Uncle Boonmee promove viagem inebriante à selva

Filme tailandês fala de fantasmas e reencarnação com lentidão, humor e imagens poderosas

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Cena do filme de fantasmas tailandês Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives
Assistir a um filme lento como os dirigidos pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul à noite, depois de uma maratona que envolve muitas sessões, é sempre um risco. Mas o diretor consegue prender atenção com um misto de fantasia, terror, comédia em Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives ( Tio Boonmee que consegue se lembrar de suas vidas passadas , na tradução do inglês), apresentado para jornalistas na noite da quinta-feira (20) dentro da competição do 63o Festival de Cannes. Apesar de a segunda sessão ter começado às 22h, pouca gente saiu, e o filme foi bastante aplaudido ao final.

Como sempre em se tratando do diretor, fantasia e realidade se misturam ao ponto de não se distinguir uma da outra. Aqui, ele fala de fantasmas – dá para dizer que praticamente se trata de um filme espírita. A história começa com o Tio Boonmee (Thanapat Saisaymar, pedreiro na vida real) do título, que sofre de falência nos rins. Ele chama as pessoas queridas para compartilhar seus últimos dias na casa onde nasceu. A mulher Huay (Natthakarn Aphaiwonk), morta há 19 anos, também aparece. Assim como filho, desaparecido muito tempo atrás, que surge na forma de um macaco que anda sobre dois pés e tem olhos vermelhos brilhantes.

Tudo é tratado com a maior naturalidade – e humor. Em dado momento, Jen (Jenjira Pongpas) pergunta a ele por que deixou o cabelo crescer tanto. Em meio à trama, o Tio Boonmee relembra suas vidas passadas como um búfalo e uma princesa. E arrepende-se de ter matado comunistas e muitos insetos na vida. Há um subtexto político sobre uma vila real ocupada pelo exército, além de uma homenagem ao cinema tailandês de antigamente, que está desaparecendo com seus seres toscos e histórias em quadrinhos.

Getty Images
O cineasta Apichatpong Weerasethakul em Cannes
Com seus planos longos e imagens poderosas, Uncle Boonmee é uma experiência. O público é convidado a visitar a selva com seu verde inebriante e seus sons. Ao fim, sente-se imerso naquele ambiente. É um filme para viajar como nenhum outro do festival e poderia agradar a Tim Burton – tomara.

Na coletiva de imprensa no início da tarde da sexta-feira (21), Weerasethakul falou sobre os problemas para chegar a Cannes devido à situação política na Tailândia, em que protestos contra o governo levaram a mortes e destruição. “Foi difícil, só consegui chegar ontem à noite. Meu passaporte ficou preso no centro de Bangcoc, um lugar perigoso de ir. Pedi um passaporte de emergência. Aí fui à embaixada francesa para conseguir o visto, mas estava fechada. Me mandaram para a espanhola, mas eles também estavam fechando. Finalmente, consegui na embaixada italiana, que também fechou pouco depois”, disse. “Estava muito tenso. Havia rumores de tiroteios e bombas. É a situação mais extrema e violenta da história da Tailândia. Mas acho que vai haver mudança, é um momento importante. Sempre houve tanta diferença entre ricos e pobres que chegou o momento em que isso está explodindo”, completou.

O filme faz parte de um projeto no nordeste da Tailândia, onde o cineasta foi criado, que promoveu diversas atividades com jovens da região. No local, as pessoas acreditam na transmigração de almas entre seres humanos e animais. “A paisagem mudou, hoje há tecnologia, mas todo o mundo ainda acredita em fantasmas. Talvez haja alguns aqui”, disse, rindo. Ele falou da relação entre espíritos e cinema. “O básico do cinema é a ilusão. Uso espelhos para duplicar personagens, os filmes contemporâneos abandonaram essa técnica. Nos filmes, os atores nunca envelhecem, mesmo que tenham morrido. É como a preservação do espírito dessas pessoas”, disse.

Ele afirmou ainda que gostaria de rodar uma produção no México ou na América do Sul. “Lá existe uma riqueza de crenças com a qual me identifico”, disse o cineasta, que disse que adoraria filmar numa grande cidade. Apesar disso, todos os seus longas, inclusive este, foram rodados na floresta. “Acho que é um vício. Porque gosto da imagem, do verde, da cor, do som. Mas é um equilíbrio delicado para não repetir o que já fiz. Em geral, rodo na floresta à noite. Neste, filmei de dia e manipulei a imagem, algo que também tem a ver com o cinema antigo.”

Ele critica muito o cinema feito na Tailândia atualmente, composto apenas de comédias, filmes de ação ou históricos. “Mas não culpo os cineastas, o problema é o sistema implantado em suas cabeças”, afirmou. “Não podemos fazer filmes que sejam ameaça à segurança nacional, e tudo pode entrar nessa categoria. Não é uma situação saudável não podermos nos expressar pela imagem em movimento. Espero que isso mude na minha geração”, afirmou o cineasta de 40 anos.

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