Política do filho único criou chineses mais desconfiados e avessos a riscos

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Pesquisadores usaram jogos econômicos para mostra como decreto que proibiu casais de terem mais de um filho moldou o comportamento de uma geração inteira

Getty Images
Conhecidos como "pequenos imperadores", os chineses que nasceram após a política do filho único são mais desconfiados e menos competitivos

A política do filho único na China não apenas serviu de controle demográfico, mas também é apontada como a causa para a mudança no comportamento de uma geração. Um estudo, divulgado hoje por pesquisadores chineses e australianos, aponta que a geração chamada de “pequenos imperadores” é mais desconfiada, menos competitiva e mais avessa a correr riscos.

A política que cobrava pesadas multas a quem tivesse mais de um filho iniciou em 1979 como forma de controle do crescimento da população. A imposição gerou alterações significativas na composição das famílias: cerca de 27% dos nascidos em 1975 eram filhos únicos, mas em 1980 esta taxa saltou para 82%, já que a regra vale apenas para áreas urbanas e permite um segundo filho se o primeiro fosse menina.

Leia mais: China é pressionada para dar fim à política do 'filho único'

“A política do filho único dura 33 anos e afeta uma grande parte da população urbana da China, seu impacto no país, portanto é substancial”, disse ao iG Lata Gangadharan, da Universidade Monash, da Austrália, e uma das autoras do estudo publicado nesta semana no periódico científico Science. Atualmente é comum ver anúncios de emprego que destacam que o candidato não pode ser filho único. 

No estudo, os 421 adultos voluntários foram divididos entre os que nasceram dois anos antes do início da política e dois anos depois. De acordo com os pesquisadores, a pouca diferença de idade entre os grupos aboliria questões diferença entre gerações ou fase da vida.

Polêmica: China indeniza mulher forçada a abortar feto de sete meses

Os participantes do estudo jogaram quatro tipos de jogos econômicos para avaliar características como altruísmo, capacidade de confiar, confiabilidade, competitividade e grau de risco. No jogo da confiança, em que jogadores deveriam emprestar e receber dinheiro, os filhos únicos deram em média 16% menos dinheiro que os outros participantes. Eles também devolveram 11 % menos do que receberam dos parceiros.

Lata afirma que os pesquisadores acreditam que a mudança no comportamento pode estar associada com o desencorajamento de valores a favor do social ou incentivo de comportamentos conservadores pelos pais. “Encontramos pequenas provas de quanto mais interação com crianças da mesma idade, maior é o comportamento a favor do que é social. A interação com outras crianças durante a infância, mesmo que seja com primos ou amigos, não substitui aquela feita com irmãos”, disse Lata.

Leia: Cientistas debatem valor evolutivo de ajudar os parentes

Embora o estudo pontue que a causa principal para o comportamento diferente dos “pequenos imperadores” seja o fato de não terem irmãos, os pesquisadores afirmam que as conclusões não devem ser extrapoladas para a realidade de outros países. "Os pais dos voluntários não tinham a opção de ter outro filho, portanto, não devemos confundir características dos pais com o efeito que há em determinar que eles só podem ter uma criança”, disse Lata.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas