-tasmânia surgiram dos recipientes, tornando-se os primeiros a habitar a ilha.

"Tudo indica que eles estão muito bem", disse a respeito dos animais, Phil Wise, biólogo do governo especializado em fauna selvagem que chefia o projeto. Com aparência feroz, o diabo-da-tasmânia é um marsupial com jeito de cachorro que se tornou uma espécie ameaçada de extinção; o animal é oriundo da ilha muito maior cujo nome serviu para batizá-los.

Na primavera do Hemisfério Norte, a equipe planeja levar mais diabos a Maria. O objetivo é estabelecer uma colônia saudável que dure décadas. A aposta é grande, pois a sobrevivência da espécie inteira pode depender disso.

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Muitas espécies estão ameaçadas de extinção, mas o diabo-da-tasmânia enfrenta um inimigo singular, uma epidemia de câncer. Um tipo de tumor facial se transformou numa espécie de parasita, com a capacidade de se espalhar rapidamente de um animal para outro, matando as vítimas em poucos meses.

"Temos pouquíssimo tempo para salvar a espécie", declarou Katherine Belov, bióloga da Universidade de Sydney.

Uma rede internacional de biólogos passou a última década tentando entender esse novo tipo de doença.

"Tem sido uma grande luta descobrir aspectos básicos", disse Elizabeth Murchison, da Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Porém, recentemente Murchison e outros especialistas tiveram vislumbres importantes de como o câncer se transformou em parasita. Alguns cientistas estão tentando traduzir essa descoberta em tratamento, quem sabe numa vacina contra o câncer.

Não existe garantia de que os projetos salvarão os diabos, assim Wise e colegas estão criando um plano B drástico, estabelecendo um santuário livre de câncer na ilha Maria para o diabo-da-tasmânia silvestre.

Veja: Zoológico da Austrália apresenta filhotes de diabo-da-tasmânia 

Então, se os diabos morrerem na Tasmânia, explicou Belov, "a doença terá desaparecido da ilha principal e eles poderão ser reintroduzidos na natureza".

Os biólogos encontraram o câncer no final da década de 1990. Os tumores cresciam no rosto do animal ou dentro da boca, levando à morte em seis meses. Os primeiros casos apareceram na porção oriental da Tasmânia, e, a cada ano, a doença se expandia para o lado ocidental.

Quando os cientistas examinaram as células nos tumores, encontraram uma surpresa desconcertante. O DNA de cada tumor não combinava com o do diabo-da-tasmânia no qual crescia. Ao contrário, combinava com os tumores de outros animais. Ou seja, o câncer era contagioso, passando de um diabo para outro.

Existem poucos relatos de humanos desenvolvendo câncer a partir de tumores escondidos de outras pessoas em pele ou outros órgãos transplantados. Somente outro exemplo de câncer contagioso é conhecido na natureza selvagem, um tumor benigno encontrado em cachorros.

Murchison liderou a equipe de pesquisadores que sequenciou o genoma inteiro das células de dois tumores. Eles publicaram as sequências em fevereiro do ano passado e lançaram o projeto para sequenciar centenas de mais genomas de tumores faciais do diabo-da-tasmânia.

Esses estudos e outros semelhantes estão revelando como o câncer da Tasmânia teve início. Ele deve ter se originado na década de 1980 ou começo da de 1990 num único animal, provavelmente uma fêmea. Uma célula nervosa do rosto passou por uma mutação drástica: os cromossomos se separaram e voltaram a se unir.

"A célula ainda conseguia funcionar porque não há muita perda de DNA", contou Belov. "É uma espécie de aberração da natureza."

A seguir, o câncer se espalhou a outros diabos se aproveitando de seu comportamento. Os animais costumam está evoluindo.

"Até um ano atrás, pensávamos que o tumor era completamente estável", disse Belov. "Agora sabemos que não é assim."

Ela e colegas examinaram recentemente células cancerosas coletadas de diabos-da-tasmânia em 2007 e 2008 e as compararam com material obtido entre 2010 e 2012. Os cientistas pesquisaram marcadores moleculares que abrangem alguns genes, conhecidos como metilação. Esses marcadores podem impedir os genes de produzir proteínas.

Na edição de sete de janeiro da revista Proceedings of the Royal Society B, Belov relatou que os cânceres mais recentes têm menos marcas de metilação do que os antigos, sugerindo que as células cancerosas estão liberando genes e usando suas proteínas para se espalhar com maior eficácia. Segundo o relato, o câncer "não deveria ser tratado como uma entidade estática, mas como um parasita em evolução".

Até recentemente, a maioria dos cientistas acreditava que os diabos-da-tasmânia eram singularmente vulneráveis a cânceres contagiosos. Eles têm baixíssima diversidade genética, talvez não conseguindo reconhecer o tumor como algo estranho.

Porém, se esse fosse o caso, o sistema imunológico não rejeitaria o tecido de outros diabos. Na verdade, contudo, quando os diabos receberam enxertos de pele, "todos foram completamente rejeitados", afirmou Alexandre Kreiss, pesquisador do Instituto de Pesquisa Menzies, na Tasmânia. "Vimos então existir algo mais no tumor."

Descobriu-se, enfim, que as células cancerosas se camuflam. Elas pararam de produzir uma identificação molecular normalmente fabricada pelas células de mamíferos.

Todos os cientistas que estudam os tumores sabem não ter tempo a perder. O câncer já dizimou 84 por cento da população do animal e mostra poucos sinais de redução.

"Você sabe que o tempo não para", afirmou Murchison.

Porém, ela enxerga motivos para ter esperança. Na ponta noroeste da Tasmânia, por exemplo, a população de diabos mostra sinais de resistência ao câncer. Alguns dos animais parecem ter destruído os tumores. Em resultado, somente 20 por cento dos animais dali morreram.

Caso os diabos não escapem ao câncer por conta própria, os cientistas podem ser capazes de ajudá-los.

"Creio que o potencial para vacina é bastante bom se conseguirmos compreender o que está acontecido ali", disse Murchison.

Porém, Kreiss alerta que, com 35 mil diabos livres na natureza, nenhuma vacina pode ser uma panaceia.

"Mesmo tendo uma vacina perfeita, provavelmente teríamos de vacinar todos os animais mais de uma vez. Não dá para fazer isso com a população inteira."

Caso o remédio não funcione, o governo australiano e o da Tasmânia colocaram de quarentena uma "população de garantia" dos diabos. O programa agora tem 500 diabos-da-tasmânia sem câncer em zoológicos e reservas. É para garantir que não se tornem domesticados demais para sobreviver por conta própria que Wise e colegas estão estabelecendo a população silvestre na ilha Maria.

Embora o diabo-da-tasmânia seja a primeira espécie conhecida a ser ameaçada por um câncer contagioso, pode não ser a última. "É bem possível que existam outros ainda não identificados", garantiu Murchison. "A doença pode levar à extinção de outras espécies."

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