Restos do tsunami japonês geram interesse arqueológico

Destroços são fotografadas por turistas, grupos de americanos fazem expedições em buscas de vestígios da onda gigante na costa dos EUA

The New York Times |

Lindsey Hoshaw/The New York Times
Parte de um barco é encontrada por grupo de voluntários em águas ao leste do Japão

A bordo do Sea Dragon, 1.600 quilômetros a leste do Japão – Depois de escaparem por pouco de um tufão, enfrentarem o enjoo e serem bombardeados pela chuva durante dias seguidos, os tripulantes do Sea Dragon se animaram ao avistar um barco encalhado.

O pedaço de quase 70 quilos de um esquife, partido ao meio e enfeitado com ideogramas japoneses, provavelmente era obra do tsunami que atingiu a porção oriental do Japão no ano passado.

Esta expedição científica era incomum por muitos motivos, a começar pelo fato de não contar com cientistas. Tripulantes vindos de seis países moraram num iate durante um mês na esperança de um encontrar um conjunto de destroços para fotografar e comentar em blogs.

Eles fazem parte de uma brigada civil que se espalha pela Costa Oeste e o Oceano Pacífico, recolhendo e classificando os milhares de itens varridos para o mar depois que um terremoto de 8,9 graus na escala Richter provocou um tsunami sobre as comunidades costeiras do Japão, em março de 2011. Em alguns casos, eles estão localizando e devolvendo os artigos aos proprietários.

Leia mais:
Forte terremoto provoca tsunami e mata centenas no Japão
Resíduos de tsunami devem vagar pelo Pacífico Norte por 10 anos
Terremoto de 2011 no Japão afetou a ionosfera, diz Nasa
Cientistas reproduzem som de terremoto do Japão

Esses "cientistas civis" não esperam orientação do governo. Donos de caiaques de Washington assumiram a tarefa de explorar as ilhas remotas em busca de restos, surfistas do Oregon publicaram diretrizes de limpeza nas praias locais e mergulhadores do Havaí removeram destroços ao largo da costa de Maui, a segunda maior ilha do arquipélago.

A iniciativa se tornou rapidamente a espinha dorsal de um esforço nacional para compreender melhor o que está sendo trazido pelas ondas ao longo de milhares de quilômetros de costa.

A Agência Nacional Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), responsável pelas águas territoriais do país, utilizou um avião teleguiado, em junho, para determinar se o monitoramento aéreo é viável. Redes de pesca, restos de construção de madeira e boias foram colocados na água para verificar se a aeronave não tripulada Puma reconheceria os objetos, enviando, via satélite, as imagens para a NOAA.

Contudo, a NOAA vem contando em parte com os voluntários. O organismo recebeu mais de mil relatos de destroços marinhos nas praias dos EUA desde que a organização criou uma linha telefônica destinada a isso em dezembro passado.

Nem todos os escombros vêm do Japão, mas entre as peças comprovadamente oriundas do maremoto estão cinco barcos pesqueiros abandonados, uma bola de futebol, outra de vôlei e várias boias para pesca.

Os cientistas civis adquiriram um interesse arqueológico pelos destroços.

"Os escombros do tsunami parecem uma cápsula do tempo", disse Ken Campbell, profissional do caiaque que, com dois amigos guias, visitou as ilhas ao largo de Washington à procura de itens perdidos.

Muitos consideram o campo de destroços uma espécie de Pompeia aquática, expressiva, mas não permanente, que em breve será varrida pela força das ondas e da gravidade.

"Os catadores da praia parecem arqueólogos e, se você não falar com eles quando os destroços chegam, a informação se perde", disse Curtis Ebbesmeyer, oceanógrafo que fundou a maior organização de catadores de praia do mundo.

Em conjunto com o Instituto de Pesquisa Marinha Algalita, Marcus Eriksen, cuja organização de conservação marinha sem fins lucrativos, 5 Gyres Institute, fretou a expedição do Sea Dragon, em junho, disse que o desastre natural chegou em casa. "Quando se vê essa quantidade de destroços atingindo as praias, é difícil não se sentir ligado à tragédia porque, de certa maneira, você a viveu com eles."

As autoridades japonesas estimam que cerca de 1,5 milhão de toneladas de escombros ainda estão flutuando e itens grandes,

como uma doca de concreto e uma motocicleta Harley-Davidson, já chegaram à costa do Oregon e da Colúmbia Britânica. Segundo Ebbesmeyer, a maioria dos restos chegará à costa em outubro.

"É uma situação muito inusitada", disse Nancy Wallace, diretora do programa de destroços marinhos da NOAA. "Nunca enfrentamos coisas se movendo pelo oceano nessa escala."

Rumando à região nordeste do Oceano Pacífico durante a expedição, em junho, Eriksen e a tripulação do Sea Dragon encontraram um pneu Bridgestone com os dizeres "made in Japan", um tanque metálico para propano e uma grande boia oval de um criadouro de ostras, além de diversos baldes e engradados com ideogramas japoneses.

Durante um turno obrigatório de três horas, todos os dias, os tripulantes deviam dirigir e procurar embarcações se aproximando, e os cientistas civis registraram os avistamentos de entulho num grosso diário de bordo, seguindo o protocolo da NOAA. Os caçadores de poluição mais empolgados ficavam horas na proa do navio com uma peneira para piscina, tentado capturar todo fragmento que flutuasse.

Destroços do maremoto também foram avistados ao norte na ilha Kayak, Golfo do Alasca. Stanley Rice, gerente do programa de estudos de habitat do Laboratório da Baía Auke, Alasca, disse ter observado uma quantidade dez vezes maior de destroços na ilha Kayak nos últimos anos.

Não causa surpresa que a ilha tenha acumulado mais entulho que as vizinhas em função da forma como a Kayak se estende de forma perpendicular à corrente do Alasca, a qual traz objetos à praia.

"Este ano vimos muitos mais pedaços de isopor, muito mais mesmo; portanto, estatisticamente, eu diria que é uma bela prova do tsunami", afirmou Rice.

Entre os milhares de restos estavam garrafas de água, redes, boias de redes de emalhar, boias em geral e madeira serrada. Segundo Rice, "vamos ver esses artigos chegando por um bom tempo. Simplesmente existe um volume maior de entulho no mar".

Campbell, em conjunto com dois outros profissionais do caiaque, Jason Goldstein e Steve Weileman, criou o Projeto Ikkatsu, em maio, para examinar ilhas ao largo da costa de Washington praticamente inacessíveis a pé por causa dos escarpados rochedos costeiros.

Entre os maiores objetos encontrados em meio aos destroços estavam uma pilha de tábuas que incluía a tampa de um pinico, um cesto de roupa suja, um frasco de xarope para tosse sabor cereja, várias garrafas de vidro marrom e pedaços de uma lavadora de roupa marcada com ideogramas japoneses.

Campbell e os colegas acreditam que os fragmentos faziam parte de um banheiro levado para o mar durante o tsunami.

"Quando começamos a revirar a pilha, a ficha caiu: estamos dentro da casa de uma pessoa", disse Campbell.

Usando o número de série impresso na madeira, os canoístas conseguiram identificá-la como proveniente de um fábrica em Osaka. Quando cortou um pedaço da madeira, Campbell disse que ela estava seca por dentro e cheirava a seiva, outro indício de que o entulho estava há pouco tempo no mar.

Destroços do maremoto devem chegar à terra firme durante os próximos anos. Embora seja um projeto de arqueologia flutuante para algumas pessoas, e um experimento científico para outros indivíduos, também se trata de um lembrete tangível dos perigos da natureza.

"Vivo impressionado com a ideia de que este é um planeta muito pequeno", afirmou Campbell. "Algo que acontece do outro lado do oceano virou uma coisa que podemos ver e tocar no quintal de casa. É uma coisa muito poderosa."

    Leia tudo sobre: tsunamijapãooceano pacíficoarqueologia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG