Pesca de arrasto prejudica fundo do mar, alertam cientistas

Técnica com redes que alcançam o solo marinho tem efeitos parecidos com o da agricultura intensiva em terra firme

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CRG Marine Geosciences, University of Barcelona
Imagem do solo marinho em La Fonera, a 770 metros de profundidade, e o efeito das redes de arrasto

Assim como a agricultura intensiva provoca a erosão do solo e alteração dos ecossistemas, a pesca industrial de arrasto nivela a topografia e devasta o fundo do mar, alertam cientistas espanhóis em um estudo publicado nesta quarta-feira (5).

O impacto sobre a fauna e a flora marinha das redes que arranham às cegas o leito marinho é bem documentado. Mas a técnica de pesca também devasta literalmente o fundo do mar, deslocando milhares de toneladas de sedimentos marinhos de grandes áreas, destacou a pesquisa.

A pesca de arrasto é praticada há muito tempo nos "taludes continentais" de várias regiões do mundo e esta prática cresceu para compensar a diminuição de recursos.

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É o que ocorre no Mediterrâneo, no norte da Catalunha, onde Pere Puig e seus colegas da Universidade de Barcelona tentaram avaliar os impactos da prática.

Segundo suas observações, foram registrados fluxos de sedimentos maciços durante a semana e nas horas de trabalho nos flancos do cânion submarino de La Fonera, muito frequentado pelos pescadores de arrasto, perto do porto pesqueiro de Palamós (nordeste da Espanha). De acordo com os cientistas, a quantidade de sedimentos equivale, aproximadamente, àquela deslocada pelas tempestades e chuvas do inverno.

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Um pouco mais de quatro meses de pesca de arrasto representam pelo menos 5.400 toneladas de sedimentos enviados para o fundo do cânion.

Os sedimentos se acumulam duas vezes mais rápido nesta área desde os anos 1970 e após a industrialização da frota de pescadores com rede, segundo cálculos da equipe de Pere Puig, publicados no periódico científico Nature.

Estas avaliações foram confirmadas por um estudo topográfico do cânion que "revelou um alisamento notável" além dos 800 metros de profundidade no flanco norte do cânion. Uma área de mais de 40 km2 que coincide precisamente com a rota seguida pelos grandes pesqueiros.

No total, 10 milhões de metros cúbicos de sedimentos teriam sido arrancados do flanco do cânion pelas redes em 40 anos, afirmam os cientistas.

"Nossos resultados destacam que a pesca de arrasto não altera unicamente o fluxo de sedimentos, mas também a fisionomia do talude continental", provocando uma redução drástica do hábitat submarino que ameaça a biodiversidade, concluíram os pesquisadores.

"Comparamos a pesca de arrasto ao desmatamento, mas nossos trabalhos fazem pensar mais na agricultura intensiva", que nivela os solos, acrescentaram.

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