Ajuda ainda não chegou aos desabrigados em União dos Palmares

Moradores relatam falta de comida e água e se recusam a ir para os abrigos com medo de brigas e roubos

Ricardo Galhardo, enviado a União dos Palmares (AL) |

Boa parte dos desabrigados pela chuva em União dos Palmares (AL) ainda não recebeu nenhum tipo de ajuda governamental. Eles sobrevivem graças aos amigos que dividem a pouca comida disponível, dormem amontoados em barracos e estão desde sexta-feira sem acesso a serviços básicos de higiene como banho e roupa lavada. As inundações atingiram cerca de 20% dos 62 mil moradores da cidade.

“Estamos passando fome. Ontem tivemos que catar comida no meio da lama para dar aos meninos. Estamos comendo lama”, reclamou Deise de Andrade. Ela e pelo menos outras 30 pessoas, na maior parte crianças, se recusam a ir para os abrigos da prefeitura com medo de brigas e roubos – fatos registrados em outras enchentes na cidade.

AE
Cena da destruição em União dos Palmares, Alagoas, uma das cidades mais afetadas pelas chuvas no Estado
“Já perdi quase tudo o que tinha. O pouco que sobrou está aqui. Não vou para um abrigo ficar passando aflição de que algum malandro leve tudo”, disse Tarcísio Moreira da Silva. O pouco que sobrou do patrimônio de Tarcísio são dois sofás, uma estante e um ventilador. Tudo sujo de lama preta do rio Mundaú.

Todos estão há cinco dias na casa de Nadir Maria da Conceição, uma das poucas que escaparam das inundações no chamado beco da Rua da Cachoeira, à beira do rio Mundaú.

Carregando em uma das mãos uma panela com um pedaço pequeno de costela bovina cozida e na outra um pedaço de toucinho ganho do dono do frigorífico, o trabalhador rural José Maria dos Santos exibia a mistura do dia para as 30 pessoas do local. Os acompanhamentos eram um prato de arroz e cinco espigas de milho assadas. “É o que tem pra hoje”, lamentou José Maria.

A água usada a conta-gotas para cozinhar e beber viajou 73 quilômetros desde Maceió, trazida por uma das filhas do lavrador. Eram no total oito garrafas PET de 1,5 litro que devem durar no máximo até quinta-feira. As garrafas estavam armazenadas em um rancho de tábuas construído em 2000, quando a cidade registrou a última grande enchente, e que hoje abriga oito pessoas em apenas um colchão encardido.

A carência dos moradores do beco da Rua da Cachoreira por qualquer tipo de auxílio é tamanha que a reportagem do iG foi logo cercada pelos abrigados no local que imploravam para que seus nomes fossem anotados. A reportagem informou que não cadastrava os desabrigados, apenas registrava os entrevistados, mas os pedidos não paravam. “Coloque aí por favor o meu nome Benedita Maria da Silva e da filha Diane e do meu filho Wilson e o sobrinho Marcos”, implorava uma mulher com um bebê no colo.

Durante as duas horas em que a reportagem permaneceu no local os nomes não pararam de chegar. Rosilda, Deise, Tarcísio, Rosilene, Deise, Joarez, Benedito, Vitória, Josefa, Carlos Antônio, José Custódio.

O único sinal da presença estatal na Rua da Cachoeira era um carro de som da prefeitura que repetia uma mensagem gravada pelo prefeito Areski Freitas (PTB). “Estamos aguardando para hoje a chegada de ajuda. O momento é muito difícil mas com certeza vamos sair mais fortes”, dizia a mensagem.

O auxílio liberado até agora pelo governo federal também não aumenta a esperança dos moradores do beco. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) aos desabrigados mas quase ninguém ali tem emprego formal.

“Aqui pouca gente tem carteira assinada. É mais na base da informalidade. A grande maioria da população, eu diria”, afirmou o prefeito. “Até agora a prefeitura fez tudo sozinha. Não chegou nada do governo estadual. De Brasília só agora chegaram 2 mil cestas básicas”, completou.

A informalidade vigora inclusive na prefeitura. Tarcísio, por exemplo, trabalha há ,mais de cinco anos no matadouro municipal mas sempre como temporário. “De três em três meses tem que renovar o contrato”, disse ele.

Enquanto a reportagem do iG deixava o local uma senhora idosa com lenço na cabeça correu gritando: “coloque meu nome aí, é Lucimar da Silva”.

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