O apocalipse zumbi já está acontecendo

Cientistas estudam parasitas e os mecanismos que os fazem alterar o comportamento de seus hospedeiros, com a esperança de obter melhores remédios para doenças mentais

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Vespa infecta barata com um composto que impede o hospedeiro de tomar decisões

Nas florestas tropicais da Costa Rica vive a Anelosimus octavius , uma espécie de aranha que, por vezes, apresenta um hábito estranho e macabro.

De tempos em tempos, essas aranhas abandonam suas próprias teias e tecem outras radicalmente diferentes: um lar não para as aranhas, mas para uma vespa parasita que vive dentro delas. Em seguida, a aranha morre – como um arquiteto zumbi cujo cérebro foi sequestrado por sua invasora parasita – e a larva da vespa, que vem crescendo dentro do animal por todo esse tempo, sai de seu corpo rastejando.

A edição atual do periódico Journal of Experimental Biology é inteiramente dedicada a tais exemplos de zumbis na natureza. Eles estão longe de ser raros. Vírus, fungos, protozoários, vespas, vermes e um grande número de outros parasitas podem controlar o cérebro de seus hospedeiros e levá-los a fazer o quiserem. Contudo, só recentemente os cientistas começaram a trabalhar no estudo da sofisticada bioquímica utilizada pelos parasitas.

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"Sabemos há muito tempo que os parasitas são capazes de manipular seus hospedeiros. A novidade é o modo como eles fazem isso", disse Shelley Adamo, da Universidade Dalhousie, em Nova Scotia, coeditora da nova edição do periódico. "Os últimos cinco a 10 anos têm sido realmente emocionantes."

A teia tecida pela aranha da Costa Rica, por exemplo, adequa-se esplendidamente bem à vespa que invadiu seu corpo. Ao contrário da teia normal da aranha, que é basicamente um emaranhado de fios, ela tem uma plataforma coberta por uma folha grossa que a protege da chuva. A larva da vespa rasteja até a extremidade da plataforma e produz um casulo que fica suspenso através de um orifício gentilmente fornecido pela aranha para o parasita.

Para manipular as aranhas, a vespa deve ter genes que produzem proteínas que alteram o comportamento do hospedeiro. Em algumas espécies, os cientistas agora estão identificando esse tipo de gene. Tal é o caso do baculovírus, um vírus que é generosamente borrifado em folhas em florestas e jardins. (O repolho presente em uma porção de salada tem 100 milhões de baculovírus.)

Os comensais humanos não precisam se preocupar, já que o vírus é prejudicial apenas para lagartas de espécies de insetos, como as mariposas-ciganas. Quando uma lagarta morde uma folha que está com baculovírus, o parasita invade as suas células e começa a se replicar, acionando o comando "suba mais alto". Os hospedeiros vão parar bem no alto das árvores, o que deu a essa infecção o nome de doença da copa das árvores. O corpo da lagarta se dissolve, liberando uma chuva de vírus nos inocentes hospedeiros abaixo dela.

David P. Hughes, da Universidade Estadual da Pensilvânia, e seus colegas descobriram que um único gene, conhecido como "egt", é responsável por conduzir as lagartas até a copa das árvores. O gene codifica uma enzima. Quando a enzima é liberada dentro da lagarta, ela destrói um hormônio que sinaliza que uma lagarta deve parar de se alimentar e iniciar o processo da muda.

Hughes suspeita que o vírus incita a lagarta a comer em demasiado. Normalmente, as lagartas de mariposas-ciganas saem à noite para se alimentar e depois voltam para fendas localizadas perto da parte inferior das árvores para se esconder dos predadores. As lagartas zumbi, por outro lado, não conseguem parar de procurar por comida.

"Os indivíduos infectados ficam por aí, só comendo e comendo", disse Hughes. "Ficam presos em uma mesma sequência."

Outros parasitas alteram os neurotransmissores no cérebro de seus hospedeiros para manipulá-los. Os acantocéfalos preparam seus exércitos para atacar por meio desse tipo de psicofarmacologia.

O anfitrião, chamado gamarídeo, é um crustáceo parecido com um camarão. Os gamarídeos, que vivem em poças, normalmente mergulham na lama quando são perturbados. Um gamarídeo infectado, por outro lado, segue rapidamente até à superfície da poça. Em seguida, ele foge pela água até encontrar um tronco, uma pedra ou algum outro objeto ao qual possa se agarrar.

Esse estranho comportamento do gamarídeo infectado permite que o parasita dê o próximo passo de seu ciclo de vida. Ao contrário dos baculovírus, que vão de lagarta em lagarta, os acantocéfalos precisam viver dentro de duas espécies: um gamarídeo e depois um pássaro. Esconder-se na lama das poças mantém os gamarídeos a salvo de predadores. Forçando-o a nadar até a superfície, o acantocéfalo faz dele um alvo fácil.

Simone Helluy, do Wellesley College, estuda essa inversão suicida. Sua pesquisa indica que os parasitas manipulam o cérebro do gamarídeo por meio de seu sistema imunológico.

O invasor provoca uma forte reação nas células imunológicas do gamarídeo, que liberam substâncias químicas para matar o parasita. Mas o parasita neutraliza esses ataques, e o sistema imune do hospedeiro, por sua vez, produz uma inflamação que se infiltra em seu próprio cérebro. Lá, ele perturba a química do cérebro – fazendo, em particular, com que sejam produzidas grandes quantidades do neurotransmissor serotonina.

A serotonina influencia o modo como os neurônios transmitem sinais. Helluy propõe que a liberação de serotonina desencadeada pelos acantocéfalos corrompe os estímulos que seguem desde os olhos até o cérebro. Normalmente, uma reação reflexa de fuga faz com que o gamarídeo seja atraído pela escuridão, na parte inferior da poça. Os acantocéfalos podem fazer com que seu hospedeiro perceba a luz solar como a escuridão, e, assim, nade para cima, não para baixo.

Não está claro se os seres humanos são suscetíveis a esse tipo de invasão de zumbis. Já é suficientemente desafiador descobrir como os parasitas manipulam invertebrados, que têm algumas centenas de milhares de neurônios em seus sistemas nervosos. Os vertebrados, incluindo o homem, têm milhões ou bilhões de neurônios, de modo que os cientistas ainda não avançaram tanto na pesquisa dos processos de zumbificação que talvez o acometam.

A maior parte das pesquisas sobre zumbis vertebrados foi realizada em um parasita unicelular, o Toxoplasma gondii . Como os acantocéfalos, eles se movimentam entre os predadores e suas presas. O Toxoplasma se reproduz no intestino de gatos, que o lançam em suas fezes.

Mamíferos e aves podem apanhar o parasita, que invade as células de seu cérebro e formam cistos. Quando os gatos ingerem esses animais infectados, o Toxoplasma completa o seu ciclo. Os cientistas descobriram que ratos infectados com o Toxoplasma perdem o medo do odor de gatos – tornando-os presas potencialmente mais fáceis de capturar.

Glenn McConkey, da Universidade de Leeds, e seus colegas descobriram uma possível explicação para como o Toxoplasma provoca essa mudança. Ele produz uma enzima que acelera a produção do neurotransmissor dopamina, que influencia a motivação dos mamíferos e o modo como eles atribuem valor a recompensas. Acrescentar mais dopamina pode fazer com que os hospedeiros do Toxoplasma fiquem mais curiosos e sintam menos medo.

Mas Ajai Vyas, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, encontrou indícios de que o Toxoplasma manipula seus hospedeiros simultaneamente de outras maneiras. Ele descobriu que ratos machos infectados produzem mais testosterona. Essa mudança faz com que os machos sejam mais atraentes para as fêmeas, e quando eles acasalam, os machos passam o parasita para as fêmeas.

Fazendo com que os ratos machos produzam mais testosterona, o Toxoplasma pode fazer mais do que se espalhar para outros ratos. A testosterona também faz com que os animais sintam menos medo. Os ratos infectados podem, assim, ficar menos temerosos quando sentem o cheiro de um gato.

Essa pesquisa pode vir a oferecer pistas importantes sobre o comportamento humano. No caso do Toxoplasma , por exemplo, os seres humanos podem se tornar hospedeiros se manusearem os dejetos contaminados deixados por gatos ou se comerem um pedaço de carne que contiver o parasita. Alguns estudos têm relacionado a infecção por Toxoplasma a alterações sutis na personalidade, bem como ao aumento de risco de esquizofrenia.

Adamo, coeditora da nova edição do periódico, acha que essa nova ciência da "neuroparasitologia" pode servir de inspiração para as empresas farmacêuticas que têm destinado esforços a desenvolver medicamentos eficazes para doenças mentais. "Várias grandes empresas desistiram de seus laboratórios de neurociência", disse ela. "Talvez os parasitas possam nos ensinar alguma coisa."

Ela ressalta que a maneira como os parasitas manipulam o cérebro é profundamente diferente de como medicamentos como o Prozac agem. "O modo como um parasita altera o comportamento de um hospedeiro é diferente do modo como um neurobiólogo o faria", disse ela.

Um medicamento típico se concentra apenas em um tipo de molécula do cérebro. Os parasitas, por sua vez, muitas vezes empreendem um ataque muito mais amplo que, não obstante, consegue catalisar uma mudança específica em seu hospedeiro. "Talvez manipular vários sistemas simultaneamente possa gerar resultados melhores do que manipular um determinado sistema de modo preciso", disse Adamo.

A parasitologista acrescentou, porém, que ela e outros profissionais da área não compreendem bem esses processos de zumbificação ligados à manipulação dos hospedeiros. "No momento, tudo o que sabemos é que os parasitas têm maneiras próprias de fazê-lo", concluiu ela.

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