Incêndio em circo em Niterói matou 500 na década de 60

Gran Circus Norte-Americano era anunciado como o maior da América Latina, com 60 artistas, 20 empregados e 120 animais

iG São Paulo |

"Esta é a pior tragédia que atinge Niterói desde o incêndio do circo", disse o prefeito de Niterói, Jorge Roberto da Silveira (PDT), após deslizamento no morro do Bumba, na última quarta-feira, que pode ter deixado entre 200 e 300 pessoas soterradas.

Quase 50 anos depois, os niteroienses ainda se recordam e evocam a tragédia de 17 de dezembro de 1961, quando um incêndio causou a morte de cerca de 500 pessoas (70% delas crianças) na cidade.

Há diferenças entre as tragédias, além de uma ter sido provocada pelas águas da chuva e outra pelo fogo. O incêndio de 61 foi criminoso, provocado por Adilson Marcelino Alves, o Dequinha, e mais dois comparsas. Ele até hoje consta como o maior acidente em recinto fechado do País.

O Gran Circus Norte-Americano era anunciado como o maior da América Latina, com 60 artistas, 20 empregados e 120 animais. Sua montagem na Praça Expedicionário (centro de Niterói) demorou cerca de uma semana, em dezembro de 1961, e envolveu 50 empregados temporários, contratados para essa função. Só a colocação da cobertura envolvia uma complexa operação, pois o tecido pesava mais de seis toneladas.

Dequinha era um dos funcionários contratados para a instalação. Trabalhou por dois dias e foi demitido pelo dono do circo, Danilo Stevanovich. Jornais da época descrevem que houve um desentendimento entre os dois. A noite de estreia, em 15 de dezembro daquele ano, teve lotação máxima - mais de 3.000 pessoas assistiram as atrações.

Dequinha tentou entrar sem pagar, mas foi barrado. No dia seguinte, discutiu e foi agredido por um dos tratadores de animais do circo. Jurou vingança. Na tarde do dia 17 de dezembro, Dequinha convidou José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, para colocar fogo no circo.

Apesar da lotação máxima, da presença majoritária de mulheres e crianças, o plano foi desencadeado conforme o planejado. A lona foi encharcada de gasolina e depois foi ateado fogo. O tecido, que deveria ser de náilon, era de material altamente inflamável. Rapidamente o fogo se espalhou.

A trapezista Antonieta Stevanovich acabava de dar seu salto triplo (chamado O Salto da Morte) e ainda estava na rede de proteção, quando notou que a lona estava em chamas. Deu o alerta, espalhando o pânico entre os mais de 3.000 presentes.

O jornal Tribuna da Imprensa descreveu assim o ocorrido: Em menos de 20 minutos o circo ficou completamente destruído, com um montão de corpos carbonizados na porta principal e outros espalhados pelas cadeiras e debaixo da arquibancada. Um pouco longe do circo, era este o espetáculo: uns se arrastando quase em frente à estação da Leopoldina, outros rasgando suas roupas aos gritos. Os que conseguiram sair sem ferimento gritavam por socorro. Dois minutos depois chegava o Corpo de Bombeiros, que teve só um trabalho: juntar os mortos nos caminhões dos particulares e mandá-los para o necrotério. Praticamente não havia mais fogo.

Centenas de pessoas foram carbonizadas, outras foram sufocadas pela fumaça e algumas foram pisoteadas, em meio ao pânico dos que tentavam sair. A tragédia só não foi maior porque um elefante conseguiu romper a lona do circo, abrindo uma rota de fuga alternativa. De acordo com informações da polícia, 372 pessoas morreram no local. Outras morreram nos dias seguintes, em decorrência de ferimentos e complicações advindas do incêndio. O número de mortos é estimado em 500. Mais de 1.000 pessoas ficaram feridas.

Como não havia espaço no IML (Instituto Médico Legal) de Niterói, vários corpos foram recolhidos às câmaras de estocagem de carne bovina da indústrias frigoríficas Maveroy. Os corpos depois eram encaminhados ao estádio municipal da cidade, cobertos com lençóis brancos doados pela população. Reconhecidos, iam diretamente para os caixões. Como tinham que atender a diferentes tamanhos, os caixões eram feitos na hora, por marceneiros e carpinteiros da cidade, convocados em regime de urgência para atender à demanda.

O governo mandou equipes de médicos e remédios para ajudar os feridos. O governador Celso Peçanha passou a noite no local, acompanhando os trabalhos de socorros às vítimas. A tragédia teve repercussão internacional. O papa João 23 rezou uma missa no Vaticano em memória às vítimas do incêndio. Os EUA mandaram medicamentos, a Argentina enviou médicos para ajudar.

Durante dias, Niterói viveu sepultamentos seguidos. As pessoas vestiam preto. Os carros circulavam com fitas pretas penduradas.

Dequinha foi preso em 22 de dezembro de 1961. Seus parceiros também foram capturados. Em outubro de 1962, Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão e mais 6 anos de internação em manicômio judiciário. Em 1973, porém, fugiu da prisão e um mês depois foi assassinado. Bigode recebeu pena de 17 anos de reclusão. Pardal foi condenado a 16 anos.

Niterói demorou 14 anos para receber outro espetáculo circense. No local da tragédia foi erguida uma praça. Um dos moradores da cidade, o empresário José Datrino, ficou abalado com o incêndio e viu nele um sinal de necessidade de mudança. Abandonou os negócios, no ramo de transporte, e passou a difundir a necessidade de uma postura mais humana e gentil. Pregou durante 35 anos, sendo conhecido como profeta Gentileza.

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