Primeiro dia de julgamento do casal Nardoni é marcado por manifestações

O primeiro dia em frente ao Fórum de Santana, na zona norte da capital paulista, onde ocorre o julgamento do casal Nardoni, acusado de matar a menina Isabella, foi marcado pela presença de manifestantes pedindo ¿justiça¿, em defesa de causas como a redução da maioridade penal e prisão perpétua, estudantes de Direito em busca de uma vaga no plenário e pessoas que admitiram estar ali apenas para ¿chamar a atenção¿.

iG São Paulo |


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Por volta das 8h, já era possível ver manifestantes se dizendo revoltados com a impunidade e segurando cartazes com a foto de Isabella. Se dependesse do público presente no Fórum, o casal nem precisaria de julgamento: já estaria condenado.

Enquanto a movimentação de curiosos e jornalistas foi intensa durante todo o dia na frente do fórum, em instâncias do Tribunal funcionários trabalhavam como se o julgamento mais esperado da década não estivesse acontecendo a metros dali. Na Vara da Família, cinco crianças jogavam futebol com peças de brinquedos em uma sala de espera do serviço social. Na TV, passava um jogo de futsal da seleção brasileira. Ninguém acompanhava o julgamento.

No mesmo andar, uma funcionária da recepção tirava extrato da agência da Nossa Caixa instalada no local. Fora a bagunça lá fora, está tudo no esquema hoje. É um dia como outro qualquer, dizia, ela, que não quis dar o nome, mas não deixou de dar seu palpite: Para mim foram eles (os culpados). Não tem outra possibilidade. Espero que a justiça seja feita.

Algumas pessoas viajaram quilômetros para protestar, como foi o caso do empresário André Luiz dos Santos, de 49 anos, que saiu de Ponte Nova, Minas Gerais, no sábado, e está desde domingo na frente do fórum. Segurando uma cruz de cartazes, que disse pesar 30 kg, ele afirma que é pai de três filhos e foi ao local para pedir paz. Quero Justiça e que parem de matar crianças, disse.

Empresário mineiro protesta desde domingo na porta do Fórum de Santana

Vestindo camisetas com a foto de Isabella e a inscrição Para sempre nossa estrelinha, um grande grupo segurava faixas e cartazes. Eles se diziam amigos e vizinhos da família e permaneceram no local até anoitecer. A representante comercial Maria Lucia Guimarães, de 60 anos, afirmou ser amiga há 20 anos do avô de Isabella, José. Não precisa ser mãe para pedir justiça. Acredito que se fosse uma terceira pessoa ia pegar a menina e ir embora e não cortar a tela e jogá-la pela janela, disse.

Entre os manifestantes estava também o comerciante Masataka Ota, pai de Ives Ota, o garoto que foi seqüestrado por dois policiais militares e um motoboy e assassinado com dois tiros no rosto em 1997, aos oito anos de idade, num crime que chocou o país.

A dor da Ana (Carolina Oliveira, mãe de Isabella) é a mesma dor que eu senti, disse Ota. Em 1999 ele coletou 3,5 milhões de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular que criava prisão perpétua para crimes hediondos. O projeto nunca foi à votação porque é inconstitucional. A punição ajuda a aliviar a dor da família. É nestas horas que a justiça se mostra. Do contrário a gente não acredita em mais nada, disse o comerciante. Os três responsáveis pela morte de Ives foram condenados a penas entre 43 e 45 anos de prisão, mas passaram menos de nove anos na cadeia. Agora a gente tem medo de sair para trabalhar e cruzar com um deles, disse Ota.

Disputa por vagas

Desde o início da manhã, filas também se formavam na frente do Fórum de pessoas querendo acompanhar ao vivo o julgamento. A sala contém apenas 77 lugares, sendo que 20 deles foram destinados aos veículos de comunicação.

A estudante Cecília Santana, de 18 anos, veio acompanhada das amigas Juliana Marim, 18, e Laís Chiarato, 21, da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. "Estou aqui para aprender. Já acompanhei alguns julgamentos, mas nada que se compare a este, disse ela, enquanto aguardava ansiosa por uma vaga.

Já outros apareceram no local movidos apenas pela curiosidade. Foi o caso do metalúrgico desempregado José Albuquerque, de 53 anos. Morador do Ipiranga, ele viu na TV notícias sobre o julgamento e correu para o Fórum na tentativa de conseguir um lugar entre os populares que poderiam acompanhar a sessão, conforme noticiara a televisão. Nunca vi um julgamento. Nem em filmes. Tomara que consiga entrar, dizia ele, perto das 17h, já sem muita esperança de conseguir o feito.

AE
Crianças em frente ao fórum

Crianças em frente ao fórum pedem por Justiça

Pais órfãos

Outro grupo que se destacava, nesta segunda-feira, era o de pais que perderam os filhos vítimas da violência e, por isso, afirmaram se solidarizar com a dor de Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. O radialista Hécio Rodrigues Sécio, de 72 anos, segurava nas mãos a foto do filho Hécio Sécio Junior, que morreu em janeiro de 1997. Segundo ele, Júnior foi assassinado com seis tiros durante uma discussão banal com o zelador do prédio onde a noiva morava. Vim pedir paz por todos os pais que, como eu e a mãe de Isabella, são órfãos de filhos.

O casal Wilson Caetano Araújo, de 51 anos, técnico de produção, e Ângela Araujo, de 46 anos, dona de casa, teve a filha Emily, de 13 anos, assassinada na porta da casa em que moravam em São Vicente, no litoral de São Paulo, em 20 de maio de 2007. Os acusados pelo crime foram um adolescente de 13 anos e outros dois de 16. Nesta segunda-feira, os dois, vestindo camisetas com a foto de Emily, tentavam reunir assinaturas para pedir a realização de um plebiscito em que a população deve decidir se quer mudanças na lei de execução penal. Eles defendem a emancipação de menores que cometeram crimes hediondos e o fim do tempo máximo de reclusão. Daqui a pouco os assassinos da minha filha estarão soltos. Mesmo se o casal Nardoni for condenado, passados um sexto da pena, cerca de cinco anos, eles já devem estarão nas ruas.

Quero aparecer

Na categoria estou aqui simplesmente para aparecer estava o pedreiro desempregado Manoel do Santos, vestido de "Bin Laden". Ele, que foi candidato a vereador nas eleições de 2008 e teve 209 votos, afirmou que estava no local está no local em busca de eleitores. Se eu quisesse acompanhar o caso ficaria em casa vendo pela TV. Eu vim aqui pra aparecer mesmo. Quero disputar essa eleição e preciso alavancar minha candidatura, afirmou o candidato de barba grande, com um chapéu que parece um turbante e um macacão laranja com faixas fluorescentes. "Bin Laden" chegou a local após pedalar por cerca de 40 minutos do Jardim Elisa Maria, na zona norte de cidade.

Outro que foi ao Fórum com o intuito de chamar a atenção foi o pastor Orlando Torres, da Assembléia de Deus. Com um evangelho na mão, o pastor entoava hinos religiosos com um vozeirão de cantor de ópera. Torres era um dos únicos curiosos que não condenaram o casal Nardoni. Não tenho uma opinião formada. Esse negócio de julgamento é muito complicado. Lembra do julgamento de Jesus Cristo? Quer algo mais injusto?, argumentou o pastor.

Figura fácil em eventos com grande presença da mídia, sua última aparição pública foi no velório do estilista Clodovil Hernandes. Vim só para trazer uma mensagem de salvação, justificou.

Apesar da presença de manifestantes e curiosos, a Polícia Militar disse que o dia foi tranqüilo e sem incidentes. De acordo com o tenente coronel da PM Ricardo de Souza Ferreira, 30 policiais foram destacados para realizar a segurança dentro e fora do Fórum. Há ainda uma equipe da PM destacada somente para prestar serviços ao Tribunal de Justiça. A orientação do juiz Maurício Fossen, segundo Souza, foi para deixar que os protestos transcorressem normalmente desde que não atrapalhassem o andamento do júri. Isso faz parte, disse o tenente-coronel.

*Com reportagem de Ricardo Galhardo, Lecticia Maggi e Matheus Pichonelli

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