Relembre alguns julgamentos que marcaram o País

Marcado para o dia 22 de março, o julgamento do casal Nardoni, acusado de matar Isabella Nardoni, então com 5 anos, entra para um seleto grupo no Brasil: o dos crimes que ultrapassam as barreiras municipais para ganhar repercussão nacional.

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

  • Veja fotos que marcaram o caso Isabella Nardoni
  • Infográfico: cronologia e versões do caso
  • Veja o especial do iG sobre o caso Isabella Nardoni
  • Na quinta-feira, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou a liminar da defesa de Alexandre Alves Nardoni e Anna Carolina Jatobá que pedia a retirada da acusação de fraude processual. Assim, foi confirmada a data do julgamento, que deve ser um dos maiores do País.

    Arquivo
    Isabella Nardoni em foto do arquivo pessoal da família

    Já tivemos grandes júris no Brasil, mas de repercussão nacional podemos contar nos dedos de uma só das mãos, afirma o advogado criminalista Romualdo Sanches Calvo Filho.

    Daniela Perez, Pimenta Neves, Dorothy Stang e Suzane von Richthofen: são raros os casos que chegaram perto da comoção atingida pela morte de Isabella, segundo especialistas ouvidos pelo iG . Ainda assim, eles são unânimes em dizer que, de todos os crimes conhecidos das últimas décadas, apenas o planejado por Suzane von Richthofen assemelha-se ao que acabou com a vida de Isabella.

    O motivo, segundo eles, é a improbabilidade de que acontecessem. Assim como uma criança ser jogada pela janela e ter como acusados aqueles que deveriam protegê-la (no caso, o pai e a madrasta), está também um casal que é morto a pedido da própria filha.

    AE
    Alexandre Nardoni e Anna Carolina

    Para advogados, todos os fatores envolvidos no caso Isabella despertam atenção: a forma como o crime foi praticado, a vítima e os principais acusados.

    Briga de bar com morto é coisa que você sempre tem, agora quando o crime envolve uma criança indefesa que tem uma vida toda pela frente isso mexe com os sentimentos morais das pessoas, considera Rodrigo Faucz Pereira e Silva, advogado e autor do livro "Tribunal do Júri: o novo rito interpretado".

    Sergei Cobra Arbex, advogado criminalista que participou como assistente de acusação do julgamento do jornalista Pimenta Neves, afirma que a classe social da família Nardoni também foi determinante para que as pessoas se interessassem pelo caso. Os envolvidos são de classe média, pessoas instruídas, que têm condições de discernir. Isso choca as pessoas e os formadores de opinião, que se sentem ofendidos e percebem um crime perto de si, diz.

    Conforme especialistas, a própria forma como o assassinato foi praticado é por si só chocante, já que não envolve armas brancas ou de fogo, mas uma pessoa que é atirada pela janela. Outro fator importante foi a atenção dada pela mídia ao assunto. A cobertura da mídia foi peculiar. Quando não há interesse da mídia, dificilmente há da sociedade, avalia Rodrigo Faucz.

    A busca pelos culpados também colabora para tornar o caso mais instigante. Ao contrário de Suzane von Richthofen, que confessou ter participado da morte dos pais; os acusados pela morte de Isabella negam veementemente o crime. Inclusive, divulgaram cartas e concederam entrevista à TV alegando inocência . O fato de não confessarem traz o componente de mistério e da possibilidade de se cometer injustiça e condenar inocentes, acrescenta Arbex.

    O caso

    Isabella Oliveira Nardoni morreu no dia 29 de março de 2008 após cair do 6° andar do difício Residencial London, na Vila Isolina Mazzei, na zona norte de São Paulo. Desde o início, a polícia descartou a hipótese de acidente. A criança era filha do consultor jurídico Alexandre Alves Nardoni e da bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira. A cada 15 dias, passava o final de semana com o pai, a mulher dele e os irmãos.

    Saiba mais sobre outros crimes e julgamentos famosos:

    Daniela Perez

    Há 3 dias do réveillon de 1993, a atriz Daniela Perez, filha da autora Glória Perez, foi assassinada com 18 golpes de tesoura em um matagal de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Na época, tinha 22 anos, vivia a personagem Yasmin da novela De Corpo e Alma e estava casada com o ator Raul Gazolla. Além de envolver uma pessoa pública, o crime chocou os brasileiros porque o acusado foi o ator Guilherme de Pádua, que contracenava com ela na novela, e a mulher dele, Paula Thomaz, 19 anos, que estava grávida de quatro meses. Guilherme chegou a comparecer ao enterro de Daniella para prestar condolências à mãe e ao marido dela.

    Em 14 de janeiro de 1997, Guilherme de Pádua foi condenado a 19 anos de prisão, após mais de 67 horas de julgamento no 1º Tribunal do Júri no Rio. Três meses depois, a mulher dele também foi julgada e condenada a 18 anos e seis meses. No entanto, em outubro de 1999, Guilherme foi solto por ter cumprido 1/3 da pena e ter apresentado bom comportamento. Paula teve o filho na prisão e, desde 1999, também está solta. Os dois se separaram.

    Pimenta Neves

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    Pimenta Neves em foto de 2006
    A jornalista Sandra Florentino Gomide, de 33 anos, foi morta em 20 de agosto de 2000 em um haras em Ibiúna, interior de São Paulo, com um tiro nas costas e outro na cabeça. Desde o início, a polícia atribuiu o crime ao diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo Antônio Marcos Pimenta Neves, de 63 anos, ex-namorado da vítima. Ele confessou o assassinato. 

    Sandra era uma jornalista em início de carreira quando conheceu Pimenta Neves na redação do jornal Gazeta Mercantil . Quando foi dirigir o jornal O Estado de S.Pau lo, em 1997, Pimenta levou Sandra e a promoveu a editora. No entanto, com o término do namoro, a jornalista também foi despedida. Além disso, o jornalista passou a perseguí-la, segundo apurou a polícia.

    Em 5 de maio de 2006, após mais de 35 horas de julgamento, Pimenta Neves foi condenado a 19 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. No entanto, o juiz Diego Ferreira Mendes, que presidiu o júri, não decretou a prisão e decidiu deixá-lo recorrer em liberdade, atendendo um acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF) que revogou a prisão preventiva do réu, em 2001. Até hoje, Pimenta Neves ainda está solto.

    Dorothy Stang

    Em 12 de fevereiro de 2005, a missionária americana naturalizada brasileira Dorothy Stang, de 73 anos, foi morta com seis tiros em uma estrada de Anapu, distante cerca de 300 km de Belém, capital do Pará. Ela trabalhava há 20 anos na região e ficou conhecida como irmã Dorothy pela atuação na busca por geração de emprego, desenvolvimento sustentável e redução dos conflitos fundiários.

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    Dorothy Stang foi assassinada a queima roupa
    De acordo com a acusação, fazendeiros encomendaram a morte porque estavam insatisfeitos com a defesa que Dorothy fazia dos sem-terra, pedindo assentamentos. O caso teve forte repercussão nacional e internacional e aumentou a pressão para que o governo criasse áreas e proteção ambiental no Estado.

    O crime teve diversos envolvidos e desdobramentos. Considerado um dos pistoleiros, Rayfran das Neves, o Fogoió, por exemplo, foi julgado três vezes. Ele foi condenado a 28 anos de prisão. Clodoaldo Batista, outro pistoleiro, recebeu pena de 17 anos. Tido como intermediário entre o mandante e os pistoleiros, Amair Feijoli da Cunha, o Tato, foi condenado a 18 anos de prisão.

    Apontado como mandante da morte, o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, foi condenado, em 14 de maio de 2007, a 30 anos de reclusão. No segundo julgamento, porém, em 6 de maio de 2008, ele foi absolvido por cinco votos a dois. A promotoria recorreu e o Tribunal de Justiça anulou o julgamento, prendendo Bida novamente.

    Em 2010, o caso promete ter novos capítulos já que dois julgamentos estão agendados para este ano. O terceiro julgamento de Bida está marcado para 31 de março na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Belém. Outro suposto mandante, o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, irá a júri popular no dia 30 de abril.

    Suzane Von Richthofen

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    Suzane em foto de 2006, quando foi julgada
    O engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia von Richthofen foram assassinados a golpes de barras de ferro, na madrugada do dia 31 de outubro de 2002, enquanto dormiam na casa em que moravam na rua Zacarias Góis, no Brooklin, zona sul de São Paulo.

    A brutalidade do crime já ganhou repercussão, mas a revelação da polícia de que a filha do casal, Suzane von Richthofen, havia planejado a morte dos pais escandalizou o País. Então com 18 anos, Suzane era uma jovem bonita, rica e cursava o primeiro ano de direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Para o crime, Suzane contou com a ajuda do namorado, Daniel Cravinhos, e do irmão dele, Cristian.

    De acordo com a polícia, no dia 30 de outubro, o irmão de Suzane, Andreas foi levado a um cybercafé enquanto a acusada seguiu para a casa com os irmãos Cravinhos. Ela teria desligado o alarme, verificado se os pais dormiam e acendido a luz de um hall, como sinal para que os irmãos entrassem. Para a polícia, Daniel matou Manfred enquanto Cristian assassinou Marísia.

    Depois do crime, a preocupação do trio foi simular um latrocínio. Para isso, reviraram a casa, desarrumaram a biblioteca e sumiram com dinheiro e jóias.

    Sob forte esquema de segurança e cobertura da mídia, o julgamento dos três aconteceu no 1º Tribunal do Júri da Barra Funda e durou cinco dias. Ao término, em 22 de julho de 2006, Suzane e Daniel foram condenados a 39 anos e seis meses de prisão por duplo homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Cristian foi condenado a 38 anos e seis meses de prisão pelo mesmo crime. Os irmãos cumprem pena na penitenciária II de Tremembé, onde também está Alexandre Nardoni. Suzane está no presídio feminino da mesma cidade.


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