Preços quadruplicam em cidades afetadas pelas enchentes

Pacote de meio quilo de macarrão, que não custa mais de R$ 2, é vendido a R$ 4. O quilo do frango passou de R$ 5 para R$ 14

Ricardo Galhardo, enviado a Palmares e Água Preta (PE) |

Alguns comerciantes das áreas atingidas pela chuva em Pernambuco e Alagoas estão cobrando preços até quatro vezes acima do normal por gêneros básicos de sobrevivência e lucrando em cima da tragédia alheia. Em Água Preta (PE), cidade devastada pela enxurrada do Rio Uma, uma vela era vendida a R$ 2 nesta quarta-feira.

No supermercado São José, um dos únicos poupados pelas águas na cidade, um quilo de charque cujo preço normalmente é de R$ 9 custava R$ 35. Um pacote de meio quilo de macarrão, que não custa mais de R$ 2, estava a R$ 4. O quilo de carne de frango passou de R$ 5 para R$ 14.

Os donos do estabelecimento foram procurados para explicar o aumento repentino dos preços mas não atenderam a reportagem do iG . Um dos funcionários do supermercado chegou a ameaçar a reportagem com uma barra de ferro.

“Estas pessoas estão roubando a população. O povo daqui já não tem dinheiro para pagar o preço normal, imagine estes absurdos que estão cobrando”, disse um funcionário da prefeitura que, minutos depois de conceder a entrevista procurou a reportagem para pedir que seu nome não fosse publicado. “Este povo é perigoso e manda na cidade”, justificou.

Em Palmares, outra cidade devastada pela chuva, a Polícia Militar precisou intervir para evitar a especulação em cima da água mineral, um dos produtos mais em falta nas áreas atingidas. 600%. A PM de Pernambuco foi informada e acabou com o cartel dos mototaxistas.

Em um trailer-lanchonete de Palmares o preço de um x-salada no cardápio era R$ 3,50. Na hora de pagar a conta, no entanto, o freguês é informado que o novo valor é de R$ 9. “É o preço. Se não quiser pagar a próxima lanchonete aberta fica a 17 quilômetros”, informou o rapaz do balcão.

Economia

A situação nestas cidades fica ainda mais grave por causa do colapso econômico. Em Água Preta e Palmares as economias pararam. “Trabalhar em que?”, perguntou Ronaldo José Rios. “O comércio, as fábricas e até as usinas estão paradas. O povo está sobrevivendo a custa das cestas básicas do governo ou da ajuda de um e outro”.

As características econômicas das cidades da Zona da Mata pernambucana é outro complicador. Quase um terço da população vive em função da atividade canavieira. Os “privilegiados” trabalham em empregos estáveis como a moagem de cana e produção de açúcar. Estes têm trabalho garantido o ano todo. A maioria trabalha apenas seis meses por ano, durante a safra , quando juntam dinheiro para sobreviver a outra metade do ano.

As chuvas pegaram estes trabalhadores justamente na entressafra. Os que tiveram suas casas atingidas pela enxurrada perderam todo o estoque de comida e tiveram que gastar as últimas economias para comprar produtos de emergência, muitas vezes por preços extorsivos.

“Todo o dinheiro que eu tinha deu para comprar aquilo ali”, disse o cortador de cana José Sílvio Lopes, de 25 anos, apontando para quatro sacolas de plástico com macarrão, tomate, charque, cebola, arroz, óleo, leite, pão e manteiga.

Ele, a mulher, três filhos e a sogra dividem um galpão abandonado à beira da BR-098, em Água Preta, com outras três famílias. Ali acomodaram tudo o que conseguiram salvar da enchente. Uma geladeira, armário, cabeceira da cama e televisão. “O resto foi embora”.

Lopes bem que tentou uma vaga em algum dos abrigos da prefeitura mas estavam todos lotados. Além disso ficou com medo de deixar os únicos pertences à mercê de ladrões que tem agido na região. “O botijão e uma bicicleta que acabei de comprar foram roubados na noite da enchente”, disse ele.

A dona-de-casa Maria José da Silva Ferreira, de 48 anos, que divide o galpão com a família de Lopes, não tinha nesta quarta-feira nada para comer. Viúva, ela vive com R$ 90 mensais do Bolsa Família mas perdeu os documentos na enxurrada e não pode sacar o adiantamento do benefício liberado na véspera pelo governo federal. “Fui na prefeitura para eles me darem um documento provisório, fiquei o dia inteiro lá mas ninguém resolveu meu problema. Todo mundo estava ocupado com a enchente. Hoje vou outra vez. Se não conseguir vou ter que pedir comida mais um dia”, lamentava.

Em um terreno baldio ao lado do galpão abandonado os caminhões da prefeitura despejavam o entulho retirado das ruas. Depois de cada descarga de lama preta com cheiro de esgoto e carniça, uma multidão de desabrigados, muitos deles crianças, começava a remexer o barro em busca de alguma coisa. O encontro de uma lata de salsichas ou de um pacote de biscoitos com a embalagem intacta era comemorado como se fosse uma pepita de ouro.

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