Seleção rigorosa é o segredo de Cannes

Sucesso do festival está em colocar na competição apenas o que de melhor é produzido no cinema mundial

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Getty Images
O presidente do festival Thierry Frémaux
Quem já foi ao Festival de Cannes sabe que ali são exibidos os melhores filmes produzidos no ano, à exceção de uma ou outra coisa que não tenha ficado pronta a tempo. Foi lá no Grand Théâtre Lumière que Christoph Waltz nasceu para o mundo no ano passado, na primeira exibição mundial de Bastardos Inglórios . Ele entrou em Cannes um desconhecido e saiu vencedor do prêmio de melhor ator e candidato incontestável ao Oscar, que ganharia também, quase dez meses mais tarde.

O mesmo aconteceu com Tahar Rahim, o protagonista de O Profeta , longa-metragem de Jacques Audiard que mais tarde concorreu ao Oscar de filme estrangeiro, assim como A Fita Branca , de Michael Haneke. O Grande Prêmio do Júri do primeiro e a Palma de Ouro do segundo foram a chancela de que precisavam para alcançarem públicos mais amplos ao longo do ano.

O segredo do Festival de Cannes é mesmo sua seleção. O presidente Gilles Jacob e o delegado geral Thierry Frémaux fazem questão de selecionar filmes que realmente merecem estar no festival. Dificilmente erram. Pode até ser que Aconteceu em Woodstock não seja o melhor filme de Ang Lee, ou que pessoalmente não se goste da violência explícita de Kinatay , de Brillante Mendoza, mas não há como discordar de que ambos tinham razão de estar ali. Eles cuidam tanto da qualidade da seleção que nesta 63a edição decidiram fechar a competição com 18 em vez dos 20 filmes tradicionais – a dois dias do início do festival, acrescentaram o novo de Ken Loach, Route Irish , completando 19 produções.

Frémaux explicou na divulgação da lista que provavelmente por conta da crise econômica mundial menos produções se inscreveram neste ano. A postura é bem diferente, por exemplo, do Festival de Veneza, que costuma superpovoar a competição com filmes de expressão artística zero. Cannes ousa colocar Jean-Luc Godard na mostra Um Certo Olhar, dedicada a filmes de linguagem mais experimental ou de perfil menos chamativo. Se a obra não tem o perfil da competição, não importa quem está atrás da câmera.

Divulgação
O ator Russel Crowe em cena de Robin Hood , de Ridley Scott, que abre o Festival de Cannes neste ano
Não parece também haver vontade para fazer política para agradar um país ou outro – à exceção, talvez, da França. O cinema argentino pode ter acabado de sair com um Oscar de produção estrangeira, mas, se Jacob e Frémaux acharem que não nenhum merece estar na competição em Cannes, não haverá argentinos. Aliás, o único latino-americano concorrendo à Palma de Ouro é Biutiful , de Alejandro González Iñárritu, uma co-produção do México com a Espanha. Diferente de 2008, quando havia dois argentinos ( Leonera e La Mujer sin Cabeza ) e dois brasileiros ( Linha de Passe e Ensaio sobre a Cegueira ) na competição.

O Festival de Cannes ainda mescla o melhor da arte com seus momentos de glamour. Por isso, não faltam títulos badalados – mas fora de competição. A começar pelo Robin Hood de Ridley Scott e Russell Crowe, que abre o evento neste ano. Segundo Frémaux, Scott é “um autor de Hollywood respeitado no mundo todo”. Em 2009, Up – Altas Aventuras iniciou no mesmo ponto sua corrida ao sucesso e ao Oscar. Sobre a escolha de outro grande filme de estúdio para abrir o festival, Frémaux declarou: “A crise financeira deveria nos encorajar a preservar o espírito de dois aspectos fundamentais do cinema: Cannes é um festival que precisa ser útil aos filmes, aos artistas e aos profissionais. Cannes também é um festival que precisa fazer as pessoas sonharem, dar confiança e projetar filmes para o futuro”.

Ao longo dos 12 dias de cinema, ainda passam pelas escadarias vermelhas do Grand Théâtre Lumière as equipes de You Will Meet a Tall Dark Stranger , de Woody Allen, T amara Drewe , de Stephen Frears, e Wall Street – Money Never Sleeps , de Oliver Stone.

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