Uma jornalista brasileira em Cannes

Disputas por credencial, fila para entrar nas salas, 16 horas de trabalho: tudo vale para estar no festival de cinema

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

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Sonho de todo cinéfilo, Festival de Cannes pode ser traiçoeiro com jornalistas de primeira viagem
O Festival de Cannes é o sonho de todo cinéfilo – pelo menos, desde o momento em que ele percebe que o Oscar, exibido na televisão todo ano, é meramente um coroamento daquilo que foi feito durante o ano. Cannes é o que vai acontecer durante boa parte do ano. Para mim, fanática por cinema desde meus 13, quando vi Christian Bale ainda garotinho (e calminho) em O Império do Sol , era um sonho e tanto. Ele se realizou em 2008. Achei que ia ser uma experiência única, mas descobri que quem vai a Cannes uma vez não quer mais deixar de voltar.

Naquela minha estreia, cheguei a Cannes na terça, um dia antes do início – depois descobriria que este não é um bom negócio, melhor estar lá na segunda-feira. Uma fila enorme me aguardava para pegar minha credencial. Esse é um momento crucial, pois determina quanta fila você vai ter de pegar durante 12 dias – são 4 mil jornalistas, organizados por seis cores de credencial. A minha era azul, logo apelidada de Smurf. A minha Smurfinha não era lá das melhores. Me fez pegar filas de uma hora e meia para mesmo assim quase não entrar em Che , de Steven Soderbergh, e Vicky Cristina Barcelona , de Woody Allen – nesta sessão, o segurança chegou a parar a fila exatamente na minha vez, provocando pânico generalizado. Pouco depois, refeita a contagem, ele permitiu a minha entrada e de mais uns dez.

Entrar em coletiva, então, nem pensar. Logo na abertura, com Ensaio sobre a Cegueira , de Fernando Meirelles, obviamente um filme fundamental para uma brasileira, criei toda uma estratégia: fiquei sentada lá em cima, próxima da porta de saída. Quando senti que o longa estava terminando, me levantei e fiquei em pé no corredor. Assim que a tela escureceu, antes dos créditos, saí literalmente correndo para pegar a fila da sala de coletivas. Fui a primeira das Smurfetes a chegar. Nem assim deu. Porque, antes da credencial azul, entram as brancas, as rosas com bolinha amarela (não, não é piada) e as rosas. Tive de assistir pela televisão.

Para piorar, o meu hotel, com quarto dividido com três amigos queridos, ficava longe e fora de mão. Choveu todos os dias – antes da sessão de gala de Linha de Passe , de Walter Salles e Daniela Thomas, foi um dilúvio. Eu só levei sandálias e, principiante que era, novas – queria fazer bonito no figurino. Resultado: duas bolhas nos dedinhos e uma enorme na planta do pé, que me faziam andar como o Corcunda de Notre-Dame. Nessa noite descobri outra coisa. Depois do coquetel informal do filme dos brasileiros, no hotel Martinez, teria de andar uns 45 minutos de volta ao meu flat. Resolvi pegar um táxi. Esperei por uma hora. Debaixo de chuva. Pois é, Cannes tem só uns seis táxis. Mas tudo bem: no final, assisti em primeira mão a filmes excelentes, como A Mulher sem Cabeça , de Lucrecia Martel, e Valsa com Bashir , de Ari Folman.

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Empurra-empurra é uma constante entre os jornalistas para entrar em coletivas concorridas
Em 2009, minha vida melhorou. Cheguei para pegar minha credencial pelo iG e, ufa, era rosa. O tempo de fila diminuiu consideravelmente. Paguei mais caro, mas me hospedei num hotel bem mais próximo e dividi com um único amigo. O tempo de espera para o banho e de deslocamento para o Palais ficou bem menor. Consegui entrar em quase todas as coletivas, tirando a de Bastardos Inglórios , porque foi um empurra-empurra danado. Mas continuei cometendo erros básicos. Resolvi não pegar o café da manhã no hotel e fiz uma comprinha no supermercado. Claro que ela não durou dois dias. E aí eu tive de ser salva por barrinhas de cereal fornecidas por um amigo, quase diariamente. Devo uma caixa inteira para ele. Mas tudo bem: vi Lars Von Trier chocar a plateia com Anticristo , Tahar Rahim ( O Profeta ) e Christoph Waltz ( Bastardos Inglórios ) virarem estrelas, Pedro Almodóvar, Ken Loach e Michael Haneke de perto.

Neste ano, vou estar mais preparada, fazendo uma compra enorme para o café da manhã e os lanches para a jornada das 8h30 à 1h – conseguir almoçar e jantar no mesmo dia é luxo. Já percebo, porém, que vou ter problemas: a previsão é de chuva na primeira semana em Cannes, e eu só trouxe sandálias e sapatilhas de pano. O que não vai mudar, e talvez até piore, é a pouca disposição dos colegas europeus em tomar banhos, que obriga a mudar de cadeira ou ficar sem respirar. A seleção deste ano parece mais fraca do que a de 2009. Mas eu confio, até porque alguns dos meus diretores favoritos estão na lista: Abbas Kiarostami, Jia Zhang-ke, Mike Leigh, Apichatpong Weerasethakul.

E ainda vou ver de perto Jean-Luc Godard, que completa 80 anos em dezembro. Além do fato de ele ser uma lenda, tenho um motivo pessoal para estar animadíssima: dez anos antes do meu nascimento, meu pai, também cinéfilo, assistiu a Pierrot Le Fou (ou O Demônio das Onze Horas ) e escolheu meu nome baseado na personagem interpretada por Anna Karina. Nunca faço isso, mas desta vez acho que vou tirar uma foto.

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