“The Artist” emociona e oferece respiro em competição pesada

Saudosista, filme é inteiramente mudo e rodado em preto-e-branco

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

A competição do Festival de Cannes 2011 ofereceu um respiro aos jornalistas na manhã deste domingo (15). Depois de um dia barra-pesada – um pedófilo em “Michael” e um menino abandonado e rejeitado pelo pai em “Le Gamin au Vélo” –, a imprensa pôde rir, emocionar-se, vibrar e recordar, tudo ao mesmo tempo, como na época de ouro de Hollywood, com “The Artist”, de Michel Hazanavicius. O filme francês não foi apenas bastante aplaudido ao final (raridade nas sessões de imprensa, principalmente as matutinas) como também algumas vezes em cena aberta.

O artista do título é Georges Valentin (Jean Dujardin), que guarda mais do que uma semelhança ou duas com o astros de antigamente, como Rodolfo Valentino, Douglas Fairbanks e Errol Flynn. Ele é a estrela maior da constelação hollywoodiana da era muda, que conhece por acidente a aspirante a atriz Peppy Miller (Berenice Bejo), quando os dois se trombam literalmente.

Pouco depois, reencontram-se num set de filmagem. Os dois conectam-se imediatamente, mas Georges é casado, é um grande astro, e ela, uma quase figurante. Mas chega o som, e tudo muda em Hollywood. Como aconteceu de verdade com atores como Rodolfo Valentino, Valentin é colocado de escanteio. “Jogue fora o velho, dê boas vindas ao novo!” era o lema. Peppy ascende, e Georges entra em decadência total. Ainda insiste no mudo, mas é atropelado pelas transformações do cinema.

Numa época em que o 3D invade tudo – até os filmes pornôs – e que tudo muda quase diariamente, fazer um longa-metragem mudo e em preto-e-branco certamente é uma ousadia. “The Artist” brinca com os signos desse tipo de produção, sem tornar-se um pastiche.

A mistura de comédia, melodrama e história de amor, com evidente saudosismo, pega o público mais pelo coração do que pelo cérebro, o que não significa que seja tolo. De realização complexa, com ritmo e tom corretos e belas cenas, “The Artist” fala como as transformações atropelam algumas pessoas, mesmo que elas sejam célebres, faz um estudo da construção e destruição da fama, do pavor do esquecimento. Foi uma agradável surpresa de uma produção incluída na competição no último minuto.

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Jean Dujardin, Bérénice Bejo e o diretor Michel Hazanavicius em Cannes
Na coletiva de imprensa que se seguiu à sessão, o diretor contou que desejava fazer um filme mudo fazia tempo. “Queria contar essa história dessa forma, que é puro cinema, puramente visual. Grandes cineastas da história eram muito ligados a esse formato”, disse Hazanavicius.

Ele comentou sobre a coragem de fazer um filme mudo e preto-e-branco. “Não quero dar lição a ninguém. Você precisa ter coragem e falo por todos aqui. Queria prestar tributo ao produtor Thomas Langmann, que tornou o filme possível. A liberdade vem com preço, é difícil impor este filme num mercado que é governado por outras regras.” Sobre o futuro comercial, ele brincou: “Acho que vai ser fantástico!”.

Para Langmann, a França é um país mágico: “Podemos ter vários tipos de cinema, inclusive um filme mudo em preto e branco. Contanto que tenhamos talento, tudo bem. Acredito que as pessoas queiram ver o diferente, se for bom”.

Bérénice e Jean viram filmes antigos por quase um ano e estudaram sapateado por cinco meses, todos os dias, para interpretar seus personagens. “Na hora, falei: ‘Claro que quero aprender a sapatear!’. Mas, depois, foi bem duro”, contou Jean. Para Bérénice, não foi difícil fazer um filme mudo: “Eu estranhei porque achava que estava sendo exagerada, mas percebi que era um jeito diferente de atuar”. Jean adorou não falar nenhuma palavra – ou melhor, não emitir nenhum som no filme. “Foi interessante. Acho que há palavras demais nos filmes de hoje.”

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