Cenário desolador na Terra dos Poetas

Chuvas devastaram Palmares, em Pernambuco, levando dois séculos da história e da cultura

iG São Paulo |

“De repente / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva de danar a paciência! / Chuva de sapo pedir aos céus clemência! /Mãe Natura endoideceu/ E se ela, / que é mãe, / que é sábia, / que é única, / a cabeça perdeu/ quanto mais eu/ quanto mais eu.”

Os versos acima foram escritos pelo poeta modernista Jayme Griz, morto em 1981, sobre as chuvas que constantemente atingem Pernambuco. Griz nasceu em Palmares - município que recebeu esse nome em homenagem ao Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas.

A cidade, que sobrevive do plantio de cana-de-açúcar, começou a se desenvolver a partir de 1862, com a chegada dos trilhos da estrada de ferro no sul de Pernambuco. Em 1879, deixou de ser comarca e passou a município.

Mas foi por ser berço de grandes nomes da literatura brasileira, como o poeta modernista Ascenso Ferreiro e os escritores Hermilo Borba Filho e Jayme Griz, que a cidade ganhou destaque e passou até mesmo a ser chamada de Terra dos Poetas.

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Abrigo improvisado para vítimas da chuva

História perdida

Mais de dois séculos da história e da cultura pernambucanas, porém, se perderam em meio à cheia do Rio Una, provocada pela forte chuva do fim de semana passado. A enchente devastou o município de Palmares, dono do primeiro teatro do interior de Pernambuco.

A força da água destruiu a prefeitura, casas, um cinema e pontes, além de danificar a estrutura de um templo centenário. Só restaram a dor, o desespero e a sensação de desamparo entre os 56 mil habitantes da cidade - terceira mais antiga do Estado e distante 105 quilômetros da capital Recife.

Foi a maior enchente da história de Palmares, segundo os moradores. “Essa enchente não vai mais ser esquecida pelos palmarenses. Até parecia um terremoto”, disse o radialista José Alberto Passos da Silva. Ele perdeu a casa localizada a 200 metros da beira do rio, o carro e documentos. “Fique só com a roupa do corpo”.

Passos e mais sete pessoas da família estão abrigados na casa de um parente, na parte alta da cidade. “Não deu tempo de tirar nada, a água veio como tromba d'água. Nós esperávamos que o rio subisse de maneira mais lenta, quando anoiteceu aumentou a velocidade”, relatou esse pernambucano de fala rápida e grave, estatura baixa e de cabelos escuros. “Diante de tudo isso, fico alegre porque ainda estamos vivos”.

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Entulho no meio da rua de Palmares

"Cratera de mais 10 metros"

O radialista também descreveu o cenário desolador do centro da cidade. “Em frente à prefeitura, abriu uma cratera de mais de 10 metros de profundidade. Lá está uma carreta que foi arrastada do outro lado do rio pela força da água”. Segundo ele, o templo de uma Igreja Presbiteriana de mais de 100 anos também ficou com a estrutura comprometida.

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Moradores fazem fila para distruição de água em Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco
Teresa Cristina Aragão é dona de uma farmácia que ficou completamente destruída. A água chegou ao teto e estragou todos os medicamentos. Segundo ela, ninguém da família morreu, mas os filhos, que moram em Recife e Maceió, ficaram em “pânico” quando acompanharam pela internet a notícia das inundações na noite de sexta-feira (19).

“Nossos celulares não funcionavam e a falta de energia nos deixou sem internet. Pela manhã, as coisas se acalmaram quando conseguimos dar notícias e soubemos que estavam todos bem. Não sei o que será desse povo, do comércio e de toda uma população que foi tragicamente atingida pelas águas que inundaram nossos lares. Quanto às ruas, continuam podres e enlameadas, sem água nas torneiras”, afirmou.

Esquecidos

De acordo com Teresa Cristina, a cidade não recebia atenção dos governantes há muito tempo. “Já estávamos a ver navios antes das enchentes. Sem indústrias, sem fábricas, sem uma voz forte que clamasse por melhorias na Terra dos Poetas. As usinas da região davam o sustento aos trabalhadores da Zona da Mata de Pernambuco”.

Mesmo sofrendo como os outros palmarenses que perderam casas e objetos pessoais, a comerciante começou uma campanha para arrecadar doações para os conterrâneos em sua página pessoal na internet. No sábado, ela recebeu roupas e alimentos arrecadados por familiares e amigos do Recife. “As pessoas estão sobrevivendo de donativos que chegam sem parar. Eu estou engajada nessa solidariedade e fiz da casa em que estou alojada um campo de SOS, pedindo doações e ajudando a matar a fome dos desesperados”.

(*com informações da Agência Brasil)

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