'Homem-morcego' cego estala a língua para se locomover

Daniel Kish cria mapa sonoro em sua mente a partir da 'resposta' que obtém dos objetos e corpos a seu redor

BBC | - Atualizada às

BBC

Steve Broxterman
Técnica permite a Kish, que é totalmente cego, andar de bicicleta

Daniel Kish é completamente cego desde que era um bebê, mas isso não o impediu de levar uma vida incrivelmente ativa que inclui realizar trilhas e praticar mountain bike.

Para se embrenhar essas atividades, ele desenvolveu uma forma de ecolocalização humana utilizando ondas sonoras para construir um retrato mental do que o cerca.

Seu método envolve estalar a língua contra o céu de sua boca. Quando Daniel Kish estala a sua língua, o mundo responde.

Carros, árvores, portas, postes na calçada, todos são identificados e mapeados em seu cérebro usando informações obtidas a partir d som que ecoa de uma série de estaladas de língua que ele faz duas ou três vezes por segundo.

Leia mais:
Vídeo: Alpinista cego 'enxerga' montanhas com sensores da língua
Como o cérebro prefere ouvir o som
'Olho biônico' é esperança para cegos
Cientistas buscam entender os segredos da superaudição

Desde a infância, o jovem californiano desenvolveu uma espécie de técnica de sonar que permitiu que ele se locomovesse recorrendo à repetição de estaladas de língua. Essa técnica fez com que ele ficasse conhecido como ''homem-morcego'', um apelido que ele aprecia.

''É o mesmo processo usado por morcegos'', afirma. ''Você envia um som ou uma chamada, e ondas sonoras são ondas físicas, elas rebatem em superfícies físicas.''

''Assim, se uma pessoa está estalando a língua e está ouvindo as superfícies ao seu redor, ela é capaz de ter um senso instantâneo da posição destas superfícies.''

Definindo formas
Os ecos são provenientes das estaladas de Kish e oferecem-no informações sobre a distância, tamanho, textura e densidade de um objeto. É o suficiente para que ele possa diferenciar, por exemplo, uma grade de metal de uma grade de madeira.

''Não é que eu seja capaz de diferenciar o metal da madeira, mas posso diferenciar a composição dessas estruturas. Por exemplo, uma cerca de madeira costuma ter uma estrutura mais espessa do que uma estrutura de metal e, quando a área é muito silenciosa, a madeira tende a refletir um som mais vívido do que o som do metal''.

Além de servir para que ele se guie e pratique esportes, Kish diz que sua técnica permite que ele aprecie a beleza das coisas ao seu redor.

''É possível obter um senso de beleza ou de aridez ou do que quer que seja a partir do som, bem como do eco. Mesmo arquitetura tem alguma distinção. É possível estalar a língua em direção a um prédio, por exemplo, e ouvir de volta se o prédio é ornamentado ou se não conta com ornamentos."

Em 2011, uma equipe de cientistas do Canadá escanearam os cérebros de dois voluntários cegos que se diziam capazes de realizar ecolocalização e duas pessoas com vista que não tinham o mesmo dom.

Durante o teste, os participantes ouviram duas gravações - uma contendo ecos e outras em que os ecos foram retirados.

Cérebros ativos
Os escâneres dos cérebros dos participantes revelaram atividades no sulco calcarino, parte do cérebro associada ao processo de visão, mas apenas no caso dos cegos que ouviam as gravações com ecos.

Nenhuma atividade em especial foi notada no córtex auditivo destes participantes. Um dos cientistas, Lore Thaler, afirmou: "Nós não sabemos exatamente o que eles estão vendo, mas eles seguramente estão usando a parte do cérebro que as pessoas com visão usam para enxergar.

Kish agora dedica boa parte de seu tempo a treinar outras pessoas nesta técnica, que ele chama de FlashSonar. Mais de 500 estudantes em pelo menos 25 países já realizaram o curso que é oferecido por uma organização sem fins lucrativos chamada World Access for the Blind (Acesso Mundial para os Cegos).

    Leia tudo sobre: cérebroneurociência

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG