Estudo mostra que mobilização pelo Facebook se reflete em votos a mais

Mensagem apartidária na rede social durante as eleições de 2010 nos Estados Unidos rendeu cerca de 340 mil votos. Especialistas discutem se isso funcionaria no Brasil

Natasha Madov iG São Paulo | - Atualizada às

AP
Adesivo "Eu votei" distribuído na eleição de 2010 nos EUA: mobilização pelo Facebook gerou 340 mil votos a mais

Uma experiência que envolveu redes sociais no dia das eleições para o Congresso americano de 2010 mostrou que mobilização online e pressão dos amigos podem ter efeito no mundo real. Um estudo da Universidade da Califórnia em San Diego, conduzido em parceria com o escritório do Facebook, mandou a 60 milhões de usuários da rede nos Estados Unidos uma mensagem incentivando o voto em 2 de novembro de 2010 (nos Estados Unidos, o voto é facultativo), e segundo os autores, esta ação resultou em 340.000 votos a mais nas urnas.

“Nosso estudo é o primeiro teste científico em grande escala para testar a ideia de que redes sociais online afetam o comportamento político no mundo real,” disse James Fowler, professor de genética médica e ciência política da Universidade da Califórnia, que liderou a pesquisa.

A experiência envolveu a exibição de um anúncio no Facebook, que avisava sobre a eleição, dava ao usuário a opção de contar aos amigos que havia votado (mas não em quem), uma lista de locais de votação e as imagens de até seis amigos que também haviam clicado no botão “Eu votei”.

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Havia dois grupos de controle: 611.000 pessoas receberam a mesma mensagem, mas sem as fotos dos amigos, e outros 613.000 usuários não receberam nada.

Cruzando os dados dos registros públicos de votação, usando uma metodologia que não interferiu na confidencialidade dos dados, os pesquisadores descobriram que entre o grupo dos que receberam a mensagem com as fotos dos amigos, houve um aumento de 0,93% nos votantes, o que resultou em 60.000 votos entre os impactados diretamente pela mensagem, além de 280.000 votos adicionais entre os amigos de quem recebeu a mensagem. Os dois grupos de controle não tiveram impacto algum. Com o cruzamento dos dados, Fowler também descobriu que a percentagem de pessoas que clicaram no botão "Eu votei"  mas que em realidade não haviam votado era de 4%.

Os pesquisadores também descobriram que a inclinação política não fez diferença. O aumento de votantes foi igual entre os que se declaram liberais ou conservadores no Facebook.

A grande surpresa, segundo Fowler, foi a influência indireta do experimento: o número de amigos dos participantes do estudo que votou foi significativo, e mostra que não é possível estudar apenas a influência direta de mensagens na rede social; é necessário levar em conta o efeito cumulativo. “Se tivéssemos estudado apenas a influência direta, não teríamos o quadro todo. A chave está na rede de contatos”, diz Fowler. Para cada voto por influência direta da mensagem no Facebook, outros quatro aconteceram por influência indireta.

E no Brasil?
James Fowler afirmou ao iG que o modelo do experimento poderia ser replicado em países de voto obrigatório, como o Brasil, porque ele impactaria a abstinência. “Mesmo em locais de voto obrigatório, a mobilização poderia reduzir a abstinência”, disse.

Mas especialistas ouvidos pela reportagem afirmaram que não é bem assim. “Precisaríamos olhar quem é o eleitor que não vota, e se ele está nas redes sociais” disse Carlos Melo, cientista político professor do Insper, em São Paulo. “Quantos brasileiros, de um universo de 120 milhões de votantes, estão no Facebook? Nisso somos diferentes dos Estados Unidos”.

Além disso, haveria a dificuldade de cruzar os dados pois os dados sobre votação não são públicos, apenas os números absolutos divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Isso não impediria, no entanto, que a metodologia pudesse ser usada para incentivar o voto nulo ou pesquisar a opinião dos usuários de uma rede social para grandes temas importantes, como melhorias no sistema de saúde ou no transporte urbano. “Se o Facebook divulga que dois milhões de pessoas querem ciclovias, que candidato não ia propor uma em sua plataforma”?” pergunta Pollyanna Ferrari, pesquisadora de mídias sociais e professora da PUC-SP.

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