Encontrados indícios de tsunami em lago suíço no século 6

Pesquisadores encontraram depósitos de sedimentos no Lago Genebra que indicam a ocorrência de um tsunami de oito metros na cidade, em 563

The New York Times | - Atualizada às

The New York Times
Lago Genebra: depósitos de sedimentos em seu fundo corroboram relatos de tsunami no século 6

No século 6, Gregório de Tours, um cronista dos povos germânicos conhecidos como francos, relatou um evento extraordinário ocorrido no que hoje é a Suíça, onde o rio Ródano deságua no Lago Genebra (ou Lago Léman).

Ele escreveu sobre uma grande avalanche ocorrida no ano 563, perto de um lugar chamado Tauredunum. Os detritos afundaram no rio e uma grande massa de água "atingiu, com uma inundação repentina e violenta, tudo o que estava nas margens, indo até a cidade de Genebra", a mais de 65 quilômetros do lago.

Historiadores e cientistas por muito tempo acreditaram que Gregório e outro cronista, Marius de Avenches, que relatou um evento semelhante, estavam descrevendo um tsunami que varreu o lago, destruindo parte de Genebra e de outras comunidades ao longo da costa. Nunca haviam sido encontrados indícios diretos disso, no entanto.

Entenda como tsunamis se formam 

Agora, pesquisadores da Universidade de Genebra dizem ter encontrado tais indícios, na forma de um grande depósito de sedimentos no meio do lago. Em um estudo publicado no periódico Nature Geoscience, eles também sugerem qual foi a sequência de eventos que causou a onda mortal: a avalanche atingiu o delta na foz do rio, fazendo com que essa pilha de sedimentos acumulados chegasse rapidamente ao lago, deslocando uma enorme quantidade de água.

"De certa forma, é como jogar pedras em um mingau", disse um dos autores do estudo, Guy Simpson, professor no departamento de Geologia e Paleontologia da Universidade de Genebra.

Simpson disse que a espessa camada de sedimentos em forma de lente, que fica a mais de 300 metros de profundidade na parte mais profunda do lago, foi encontrada em grande parte por acaso. Katrina Kremer, estudante de doutorado e principal autora do estudo, estava realizando sondagens sísmicas em busca de camadas de sedimentos finos que pudessem ser indício de grandes inundações.

Leia:
Vulcão nas ilhas Canárias poderia provocar tsunami no Atlântico
Estudo afirma que região da Grécia é vulnerável a tsunamis
Vestígios de três tsunamis milenares são descobertos no Vietnã

"Mas nos deparamos com esse depósito enorme", disse Simpson. "Nós não percebemos de imediato que aquele era o depósito ligado à causa do tsunami. Mas ele era um monte confuso de sedimentos. Era bastante óbvio que ele havia sido depositado rapidamente."

Os pesquisadores, então, extraíram os núcleos dos sedimentos e usaram técnicas de datação de carbono da matéria orgânica dos núcleos – restos de folhas e pedaços de madeira – para identificar quando o depósito havia se formado, estreitando o intervalo para um período entre o final do século IV e início do VII. Com exceção da avalanche, não há registro histórico de qualquer evento especial durante esse período, disse Simpson.

Os pesquisadores estimam que o depósito, que tem pelo menos 10 quilômetros de comprimento por 5 quilômetros de largura e cerca de 5 metros de espessura, contém mais de 300 mil quilômetros cúbicos de material. Eles fizeram simulações de computador que mostram que o colapso de tamanha quantidade de sedimento na foz do rio Ródano teria causado um tsunami de cerca de oito metros em Genebra – onde ele teria chegado em 70 minutos – e ondas ainda maiores em outros lugares nas margens.

A avalanche em si pode ter sido provocada por um terremoto, como alguns cientistas têm especulado ao longo dos anos.

A maioria dos tsunamis ocorre nos oceanos e é gerada por terremotos, como o que ocorreu perto do Japão no ano passado. Mas a ocorrência de tsunamis em lagos também é conhecida, disse Richard A. Schweickert, professor emérito de Geologia da Universidade de Nevada, em Reno. Ele citou indícios de que o colapso de parte das margens do Lago Tahoe, nos últimos 20 mil anos, causou um tsunami cuja altura talvez tenha chegado a 30 metros. Há duas falhas geológicas sob o lago que podem ter causado um terremoto, disse ele.

Schweickert disse que o colapso dos sedimentos no delta do Ródano, conforme calculado pelos pesquisadores suíços, "certamente pode ter levado uma grande quantidade de material para o lago". Mas os resultados talvez possam ser corroborados, disse ele, por um mapeamento cuidadoso da linha costeira em busca de depósitos anormais ou traços de erosão deixados pelas ondas gigantes.

Simpson disse que os sedimentos do delta do Ródano podem entrar em colapso de novo algum dia, talvez em decorrência de um terremoto ou até mesmo por conta de seu próprio peso, e que um tsunami resultante disso pode ser muito mais devastador. No século 6, Genebra era uma pequena comunidade, basicamente resguardada pelos paredões de uma colina. Hoje a cidade é lar de organizações internacionais e de cerca de 200 mil pessoas, muitas vivendo em áreas de baixa altitude, perto da água. O estudo serve como alerta de que mesmo um país sem litoral, como a Suíça, não está imune às ondas catastróficas.

"As pessoas pensam: 'Ah, somos sortudos, vivemos perto de um lago – não sofremos ameaças desse tipo'", disse Simpson. "Mas essa descoberta lembra as pessoas de que essas coisas aconteceram no passado e muito provavelmente vão acontecer de novo."

    Leia tudo sobre: tsunamisuíçageologiaterremoto

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG