John Gurdon, vencedor do Nobel de Medicina, se tornou cientista por acaso

Britânico conhecido como o "padrinho" da clonagem descobriu que as células mantêm toda a informação genética original e podem ser reprogramadas

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John B. Gurdon, vencedor do Nobel de Medicina 2012, descobriu que a especialização das células é algo que pode ser reversível

O veterano britânico John Gurdon, vencedor do Nobel de Medicina 2012 por ter revolucionado seu campo com trabalhos sobre a reprodução celular, chegou à Biologia quase por acaso, depois de ter sido considerado sem aptidão para as ciências.

Nascido em 1933 em uma cidade pequena do sul da Inglaterra, Gurdon se interessou desde cedo pelos insetos.

Seu pai, no entanto, desejava que ele fosse militar. Felizmente para o jovem Gurdon, ele foi recusado pelo Exército quando um médico diagnosticou um simples resfriado como uma bronquite.

"Isto eliminou qualquer possibilidade, graças a Deus, de fazer carreira militar", disse o cientista, conhecido pelo cabelo louro muitas vezes despenteado.

Os primeiros passos no mundo acadêmico científico, um semestre de Biologia no colégio quando tinha 15 anos, também foram considerados um fracasso. 

"O professor escreveu um relatório que dizia: 'Acredito que Gurdon tem a ideia de virar um cientista. Dados os resultados atuais, é bastante ridículo. Se não pode aprender simples dados científicos, não tem nenhuma possibilidade de fazer o trabalho de um especialista'", recordou em outra ocasião o agora vencedor do Nobel, que afirma conservar o texto em seu escritório. 

Veja: Nobel de Medicina 2012 vai para a descoberta de reprogramação de células

Depois do revés inicial, quando chegou o momento de tentar uma vaga em uma universidade, apresentou o pedido de matrícula em Oxford para estudar Letras Clássicas. A surpresa veio quando foi chamado para uma vaga de Ciências depois que um erro administrativo abriu vagas neste curso.

E o destino decidiu mais uma vez pelo britânico quando, uma vez encerrados os estudos em Oxford, tentou fazer um doutorado de Entomologia e, ao ser recusado, matriculou-se em Biologia.

Em 1962, dois anos depois de obter o doutorado e antes de completar 30 anos, fez sua descoberta mais importante. Ao realizar testes com rãs, demonstrou que o material genético das células não é irreversível, ou seja, ao contrário do que se pensava até então, as células mantinham toda a informação genética original e podiam ser reprogramadas.

Apesar de, na época, o termo ainda não ser utilizado, Gurdon é considerado por muitos o "padrinho" da clonagem, que mais de 30 anos depois resultaria na famosa ovelha Dolly.

Foi este avanço que rendeu o Nobel de Medicina compartilhado com o japonês Shinya Yamanaka, que levou a reprogramação nuclear um passo além, com descobertas que, segundo o Comitê Nobel, "revolucionaram nossa compreensão sobre a maneira como se desenvolvem as células e os organismos".

Aos 79 anos, Gurdon se declarou "imensamente agradecido, mas também espantado" com o reconhecimento de um trabalho feito há muito tempo.

No último meio século, Gurdon não interrompeu suas atividades. Após uma breve passagem pelo California Institute of Technology (Caltech), retornou a Oxford e, em 1972, passou para a universidade rival, Cambridge, para iniciar uma unidade de embriologia molecular.

Com o passar dos anos, a unidade evoluiu e virou a Wellcome/CRC Institute for Cell Biology and Cancer, antes da universidade decidir rebatizar o local com o nome do cientista.

Entre outras honras, Gurdon, membro da prestigiosa Royal Society britânica, também foi nomeado cavaleiro em 1995 pela rainha Elizabeth II.

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