Sessão de Hors la Loi é tensa

Projeção de filme de Rachid Bouchareb sobre Guerra da Argélia teve segurança reforçada e proibição de entrada com garrafas de água

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Cena do longa-metragem Hors la Loi : sessão no Festival de Cannes teve segurança reforçada
Hors la Loi (fora da lei, na tradução do francês), de Rachid Bouchareb, provocou polêmica antes mesmo de sua exibição, dentro da competição do 63o Festival de Cannes. O diretor emitiu um comunicado logo no dia 13, no início do evento (leia no final).

Um esquema de segurança reforçada foi montado para a sessão de imprensa na manhã desta sexta-feira (21), com duas revistas de bolsas e proibição de entrar com garrafas de água. Depois de assistido o filme, a impressão é a de que não era para tanto. Hors la Loi toca, sim, em questões delicadas como a luta pela independência da Argélia dentro da França e a existência da Le Main Rouge (a mão vermelha), braço do serviço secreto autorizado a assassinar líderes argelinos. Mas também fala da luta cega e violenta pela revolução, promovida pela organização FLN.

Bouchareb conta a história por meio de três irmãos. Jamel Debbouze é Saïd, responsável pela mudança da mãe para a França e interessado em sair da pobreza, nem que seja fazendo pequenos golpes e explorando a prostituição. Sami Bouajila interpreta Abdelkader, o intelectual que vai preso logo depois do massacre de argelinos numa passeata no dia da rendição alemã, em 1945, e mais tarde torna-se líder da luta armada. Roschdy Zem faz Messaoud, o soldado que luta na Indochina e volta para ser o executor da organização. Cheio de ação, Hors la Loi procura uma estrutura de westerns, ou de filmes de gângsteres, mas também se aproxima demais do melodrama e acaba parecendo um novelão.

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Rachid Bouchareb: comunicado com explicações
Na lotada coletiva de imprensa que se seguiu à exibição, a primeira pergunta foi justamente sobre o esquema de segurança que envolveu a projeção. “Só estou parcialmente surpreso, por conta de tudo o que foi feito para não ser mostrado aqui. Agradeço a Thierry (Frémaux, delegado geral do festival) por ter se esforçado para que a exibição acontecesse”, disse. “Eu sabia que o passado colonialista francês ainda era uma questão tensa. Mas queria abrir um debate calmo, não um campo de batalha. Acho que a reação violenta foi exagerada. As pessoas disseram muitas coisas, fiquei deprimido. A intenção não era criar atrito, pelo contrário, o objetivo era abrir uma discussão para que no futuro haja um encontro entre franceses e argelinos e o passado fique para trás. Quem viu o filme percebeu que não há animosidade em relação à França.” Mais tarde, Bouchareb voltou ao assunto. “Há espaço para todos, não é um filme contra ninguém”, disse.

Quando um jornalista começou fazendo uma pergunta destacando a coragem do diretor, Bouchareb interrompeu: “Não tem nada a ver com coragem, só fiz um filme. Sou cineasta”. Ele negou também que um ministro teria pressionado para que o filme não fosse inscrito como uma produção francesa. “Isso é mentira. Houve várias pressões, mas não essa. É uma produção franco-argelina”, disse. O diretor afirmou também que não houve pressão vinda da Argélia. “Ninguém propôs nenhuma mudança, mesmo que a gente falasse da violência política por parte dos argelinos. Todos têm medo da censura lá, mas não foi parte da minha experiência.”

Para concluir, ele voltou a falar que propõe um debate calmo sobre o assunto. “A França não pode manter essa posição, essa relação tensa com suas ex-colônias. Eu fiz um filme, agora é hora dos historiadores, do público, dos políticos iniciarem a discussão. Não vou discutir com pessoas que querem transformar este filme em campo de batalha.”

Leia o comunicado emitido por Rachid Bouchareb no dia 13 de maio, segundo dia do Festival de Cannes:

“Nas últimas três semanas, tem havido um debate sobre a exibição de meu filme, embora as pessoas que estejam tomando parte nessa discussão não o tenham assistido... Em face dessa controvérsia, e para restaurar alguma calma nesse contexto superaquecido, me parece importante destacar dois pontos:

Hors la Loi é um trabalho de ficção, uma saga que conta a história de três irmãos argelinos e sua mãe num período de mais de 30 anos, do meio dos anos 1930 à independência da Argélia em 1962.

O cinema precisa estar na posição de abordar todos os tipos de assunto. Eu fiz isso como cineasta, com minhas próprias sensibilidades, sem forçar ninguém a compartilhá-las. Depois das sessões virá o tempo para o debate público. Profundamente partidário como sou da liberdade de expressão, parece normal para mim que algumas pessoas possam não concordar com meu filme, mas espero que essa discordância possa ser expressada numa atmosfera calma como parte de uma serena troca de ideias.

A França é vista no mundo inteiro como uma terra de liberdade, e estou particularmente orgulhoso de poder mostrar meu filme aqui, no mais prestigioso dos festivais. Espero que a exibição aconteça num espírito de respeito mútuo e clima calmo.”

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