Transgênicos: em direção a um debate puramente científico

Por Alessandro Greco - colunista do iG* | - Atualizada às

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Quando um ativista ambiental se retrata por sua oposição aos alimentos geneticamente modificados, é hora de questionar o que move a campanha contra os transgênicos

Getty Images
Sementes de milho transgênico: faltam provas que alimentos geneticamente modificados prejudiquem a saúde

O debate sobre alimentos transgênicos deu mais um passo importante na direção de ser tratado unicamente na forma que um tema desta envergadura merece: com dados científicos.

Recentemente o ativista ambiental Mark Lynas, um ferrenho opositor do uso da transgenia em alimentos, pediu desculpas publicamente em uma palestra em Oxford, Reino Unido, “por ter passado vários anos destruindo lavouras transgênicas.” E completou: “Lamento também ter ajudado a iniciar o movimento contra os transgênicos em meados de 1990, e, assim, ajudado na demonização de uma opção tecnológica importante que pode ser usada para beneficiar o meio ambiente”.

A mudança de posição de Lynas foi surpreendente e inesperada, mas ele a esclareceu de forma clara e sucinta no mesmo pronunciamento. “Acho que vocês devem estar pensando: o que aconteceu entre 1995 e agora que me fez não somente mudar de opinião, mas vir aqui e admitir isso? Bem, a resposta é bem simples: eu descobri a ciência, e, nesse processo, espero ter me tornado um ambientalista melhor.” A afirmação joga luz sobre o fato histórico de que os ataques feitos por diversos ambientalistas e ONGs aos alimentos transgênicos nunca foram realmente baseado em fatos científicos.

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O primeiro argumento sempre foi que estudos demonstrariam resultados temerosos para a saúde resultantes da alimentação com transgênicos. O mais recente deles foi publicado em setembro de 2012 na revista Food and Chemical Toxicology. Liderado por Gilles-Eric Seralini, da Universidade de Caen, na França, o trabalho afirmava que havia uma relação entre milho transgênico e câncer em ratos. O estudo, no entanto, foi rejeitado pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) pouco mais de dois meses após sua publicação por uma série de problemas em sua concepção e metodologia.

Outro estudo bastante conhecido afirmava que o pólen do milho transgênico poderia afetar a saúde das larvas de borboletas-monarca. O trabalho, publicado pelo periódico Nature em 1999, foi realizado por John Losey, Linda Rayor e Maureen Carter da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Nele, os cientistas expuseram, em laboratório, as larvas da borboleta-monarca a altas concentrações de milho transgênico. Dois anos depois, em 2001, seis estudos publicados em conjunto em outra publicação, a PNAS, mostraram que o pólen do milho transgênico não era uma ameaça às larvas da borboleta-monarca na natureza. Eles concluíram que para causar dano seria necessário uma concentração maior do que 1000 grãos/cm2 de pólen. A média encontrada dentro dos campos de milho foi de 170.6 grãos/cm2.

O segundo argumento básico sempre foi de que não se sabia o quanto os transgênicos afetariam o ambiente. Em 2001, uma pesquisa publicada na mesma Nature por David Quist e Ignacio Chapela, da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, afirmava que haviam sido encontrados traços de milho transgênico no milho de Oaxaca, no México, berço da origem e da diversidade do milho mundial. No ano seguinte, 2002, o editor-chefe da Nature, Philip Campbell, escreveu o seguinte sobre o artigo no editorial da revista de 4 de abril: “A Nature concluiu que as evidências existentes não são suficientes para justificar a publicação do artigo original”. Na mesma edição foram publicados ainda dois artigos apontando falhas na pesquisa de Quist e Chapela e um novo artigo deles respondendo às críticas.

Aqui não se trata de ser contra ou a favor do uso de alimentos transgênicos, mas, sim, de olhar os fatos científicos e averiguar o que eles tem demonstrado ao longo dos anos -- goste-se ou não deles. Esta é a base da ciência. Não quer dizer que ela seja infalível, mas é atualmente a melhor ferramenta disponível para discernir o caminho mais adequado a seguir.

Agora a pergunta que sempre me faço é: então por quê? Por que atacar de forma tão violenta o uso específico de uma tecnologia? A única resposta que consigo dar a mim mesmo é o medo intrinsecamente humano da novidade, daquilo que não se conhece. Mesmo assim ela não me satisfaz completamente pois foram feitos – e continuam sendo realizados – milhares de estudos de campo com alimentos transgênicos ao longo dos últimos 30 anos no mundo e eles demostram que estes são ao menos tão seguros para consumo quanto os não transgênicos e que não há evidências de que eles gerem mudanças no ambiente. A única outra justificativa para o ataque que me vem à cabeça é a dada pelo cientista suíço Werner Arber. Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1978, ele veio ao Brasil em 2011 para o Congresso Brasileiro de Genética de 2011 e afirmou que a rejeição ao consumo de alimentos transgênicos está relacionada a uma “motivação política que não tem boa base científica”. Ela, no entanto, padece de um mal similar ao do medo do novo. É difícil prová-la com dados científicos e seria salutar que o debate sobre transgênicos ficasse “apenas” nesta esfera.


*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viverem melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT). 

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