Experiência usou óvulos de duas mulheres e esperma de um homem, e gerou embriões em fase inicial. Estudo pode dar origem a novas terapias gênicas

As mitocôndrias (na foto, os círculos irregulares amarelos) são organelas celulares que contêm DNA
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As mitocôndrias (na foto, os círculos irregulares amarelos) são organelas celulares que contêm DNA

Pesquisadores conseguiram trocar o núcleo em óvulos humanos e foram capazes de gerar em laboratório células-tronco embrionárias e blastócitos, embrião em fase primária que pode ser usado para a fertilização in vitro. A técnica pode ser usada para prevenir doenças genéticas causadas por DNA mitocondrial, que fica espalhado dentro da célula, mas fora do núcleo celular. De acordo com os pesquisadores, a nova técnica poderia atender entre mil e quatro mil famílias só nos Estados Unidos.

Embora ainda não tenha sido autorizada nos Estados Unidos a aplicação em humanos da técnica desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon (EUA), os pesquisadores afirmam em artigo que o Reino Unido está considerando usar o tratamento para pacientes em risco.

Há mais de 300 doenças que podem ser passadas diretamente de mãe para filho por causa das mutações genéticas no DNA mitocondrial. A mitocôndria é uma organela da célula que gera energia e que tem trechos de DNA separados do DNA principal da célula, que fica no núcleo e é o que é usado na fecundação entre óvulo e espermatozoide. Existem cerca de mil mitocôndrias em cada célula do corpo e cada mitocôndria conta com 37 genes.

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“A mitocôndria contém material genético assim como os núcleos celulares e estes genes são passados de mãe para filho”, explicou o autor do estudo publicado no periódico científico Nature, Shoukhrat Mitalipov. “Quando o DNA mitocondrial apresenta algumas mutações, a criança pode nascer com uma série de doenças, inclusive diabetes, surdez, problemas de visão e no coração”, disse.

Substituição
O que os pesquisadores fizeram foi colocar o núcleo do óvulo com DNA mitocondrial defeituoso dentro de um óvulo (proveniente de uma voluntária) com DNA mitocondrial saudável. Com isso, 99% da genética da mãe é preservada na novo óvulo e a mutação do DNA mitocondrial da mãe é substituída pelo DNA mitocondrial da doadora. O óvulo com novo núcleo é então fertilizado in vitro e reimplantado na mãe para que ela possa ter um bebê saudável. No estudo, 106 voluntárias doaram óvulos.

Ética
“Estudos in vitro como o que fizemos sem transplantar os embriões resultantes em pacientes podem ser feitos sem a necessidade de autorizações, que não sejam as das próprias instituição de pesquisa. Mas para fazer os transplantes em humanos ainda precisamos da aprovação da FDA (Food and Drugs Administration)”, explico Mitalipov.

No estudo, também é descrito uma experiência em macacos Rhesus que gerou um filhote saudável, chamado Chrysta e que hoje está com três anos de idade. Os pesquisadores também aplicaram método semelhante em roedores que chegaram até a quarta geração e todos saudáveis.

Apesar da expectativa para a aplicação da técnica em humanos, caso seja liberado pelo FDA, Mitalipov afirma que é preciso fazer mais estudos. “As espécies são diferentes e as técnicas têm variações de uma espécie para outra. Não acho que seremos capazes de fazer este mesmo trabalho que fizemos em macacos com humanos em apenas três anos”, disse Mitalipov.

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