Premiação tem zebras inexplicáveis

Dificuldade na escolha dos vencedores resulta em surpresas curiosas

Por Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Divulgação
Palma de Ouro em 2011, "A Árvore da Vida" dividiu a imprensa entre os que amaram e detestaram o filme
A sensação de que estava difícil prever os ganhadores do Festival de Cannes foi confirmada pela cerimônia de premiação , na noite do domingo (22), que acabou tendo várias zebras, algo que não vinha acontecendo nos últimos anos.

Verdade que o vencedor da Palma de Ouro, “A Árvore da Vida” , do americano Terrence Malick, estava em todas as listas de favoritos, apesar da recepção dividida pela imprensa, que amou e se decepcionou em igual medida e muitas vezes criticou o paralelo da vida familiar dos O’Brien com a criação do universo. Mas o júri acertou ao dar o principal troféu a Malick, o recluso diretor de visão poética sobre o mundo. As imagens de “A Árvore da Vida” são daquelas que não se esquece facilmente – e é de imagens, afinal, que trata o cinema.

Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, por sua vez, comprovaram que nunca vão a Cannes a passeio. Juntam um Grande Prêmio do Júri, espécie de segundo lugar, às duas Palmas de Ouro (“Rosetta” e “A Criança”) e ao troféu de roteiro de “O Silêncio de Lorna”, com “Le Gamin au Vélo” , seu filme mais doce e inspirado em contos de fadas, sobre um menino abandonado pelo pai e abrigado por uma cabeleireira.

Os Dardenne tiveram de dividir seu Grande Prêmio com o turco “Bir Zamanlar Anadolu’da” , de Nuri Bilge Ceylan, uma jornada meio fantasmagórica pela paisagem, a realidade e algumas lendas do país – na tradução do inglês, o filme chama-se “Era uma vez na Anatólia”. De certa forma, portanto, os dois brincam com contos, de fada ou de folclore, montando seus filmes em cima de imagens poderosas.

O forte de “Drive” , que deu o troféu de direção ao dinamarquês Nicolas Winding Refn, é justamente o visual, impressionante e afastado da crueza realista, para contar uma história de um golpe que dá errado para o motorista-dublê vivido por Ryan Gosling. É um noir moderno e hipnotizante, passado em Los Angeles, cheio de luzes de neon e embalado por uma trilha pop. Tem proposta, tem estilo, e a premiação faz todo o sentido.

A escolha de Kirsten Dunst como melhor atriz, por “Melancolia” , esconde uma pergunta, apesar de seu bom trabalho: não teria sido um prêmio de consolação, depois de Lars Von Trier literalmente dar um tiro no pé ao levar uma piada longe demais? Parece bem possível que, não tivesse o dinamarquês causado uma polêmica desnecessária, seu filme poderia almejar categorias maiores, pelo tipo de obra preferida pelo júri presidido por Robert De Niro e composto pelos cineastas Olivier Assayas, Johnnie To e Mahamat-Saleh Haroun, pela roteirista Linn Ullmann, pela produtora Nansun Shi e pelos atores Martina Gusmán, Jude Law e Uma Thurman. Até porque, a bem da verdade, ignorar Tilda Swinton, por “We Need to Talk About Kevin” , é um pouco demais.

Na categoria ator, zebra total. O astro francês Jean Dujardin, que faz um astro do cinema mudo em decadência com o advento do som em “The Artist” , não aparecia na lista de favoritos de ninguém. Sua pinta de galã antigo, um misto de Douglas Fairbanks e Gene Kelly, funciona no delicioso filme, mas, a bem da verdade, Dujardin parece funcionar em nota única.

Mais surpreendente ainda é a escolha de “Hearat Shulayim” , de Joseph Cedar, como melhor roteiro. Cheio de truques para contar a história da rivalidade entre pai e filho acadêmicos, nem era digno de estar na competição, que dirá levar algo. A mesma coisa para o atrapalhado “Polisse” , de Maïwenn, que ganhou o prêmio do júri. O filme destoa totalmente do tipo de produção que os jurados preferiram, com seu visual pobre, supostamente documental, e dramaturgia indigente. Numa premiação que obviamente privilegiou a visão poética, estilizada, afastada do realismo, foi a escolha que menos fez sentido.

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