Satyendranath Bose e Abdus Salam, os heróis esquecidos do Bóson de Higgs

As contribuições para a descoberta da “partícula de Deus” dos cientistas, um indiano e o outro paquistanês, foram esquecidas nas comemorações da semana passada

iG São Paulo | - Atualizada às

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Retrato do físico indiano Satyendranath Bose, que ajudou a descobrir as partículas chamadas bósons

Enquanto o mundo celebrava o possível descobrimento do Bóson de Higgs em 4 de julho, na Índia, muitos estavam ofendidos com o aparente esquecimento da contribuição de um indiano: Satyendranath Bose, o físico homenageado pelo termo “bóson”.

Apesar de Bose ter tido muito pouco envolvimento direto com a teoria que predizia a chamada “partícula de Deus”, na Índia a pouca atenção a um de seus cientistas foi vista como um insulto grande demais para ser ignorado.

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O governo do país emitiu um comunicado oficial, chamando Bose de “herói esquecido”, e reclamando que o físico não recebeu um Nobel durante sua vida, apesar de outros dez acadêmicos da mesma área terem recebido a láurea.

O bóson se chama assim como uma homenagem ao cientista, que trabalhou com Albert Einstein na década de 1920, definindo uma das duas classes básicas de partículas subatômicas. O trabalho descrevia partículas que carregam forças e ocupam o mesmo espaço se estiverem no mesmo estado --- como em um raio laser. Todas as partículas que têm este comportamento, tanto a de Higgs quanto fótons, gravítons e outros, são chamados de bósons.

Quando Peter Higgs propôs a existência de um bóson específico em 1964 para explicar o que daria massa às partículas que compõem toda a matéria, Bose estava morando em sua cidade natal de Kolkata, após 25 anos coordenando o departamento de Física da Universidade de Dacca, no atual Bangladesh. O físico indiano faleceu em 1974, aos 80 anos.

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A imprensa indiana se mostrou indignada com o anúncio do feito na Suíça, por conta do silêncio generalizado sobre Satyendranath Bose. Ele teria sido “ignorado na maior parte das notícias sobre esta descoberta”, escreveu o professor de Yale Priyamvada Natarajan em um artigo no Hindustan Times.

“Indianos são sensíveis quando essa falta de reconhecimento acontece. É um calo no pé de todas as sociedades pós-coloniais”, explica o psicólogo político Ashis Nandy, do Centro para o Estudo de Sociedades em Desenvolvimento, em Nova Delhi. “Quanto antes deixarmos isso de lado, melhor”. Nandy, que entrevistou Bose antes de sua morte, afirmou que o próprio cientistas jamais esteve preocupado com rankings e prêmios.

Físico paquistanês se torna pária na sua terra natal

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Abdus Salam em 1979, após ganhar o Nobel de Física: sua contribuição científica é ignorada no Paquistão



Já o caso de Abdus Salam (1926-1996) é o oposto. Único paquistanês a ganhar o Nobel em 1979, por sua contribuição ao chamado Modelo Padrão, o cientista ignorado em seu país e se trabalho não consta nem dos livros escolares nacionais.

Salam pertencia à minoria religiosa dos Ahmadis, que foram perseguidos pelo governo e por militantes do Taleban, que os consideram hereges islâmicos.

Ele recebeu em vida mais de uma dezena de prêmios e honras internacionais. Em 1979, ele dividiu o Nobel com Steven Weinberg, por seu trabalho que considerava como forças fundamentais governam as dinâmicas gerais do universo.

Nas décadas de 1960 e 1970, o físico foi o conselheiro científico do governo paquistanês, ajudando a organizar sua agência espacial e seu programa nuclear. Mas em 1974, com a emenda constitucional que declarou que os Ahmadis não eram considerados muçulmanos pela lei paquistanesa e sim hereges, sua vida mudou drasticamente. Salam renunciou ao seu cargo e se mudou para a Europa, onde continuou a trabalhar.

Mesmo após o Nobel, a frieza continuou. Seu trabalho atualmente é muito mais celebrado fora do Paquistão, inclusive pelos rivais indianos, do que dentro do país. “O modo como ele foi tratado é uma tragédia,” disse Pervez Hoodbhoy, físico paquistanês que trabalhou com Salam. “Ele passou de uma celebridade nacional para alguém que não podia pisar em sua terra natal. Se ele tivesse voltado, poderia ser insultado, machucado ou até morto”.

Nem após sua morte a perseguição parou. Salam faleceu em 1996, e seu corpo foi trazido de Oxford, Inglaterra, onde morava, para ser enterrado no Paquistão. Em sua lápide, lia-se “Primeiro ganhador muçulmano do Nobel”. Um magistrado local ordenou que a palavra muçulmano fosse apagada da pedra.

(Com informações da AP)

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