Ratos voltam a andar após lesão na medula espinhal

Conexões rompidas foram refeitas com injeções, estimulação elétrica e prótese robótica. Ainda não se sabe se técnica funcionará em humanos

Alessandro Greco, especial para o iG |

Um grupo de ratos em um laboratório em Lausanne, Suíça, reaprendeu a andar após ter a medula espinhal lesionada de forma semelhante à que acontece com humanos que ficam paraplégicos.

A técnica de reabilitação combina injeções, estimulação elétrica e uma veste controlada por um equipamento robótico. “Acreditávamos que os ratos recuperassem uma parte dos movimentos em resposta ao nosso sistema de neuroreabilitação robótico. Ficamos, porém, surpresos, com a extensão da recuperação. Os ratos paralisados foram capazes de ultrapassar obstáculos e subir escadas”, afirmou ao iG Janine Heutschi, uma das autoras da pesquisa, da Escola Politécnica Federal de Lausanne.

Veja no vídeo abaixo como os ratos voltaram a andar:



Caso não consiga ver o vídeo, clique para assistir na TV iG: Ratos voltam a andar após lesão na medula espinhal

Para chegar a este resultado os pesquisadores primeiro injetaram químicos para estimular os neurônios da região em que a medula estava cortada e, em seguida, estimularam eletricamente a região. Esta dupla ação reativou os neurônios do local e refez as conexões entre as duas partes da medula. O passo seguinte foi fazer os ratos caminharem novamente com uma veste suspensa por um braço robótico no qual apenas as patas de trás ficavam no chão. “Fizemos os ratos andarem apenas com as patas de trás para evitar a situação em que as da frente (que não foram afetadas pela lesão) conduzissem os membros paralisados. Ao colocar os ratos em pé sabemos que o movimento deles é gerado apenas devido ao envio de sinais do cérebro à parte lesionada. Portanto, de forma geral, os ratos precisam de estímulos e do controle de equilíbrio dado pela interface robótica para conseguir andar de novo”, explicou Janine.

Leia também:
Tetraplégicos comandam braço robótico pelo pensamento
Ciência avança cada vez mais na interação cérebro e máquina
Vídeo: Paraplégico descreve sensação de voltar a mexer as pernas
Cientistas criam robô controlado pela mente para paraplégicos
Pesquisadores fazem robô controlar braço humano
Estudante paraplégico "anda" em formatura usando exoesqueleto

O grupo da Politécnica de Lausanne dividiu as cobaias em dois grupos: alguns ratinhos eram obrigados a andar e subir degraus voluntariamente, incentivados por uma guloseima, enquanto o outro andou em uma esteira, sem incentivo. Enquanto os que buscavam o petisco efetivamente subiram os degraus e ultrapassaram obstáculos, o grupo treinado pela esteira não conseguia andar voluntariamente no chão estático. Aparentemente, segundo os resultados, é necessário envolver o centro de decisões do cérebro, com um treinamento ativo, para remodelar os circuitos neurais envolvidos no movimento.


Para humanos, uma realidade ainda distante
A pesquisa comprova que, em certas condições, é possível refazer as conexões mesmo após uma lesão grave na medula e abre a possibilidade de se criar algo semelhante para seres humanos. “Os resultados são encorajadores, mas é preciso ter muita cautela porque existem diferenças muito significativas na organização funcional da medula espinhal de roedores e de primatas”, comentou em entrevista ao iG o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis , que também trabalha com reabilitação de paraplégicos e tetraplégicos usando robótica , mas que não esteve envolvido no estudo.

Nicolelis ainda completou: “É bem sabido que a estimulação elétrica da medula espinhal de roedores e felinos pode produzir locomoção quando o animal é colocado numa esteira rolante. No caso de primatas, incluindo o homem, esse fenômeno é bem mais difícil de ser induzido. Assim, estudos em primatas precisam ser realizados com essa técnica para que se tenha mais segurança que existe uma possibilidade mais concreta do método funcionar em seres humanos. De qualquer forma, é um estudo muito elegante e bem feito.”

Os pesquisadores estão agora planejando fazer estudos clínicos em pessoas com lesão na medula espinhal. “Esses estudos irão mostrar o quanto conseguiremos recuperar os movimentos em humanos com esta técnica”, explicou Janine.

O estudo foi publicado nesta quinta-feira (31) no periódico científico Science.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG