Construções em aterros ou lixão não deveriam ser feitas, dizem especialistas

Uma área de depósito de lixo jamais deveria receber construções de qualquer tipo, por pelo menos três décadas após seu fechamento. É o que dizem os especialistas ouvidos pelo iG.

Natasha Madov, iG São Paulo |

Imagine uma massa disforme, sem sustentação, com buracos onde se forma gás. Fica um terreno semelhante a uma esponja, descreve Maurício Maruca, diretor da Araúna Energia e Gestão Ambiental.  Essa falta de firmeza do solo é o principal motivo pelo qual não se deve construir nada em uma área de lixão ou mesmo de aterro sanitário.

Acervo jornal O Fluminense

Lixão no Morro do Bumba, em 1977

O  engenheiro civil geotécnico da Escola Politécnica da USP, Fernando Antonio Medeiros Marinho, concorda. O terreno do aterro sanitário é mais estável que o do lixão. No entanto, o aterro é construído para sustentar a si próprio, explica. Além disso, por causa da emissão de metano, que é inflamável, é arriscado construir sobre eles. Suponhamos que uma residência ou um centro comercial fosse construído em cima de um aterro e que este emanasse o gás. Se o metano se concentrasse em um cômodo, ao acender a luz, o local poderia explodir, explica.

Uma alternativa de uso para os aterros sanitários seria, após 30 anos de sua desativação, construir parques, campos de futebol ou de golfe sobre eles. Isso foi feito nos Estados Unidos, afirma Marinho.

AE

Tragédia em Niterói

Lixão e aterros

Existem três maneiras de dispor do lixo e de resíduos sólidos. A primeira é o lixão, uma área a céu aberto onde os resíduos são despejados, sem nenhum tipo de impermeabilização do solo. Não atendem a normas de controle ¿ e estão proibidos no Brasil. Apenas recebem resíduos jogados de qualquer maneira, diz o presidente do Instituto Brasil Ambiente e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), Sabetai Calderoni.

Eles atraem ratos, urubus, insetos e outros animais transmissores de doenças. No máximo, coloca-se uma terra por cima do lixo. Como não há cuidado, o lixo vai desmoronando ao longo dos anos enquanto se acomoda, afirma.

Outro é o aterro controlado,  normalmente um lixão remediado, que  é coberto por terra, e depois por camadas sucessivas de terra e lixo, mas sem procedimentos de impermeabilização do solo. Por fim, o aterro sanitário, onde o depósito de lixo obedece a uma série de normas e procedimentos a fim de minimizar seu impacto sobre o meio ambiente.

Entre eles,  distância de no mínimo 100 metros de área construída e cursos dágua, impermeabilização do solo com uma camada de dois metros de manta sintética, pedra e areia, alternância de lixo compactado com  terra com argila, sempre terminando em grama, construção em desnível, drenagem de gás metano e chorume (líquido resultante da decomposição do lixo) e tratamento adequado de todos os dejetos. Sua vida útil é de 20 anos.

Lixão de Niterói

Nenhuma dessas precauções foi observada no Morro do Bumba, em Niterói, que desmoronou na noite de quarta-feira. O morro foi o lixão de Niterói de 1970 a 1982. De acordo com o biólogo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Declev Reynier Dib-Ferreira, a capacidade de receber lixo se esgotou no início da década de 80 e a prefeitura começou a levar esse material para o aterro controlado de Gramacho, em Duque de Caxias.

"O lixão foi para outro lugar e, como não havia fiscalização na década de 80, o Morro do Bumba começou a ser ocupado e houve a construção de pequenas casas de alvenaria", conta.

Dib-Ferreira afirma que Niterói não tem um lugar propício para despejar o lixo. "Como o custo levar o lixo para Gramacho era alto, a prefeitura teve de providenciar um local para servir de vazadouro. Em 1983, todo o lixo de Niterói passou a ser jogado, sem nenhum tratamento, na região do Morro do Céu, vizinha de Viçoso Jardim."

No início da década de 80, catadores - pessoas que vivem no lixão a procura de materiais recicláveis para vender, objetos para suas casas e até alimento para consumo da família - começaram a "invadir" a região. "Além do poder público não dispor de outro local, os catadores tiveram mais força que os moradores para que o lixão ficasse lá."

Em outros países

No Primeiro Mundo, a opção é pelo aterro sanitário. Mas por causa da falta de espaço, alguns países da Europa como Espanha, Alemanha, França e Grécia focam pesado nos incentivos à reciclagem como um modo de aliviar os aterros e diminuir a quantidade de lixo.

Barcelona, localizada na Espanha, é um exemplo. Em 1997, entrou em vigor uma lei que obriga todas as empresas a reciclar a embalagem de seus produtos. Assim, no valor de qualquer produto comercializado, que possui na embalagem o símbolo chamado Ponto Verde, está embutida uma pequena taxa de reciclagem, que custa centavos de euro.

A população separa seu lixo em vidro, resíduos orgânicos, embalagens, papel e papelão e outros. Os caminhões não passam nas residências, como ocorre no Brasil. O lixo deve ser levado às lixeiras de coleta seletiva dispostas nas calçadas. Depois, recolhido por caminhões que transportam cada tipo de lixo para os locais onde ele é separado e depois comprado como matéria-prima.

(Com informações de Isis Nóbile Diniz, especial para o iG )

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