No IML, a dor de parentes convive com a burocracia para liberar corpos

Se a dor da tragédia é difícil de suportar, carregar o fardo da morte de amigos e parentes esperando mais de 72 horas para liberar corpo por causa de burocracia é um desafio para quem só faz chorar desde a chuva que deixou o Rio de Janeiro em estado de calamidade.

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |


Arte iG

No Instituto Médico Legal (IML) de Tribobó, em São Gonçalo, parentes de vítimas de segunda-feira ainda tentam enterrar os corpos. Alguns sequer têm dinheiro para tirar cópias dos documentos necessários, como contou um agente funerário que trabalha no local e pediu para não ser identificado.

Casos como o de Luciene da Conceição Bastos, doméstica de 49 anos, que estava acompanhada do vizinho, Édson Marinho, aposentado de 64. Irritados, pouco falaram sobre a situação. Mas têm um longo caminho a percorrer. O primeiro, cerca de um quilômetro por ruas cheias de lama para copiar a certidão de nascimento de Edésio da Conceição Araújo, nascido em 1966 e morto na última segunda-feira, em deslizamento na rua Coronel Leôncio, em São Gonçalo. Indagada sobre o motivo de ainda não ter enterrado o irmão, Luciene não respondeu, Édson reclamou. Temos de pegar documento aqui, lá, não sei mais o quê. E seguiram andando em meio à lama.

O agente funerário explicou o motivo da bronca. O corpo de Edésio não tinha identificação, os documentos sumiram e, nesses casos, são 72 horas para liberar o cadáver. O documento saiu nesta quinta e, com ele, os dois irão ao cartório para fazer a certidão de óbito. Com ela em mãos, o passo seguinte é a funerária municipal para solicitar a gratuidade do serviço funerário (urna, remoção, capela municipal e cova rasa), que está sendo concedido pelas prefeituras de São Gonçalo e Niterói para as vítimas da chuva. Eles terão de andar bastante. Alguns que chegam aqui não têm dinheiro nem para Xerox, contou o agente funerário.

Mulher retirou prima de escombros duas vezes e tem medo de dormir

Cláudia Cristina da Silva, doméstica de 32 anos, porém, não reclamava. Mesmo tendo aguardado mais de 15 horas no IML, apenas na quarta-feira, prefere se movimentar a dormir. O medo não a deixa mais fechar os olhos. Além de Maria de Fátima Correia, sua prima de 39 anos, ela perdeu amigos, vizinhos e a própria casa. Ela mesmo ajudou a retirar o corpo da prima debaixo dos escombros duas vezes.

Vicente Seda

Cláudia Cristina: medo de dormir

Foi no Novo México, São Gonçalo. Caíram muitas casas na segunda-feira. Por volta de 3h30, faltou luz e eu ouvi o estrondo. Logo depois a irmã da minha prima chegou pedindo para eu ajudar a retirá-la com os vizinhos. Conseguimos por volta de 4h10, tentei reanimá-la, do jeito que aprendi na televisão, mas era tarde. Tiramos o corpo, colocamos em frente a outra casa, fomos tomar um café, e essa casa também caiu em cima dela de novo e tivemos de retirar novamente, contou.

A dor da perda, neste caso, a fez esquecer as horas sentada em uma cadeira aguardando para reconhecer pela segunda vez o corpo da prima, segundo ela procedimento padrão porque os documentos foram perdidos no deslizamento. Ela está dormindo com toda a família em uma igreja próxima. Dormindo não, cochilando de vez em quando. Não consigo mais dormir. Isso parece até um sonho e a gente fica tentando acordar. É uma sensação de estar sem chão. Perdi muitos amigos, a minha casa. Ficar acordado agora é normal. Sei que a igreja é segura, mas tem um monte de casa boa caindo. Tenho medo, todos lá estão muito assustados. Ficar acordado é melhor do que dormir, não sei o que pode acontecer.

Auxílio aos parentes das vítimas

Por volta das 15h desta quinta-feira, uma van e um carro da Defensoria Geral do Estado, com defensoras públicas, chegaram ao IML de Tribobó. Segundo informações, um plantão seria montado no local para agilizar a emissão de certidões de óbito e providenciar a gratuidade dos sepultamentos das vítimas. No entanto, ficou decidido que todos os corpos das vítimas de Niterói serão encaminhados ao IML do Rio. Desta forma, o plantão da defensoria pública será montado no Rio.

Petrúcio Malafaia Vicente, coordenador geral da defensoria pública de Niterói, explicou: "O volume de trabalho já é grande e será ainda maior. Então os órgãos públicos estão montando uma logística uniforme. Ainda não foi resolvido o horário, mas o plantão será feito no Rio. Como chegamos no limite da capacidade do IML de Tribobó, os corpos das vítimas de deslizamentos que ainda não vieram para cá serão encaminhados para o Rio".


Dramas e relatos

Leia também:

Leia mais sobre: chuvas

    Leia tudo sobre: chuvaimlrio de janeiro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG