Internet se transforma em Tribunal e internautas viram jurados do caso Isabella

Ao digitar Isabella Nardoni no Google aparecem quase 700 mil resultados para a busca. No Orkut, passam de mil as comunidades que debatem a morte da menina. A discussão chegou a blogs, sites e, mais recentemente, ao twitter, onde o ¿Caso Isabella¿ e o ¿Justiça Justa¿ acumulam quase 2 mil seguidores em pouco mais de um mês de existência. Pela primeira vez, o Brasil acompanha tamanha mobilização em torno de um crime.

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

  • Veja fotos que marcaram o caso Isabella Nardoni
  • Infográfico: cronologia e versões do caso
  • Veja o especial do iG sobre o caso Isabella Nardoni
  • Reprodução
    Blog mostra fotos do casal com Isabella
    Nem mesmo a morte de João Hélio, que ficou preso ao cinto de segurança do carro da mãe durante um assalto em fevereiro de 2007, no Rio de Janeiro, e foi arrastado por mais de sete quilômetros, despertou tantos sentimentos. Na internet, pessoas que dizem nunca ter tido qualquer contato com a família de Isabella e dos acusados, Alexandre Nardoni (pai da menina) e Anna Carolina Jatobá (madrasta), exercem papel de detetives e juízes do caso.

    A reportagem do iG entrou em contato com três pessoas que acreditam que o casal Nardoni é inocente e três que consideram-nos culpados. Para defender seus pontos de vista, elas não medem esforços. Algumas, passam mais de duas horas diárias na internet em função disso.

    A artesã Maria Goretti Guimarães, de 56 anos, é uma delas. Ela participa de quatro comunidades "Quem matou Isabela Nardoni?", "Eu defendo Alexandre Nardoni", "Justiça sim; Injustiça não" e "Contradições no caso Isabela" e conta que, diariamente, encontra-se pela web com pessoas que, como ela, acreditam na inocência de Alexandre e Anna Jatobá. A internet é de suma importância em casos assim, ela fornece a ferramenta que precisamos para ir mais a fundo em algo que não conhecemos, diz, e acrescenta que ela ajuda na mobilização. Sem ela, não seria possível, afirma.

    Goretti criou o blog Caso Isabella Oliveira Nardoni  e, por causa dele, estudou até mesmo como funciona o reagente Luminol, utilizado pela perícia no apartamento de onde Isabella caiu do 6º andar. Aprendi que ele pode dar positivo para outras substâncias que não sangue. Estudei asfixia mecânica e, por isso, acho que não ela foi esganada, conta ela, que também divulgou vídeos sobre o caso, sendo que um deles já ultrapassou os 30 mil acessos.

    Por que tanto esforço? Porque acredito que nada fizeram, não sou defensora de assassinos. Se um dia for comprovada a culpa, sem sombra de dúvidas, que paguem com os rigores da lei por tamanha barbárie, justifica.

    Arquivo

    Isabella morreu no dia 29 de março de 2008, após cair da janela do 6º andar

    As contradições no processo são os motivos que a assistente social Paula da Silva Pereira, de 45 anos, alega para defender o casal. Criadora do twitter "Justiça Justa", que tem 450 seguidores (até dia 18), prega a inocência do casal e o utiliza para divulgar o blog Nardoni Isabela Nardoni . Nele, publica reportagens divulgadas na imprensa, laudos e entrevistas que supostamente mostram erros da investigação e da perícia.

    Há poucos dias do julgamento, as apelações psicológicas para incriminar ainda mais o casal e levar a população ao clamor público continuam indiscriminadamente, diz o blog. Em entrevista ao iG , Paula nega relação com a família dos acusados e diz que apenas neste último mês entrou em contato, por telefone e e-mail, com Antônio Nardoni, pai de Alexandre. O motivo da dedicação, diz ela, é mostrar o outro lado da história. Quando foi marcado o júri estava na hora de perdermos o medo e darmos um grito por Justiça, afirma.

    O médico aposentado Carlos Souza Goulart, além de fazer parte de diversas comunidades, criou o blog Acreditamos no Casal Nardoni , que possui diversas fotos de Alexandre Nardoni e Anna Carolina com Isabella. Nelas, eles aparecem felizes em festas e situações típicas de uma família harmoniosa.

    Goulart conta que aprendeu a usar o Orkut com a ajuda dos netos e, no começo, achava que era apenas brincadeira de adolescentes, mas percebeu estar muito errado. Hoje, no blog, diz reunir pessoas de diversos Estados do Brasil e até uma amiga que acompanha o caso do Japão. Algumas pessoas nunca se olharam, mas temos aqui um canal pra compartilhar informação, diz.

    Acreditam na culpa do casal

    Mais do que participar de sites e comunidade, a advogada mineira Juliana Campos, de 38 anos, também investiga a morte de Isabella. Com a ajuda de amigas, conseguiu cópias de laudos e partes de depoimentos prestados pelo casal e por testemunhas. No post de quinta-feira, há um trecho do depoimento de Anna Carolina, onde ela conta que brigava muito com o marido. Há ainda fotos e vídeos que podem ser vistos no Blog Caso Isabella Oliveira Nardoni .

    Reprodução
    Blog Caso Isabella mostra provas contrárias ao casal
    A gente buscou pesquisar o assunto para também ser responsável por aquilo que publica. Eu acho que falta ao brasileiro se posicionar diante das coisas, explica.

    Juliana, que acredita veementemente na culpa do casal, conta que, diante da polêmica sobre a esganadura ou não da menina, enviou fotos dos ferimentos e cópias de laudos para peritos de outros Estados, que nada tinham a ver com o caso. Todos foram unânimes em dizer que houve esganadura, afirma.

    O interesse pelo caso saiu, inclusive, do mundo virtual. Agora, sempre que pode, Juliana encontra-se pessoalmente com as amigas que fez pela internet em São Paulo e no Rio Janeiro, que hoje ajudam-na a manter o blog. Diariamente, dedica pelo menos duas horas ao caso, entre pesquisas, entrevistas e atualizações

    Uma das amigas de Juliana, a agente de viagens Andréa Ramos, de 40 anos, conta que o fato de ter uma filha de 6 anos a sensibilizou ainda mais com o crime. Olho para ela dormindo e penso na Ana Carolina (mãe) que não vive mais esses momentos mágicos, afirma.

    Diariamente, de hora em hora, ela atualiza sites e blogs dos quais faz parte. Acompanhei todos os andamentos do processo, diz. A motivação, explica, é o desejo de que não haja mais um caso de impunidade.

    Para ela, além do caso em si, que considera chocante, a internet foi fundamental para disseminar o debate. Acompanhei também o caso da rua Cuba e da Daniela Perez, mas na época não tínhamos as ferramentas que temos hoje. As pessoas só liam as reportagens, hoje elas podem opinar e discutir, ressalta.

    A empresária catarinense Diana Rosa, de 39 anos, diz que começou a acompanhar o caso já no dia seguinte à morte de Isabella. Leio tudo e no começo torci para que não fosse o casal, mas acho que todas as provas apontam para eles, explica.

    Diana ainda se espanta com o clamor público que o caso criou. A população exigiu, foi às ruas, se mobilizou e as autoridades corresponderam, diz, e acrescenta que a real importância deste julgamento deve ser percebida mais a frente.

    Para elas, pelo bem ou pelo mal, o caso Isabella já se mostra como um divisor de águas na Justiça Brasileira.


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