Moradores ainda questionam causas da tragédia

Chuva que devastou cidades em Alagoas e Pernambuco matou mais de 50 e, diferentemente das anteriores, levou tudo que encontrou

Ricardo Galhardo, enviado ao Nordeste |

Uma semana depois das enchentes que mataram pelo menos 52 pessoas em Alagoas e Pernambuco, os moradores das cidades atingidas ainda se perguntam o que teria motivado uma violência tão grande das águas.

O governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), afirmou em entrevista ao “Jornal do Comércio” do Recife que o problema começou em Pernambuco, onde estão as nascentes de todos os rios que inundaram.

Já o governo pernambucano, por meio de sua assessoria de imprensa, culpa a natureza, pois em apenas um dia choveu no Estado o equivalente a um mês inteiro. A abertura de comportas de algumas barragens particulares e a queda de outras teria apenas contribuído para a catástrofe. “Vocês (jornalistas) têm acesso aos relatórios de meteorologia e sabem que ninguém previu isso. A primeira previsão foi às 17h de quinta-feira”, disse o governador Eduardo Campos (PSB). ( Veja imagens da destruição em Pernambuco e Alagoas )

Especialistas ouvidos pelo iG são categóricos em dizer que essa chuva teve uma particularidade que a diferenciou das outras enchentes registradas no Nordeste brasileiro. Grande parte dos danos e mortes não foi causada por deslizamentos de encostas ou casas, mas por uma enxurrada que “varreu” os Estados. “Pareceu um ‘tsunami’. A água veio com uma força incrível, derrubando tudo pela frente”, afirma o meteorologista Manuel Teixeira, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas.

“As enchentes são recorrentes. A população já está acostumada a ver água dentro de casa, só não que ela leve a casa ”, afirma Valmir Alburquerque Pedrosa, professor de mestrado em Recursos Hidrídicos da Universidade Federal de Alagoas (UFA).

AE
Quartel do Derby, na região central do Recife (PE), recebe donativos para as vítimas da chuva no Estado
Como explicar, então, o fato de o rio Una ter arrastado uma ponte de 120 metros de concreto recém construída com a mais alta tecnologia disponível na engenharia nacional, estudos ambientais e custo de milhões de reais? A ponte, que faz parte das obras de duplicação da BR-101, foi levada pelas águas como se fosse de madeira e seus destroços viraram ponto turístico em Palmares.

O próprio governo pernambucano admite que ainda não tem um diagnóstico preciso sobre as causas da catástrofe. Mas enquanto as autoridades se debruçam sobre mapas metereológicos e fluviais, a população arrisca suas próprias explicações.

O aposentado Alberto Joaquim de Freitas, de 86 anos, testemunha das enchentes de 1979, 1975 e 1969 (a pior de todas fora a do último final de semana), culpa a topografia pernambucana. “A nascente do Una fica lá nos altos da serra. Já andei muito por aqueles lados. Quando a água escorre lá do alto ela vem que nem se fosse numa ladeira, pega embalo na descida e vai arrastando tudo”, afirmou.

Outros, como o taxista Francisco José Lins, acreditam na vingança divina. “Isso é um sinal de que Jesus vai voltar. A culpa é do pecado do homem. É tanta falta de vergonha que Deus está mandando castigo em cima de castigo”, disse o taxista, que é evangélico.

Sem prevenção

A verdade é que falta estrutura e o trabalho de prevenção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita as regiões atingidas, anunciou uma  verba de R$ 550 milhões para Alagoas e Pernambuco , mas dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) coletados pela assessoria técnica do DEM mostram que o governo federal gastou apenas 0,74% do total de recursos do Orçamento de 2010 “para prevenção e preparação de desastres” no País. O percentual equivale a R$ 3,2 milhões dos R$ 442,5 milhões reservados inicialmente. Os outros 99,62% continuam retidos. O levantamento, contudo, mostra que o governo Lula gastou R$ 356,7 milhões “em resposta a desastres e reconstrução”. Porém, trata-se apenas de 17,32% do que havia sido orçado.

Números divulgados essa semana pela Confederação Nacional de Municípios mostram que o número de municípios em calamidade é recorde no País . O presidente da Confederação Nacional de Municípios, Paulo Ziulkoski, atribui o agravamento da situação à falta de investimentos em prevenção por parte do governo federal, combinada com a ocupação desordenada do solo, urbanização inadequada das cidades e uma fúria mais intensa do clima nos últimos anos."Há uma cadeia interligada de irresponsabilidades, começando por distorções na execução orçamentária da União, passando pelo inchaço das cidades e pela omissão generalizada quanto à prevenção."

AE
Voluntário limpam Hospital Regional Sílvio Magalhães, em Palmares

De volta "à rotina"

Uma semana depois da enchente as pessoas começam a se acostumar com as privações e necessidades. Aos poucos a distribuição de água e comida está alcançando os desabrigados mais isolados, que não conseguiram vagas ou não quiseram ir para os abrigos com medo de furtos e saques.

nullAs prefeituras começaram a entregar certidões para os beneficiários do Bolsa Família que perderam os documentos e agora podem receber o adiantamento liberado pelo governo. O Ministério da Saúde enviou equipes médicas para as cidades mais prejudicadas. Parte da população está recebendo vacinas contra doenças causadas pela água suja. Mas ainda faltam outros tipos de medicamentos. “Meu filho é epilético, toma remédio controlado, mas o posto de saúde diz que a enchente levou todo o estoque”, disse a dona de casa Maria José da Silva Ferreira, em Água Preta.

O hospital mais próximo, em Palmares, foi destruído pela chuva. O local havia sido reconstruído recentemente depois de uma enchente em 2005 - recebeu investimento de R$ 6,5 milhões em equipamentos que foram arrastados pela água.

Uma semana depois, os moradores se concentram em limpar suas casas e tentar salvar os pertences que sobraram. ( Saiba como ajudar as vítimas das chuvas )

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